Suicídio na Coréia do Sul

Oedolgae, Ilha Sul-Coreana, Jeju, Locais favoritos dos suicidasQuem ou o que culpar no evento de um suicídio? Os dramas familiares, os desapontamentos profissionais, as falhas nos relacionamentos amorosos? Os outros, sempre os outros? Pergunto porque é exatamente isso que a Coréia do Sul vem fazendo desde o recente suicídio do seu último presidente, Roh Moo-hyun, de 63 anos.

Antes de pular de um morro próximo à sua casa, Roh deixou um bilhete de despedida que dizia, entre outros: “(…) Continuar vivendo seria um incômodo para os outros. (…) Não há motivo para tristeza, pois a vida e a morte fazem parte da natureza (…)”.

Enfermeiros que atendem o hotline da Centro de Prevenção de Suicídio aqui em Seul – que ironicamente Roh fundou – dependem da escolha certa de suas palavras para tentar fazer com que a outra pessoa na linha coloque o plano de tirar a própria vida de lado. E nessas horas, a única palavra que tem alguma importância é a esperança, a expectativa de que as coisas possam melhorar.

Alguns suicidas não fazem questão de fazer com que os outros compreendam as suas ações, ou a última ação de todas, mas alguns deles, desses que ligam para o tal centro de prevenção, tentam compreender em primeiro lugar o motivo deles estarem ali, a um passo do abismo.

Se perguntam:

Por que eu me permiti chegar numa situação como essa? Por que ninguém nunca se importou com os sinais que as coisas não estavam indo bem comigo? Por que os outros, os vilões, continuam pisando na minha ferida visivelmente aberta? Por que o mundo faz questão de me esmagar continuamente? Por que ninguém encontrou tempo para me escutar?

Mea culpa?

Fora a última mensagem, nunca saberemos exatamente qual foi a última gota d’água da taça de paciência e perseverança do ex-presidente Roh, entre tantos outros exemplos na Coréia do Sul, que atualmente possui o maior número de suicidas do mundo.

Falta de religião e medo de se tornar uma alma pedida não explica, porque existem em torno de 15 milhões de cristãos por aqui. Nem Confucionismo é desculpa nessas bandas, porque apesar das rígidas normas hierárquicas, os seguidores do maior filósofo oriental, o chinês Confúcio, devem aprender a zelar o próprio corpo.

Então por que a certeza de que a vida não vale mais a pena ser vivida? Por que é tão fácil esquecer que não estamos aqui de férias, mas sim com uma missão, que por mais diversa que ela possa parecer, continua tendo o mesmo intuito de progresso pessoal, logo espiritual?

Para os que choram por aqueles que decidiram partir antes do tempo, a dor também é profunda e incompreensível. Tão profunda que muitas vezes essas pessoas não conseguem enxergar a situação claramente, culpando os inocentes e inocentando os culpados.

Pouco antes de se matar, o ex-presidente sul-coreano Roh estava tentando provar sua inocência (no senso da palavra como: “Mas eu não sabia…”) num caso de corrupção levantado pelos funcionários mais temidos da península, os mesmos que trazem a ditadura de volta ao presente, os promotores de justiça públicos.

No passado Roh foi um advogado dos direitos humanos e durante seu mandado presidencial ele colocou no topo do serviços secretos um colega humanista, o que brecou muitas investigações absurdas por parte da promotoria.

Roh era muito respeitado pelo povo, o mesmo povo que hoje acredita que o motivo dele ter se suicidado foi a pressão dos promotores (incentivados pelo atual presidente Lee-Myun-bak, da oposição). Esses promotores dizem que estavam a um passo de provar o envolvimento do ex-presidente, inclusive o de sua família, numa transição ilícita de 6 milhões de dólares, que aqui entre nós, nem é tão alta assim, já que estamos falando de corrupção. Com a morte de Roh, todavia, o caso foi suspendido.

É mais fácil dizer que a culpa é sempre dos outros. Se Roh realmente só deu uma, ou poucas deslizadas durante sua vida política, ele poderia ter aceito as acusações, o que significaria ir eventualmente para a prisão, devolver o dinheiro em questão, perder a honra e o respeito perante a sociedade, mas ainda teria sua dignidade.

O amor pela vida vai muito mais além do que mera crença religiosa e suas conseqüências relacionadas ao assunto. Esse amor também vai mais além do que honra, ou pelo menos deveria – na prática, já que na Coréia do Sul e no Japão, por exemplo, o suicídio faz praticamente parte da cultura – um tanto macabra, devo adicionar.

Existe hoje a dúvida de que o suicídio de Roh possa ter sido um homicídio, mas quem quer saber disso? O povo sul-coreano se revolta ainda mais com as alegações, dizendo que tais especulações são um insulto para com a memória do falecido ex-presidente. Eles acham mais nobre quando alguém de grande influência tira a própria vida, do que imaginar que essa pessoa tenha estado à mercê de assassinos, sem controle e sem soberania.

E exatamente é aí onde reside o perigo maior, quando o povo que já tem uma simpatia pela idéia de suicídio, vê um ídolo se matar. Nesses olhos, o suicida não desistiu de enfrentar os problemas. Ele não fugiu da situação. Também não deixou a sua família num estado de total desespero e choque, por mais que essa tenta se convencer que ele tenha servido de escudo no seu grand finale. Mas o seu grande e último feito foi de decidir que ele está acima de todos os problemas ao seu redor. Ele está acima da vida.

Peço perdão aos seguidores e admiradores de Roh se minhas palavras machucam, mas por mais que ele tenha sido uma pessoa que cometeu mais o bem do que o mal, deveria ter levado em conta seu lugar na sociedade, seu nível de adoração e as conseqüências de seu mergulho para a morte do morro de 300 metros de altitude enquanto sua família provavelmente ainda dormia nas primeiras horas da manhã daquele sábado de fim de primavera. Quando alguém passa a ser um ídolo, suas ações não podem ser mais egoístas. É como uma mulher que só pensava em si antes de engravidar e de dar à luz à sua criança. A partir do nascimento, ela já não pode mais agir pensando somente em si.

Se a taxa de suicídio aumentar na Coréia do Sul, o que infelizmente irá, tanto Roh Moo-hyun quanto as atrizes e os atores famosos daqui que também se suicidaram, terão uma parte da culpa em cada caso, mesmo que do outro lado da vida.

Já que a base do Confucionismo vem do Taoísmo, os coreanos que praticam ou não essa tradição esotérica (para não chamar de religião), deveriam em momentos de desesperança se lembrar da seguinte frase:

“Domina-se o mundo deixando as coisas seguirem o seu curso. E não interferindo.” Tao Te Ching.

Luciana B. Veit

Comments

  1. Alexandre says

    Excelente texto, e fechou com chave de ouro.
    Infelizmente chegamos ao final de 2010 com ainda mais casos de celebridades se suicidando na coréia.

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