“Não, minha senhora. Essa não é uma folha de bananeira, mas sim meu passaporte brasileiro”, pensei (alto?).
– Perdão? – perguntou a fiscal no controle de passaportes no aeroporto de Stuttgart, como se tivesse lido meus pensamentos.
– Nada não! – respondi, sentindo minhas bochechas queimarem de vergonha por ter que passar por mais um interrogatório, com a fila triplicando atrás de mim.
Para agilizar o processo, resolvi metralhar as respostas das perguntas antes mesmo delas terem sido feitas: – Venho a turismo por duas semanas desta vez, falo Alemão, não sou dançarina de boate, não irei me alojar debaixo da ponte e sim, tenho cartão de crédito. Já que não vim diretamente da selva, não preciso do atestado da vacina da febre amarela. O Brasil não exporta somente bananas e por mais incrível que pareça, é um país industrializado.
Engoli saliva, tomei fôlego e continuei: – Sou casada, tenho um filho e não conheci meu marido em nenhuma circunstância duvidosa. Levo uma vida decente, assisto óperas e filmes de terror. Gosto de comida apimentada e de beber água de côco. Não suporto pessoas mal-cheirosas e…
– PASSAGEM DE VOLTA! – falou a fiscal num tom firme, alto e claro o suficiente para eu e todos ao meu redor ouvirem.
Não posso negar que eu estava um tanto frenética, então por um instante me esqueci o que estava fazendo ali.
– PASSAGEM!!!! – insistiu a fiscal.
Sorri amareladamente e entreguei a passagem. Em troca, recebi um carimbo em uma página nova do meu livreto verde musgo.
“Por que eles sempre tem que carimbar em uma página nova? Por que não podem reutilizar uma página com um carimbo de um outro país?”, refleti a caminho da esteira de bagagens.
Minutos mais tarde, passando pelo canal verde de Nada a Declarar, me lembrei das vezes em que chegava na Europa do Brasil carregada de todo tipo de comprimidos, pó e ervas: guaraná, curau, fubá, farinha mista (dessas que acompanham feijoada), pão de queijo, carqueja e erva doce. Quando era sorteada para abrir as malas, não sabia se ria ou gargalhava da feição dos fiscais, enquanto eles tentavam decifrar cada saquinho plástico.
– São diretamente da selva. Antes de voltar para sua tribo em canoa, um índio subiu a árvore onde moro e me entregou os ítens pessoalmente.
Os fiscais me fitaram como se fosse uma alien. No entanto, quando encontraram uma garrafa de pinga enrolado em meias de seda, os fiscais sorriram orgulhosos, porque a Pitú eles já conheciam até bem demais.
– Pode passar!
Com as mãos praticamente atadas, procuro hoje aceitar sem maiores revoltas o fato que a imagem dos brasileiros no restante do mundo sempre será diminuída, sendo Europa, África ou Ásia, por mais que eles vibrem com nosso futebol, dancem nosso samba, escutem nossa bossa nova, lêem nossa literatura, bebam nossa pinga e sonhem com nossas paisagens.
Para viver em paz e livremente, engulo muito preconceito e também sou obrigada a defender minha imagem e minha honra perante muitos comentários infelizes, mas não posso negar que tudo seria melhor se nós, brasileiros, fôssemos levados mais a sério.
Mas até esse dia chegar – se chegar – talvez grave um CD intitulado : “Essa não é uma Folha de Bananeira”, para assim me poupar dos interrogatórios nada originais dos fiscais das fronteiras.
Luciana B. Veit
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[...] Aterrissamos, ninguém bateu palmas porque isso não se faz na Ásia, e seguimos para o controle de passaportes e esteira de bagagens. Tudo correu bem. Nada de interrogatório (vide “Essa não é uma Folha de Bananeira”). [...]