Crônicas

Pijama em público

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Acabo de ler um artigo no jornal alemão “Die Welt” que me trouxe de volta à realidade. Já tendo passado por inúmeros países achava que conhecia um pouco de mundo, mas não! Pois então, o artigo conta sobre uma proibição das autoridades irlandesas de darem ajuda de custo social para aqueles que estiverem vestidos de pijama no estabelecimento.

Lendo um pouco mais a respeito, os europeus estão furiosos pelo fato de muitos pais levarem os filhos na escola de manhã de pijama. Eles querem proibir que isso aconteça, porque não sabem o que pode vir depois do pijama: cueca e meia, calcinha e sutiã (ou sem sutiã)? Será que o fundador da Playboy, Hugh Heffner, iniciou a moda de se sentir em casa em todo e qualquer lugar?

Na é comum ver pessoas de pijama na rua, sem contar as famosas mulheres de Shanghai e suas camisolas, mas o motivo não é simplesmente preguiça ou comodidade, mas sim classe social. Os chineses mais pobres jamais gastariam dinheiro com pijama, considerado um artigo de luxo. Eles dormem com roupa velha e surrada mesmo. Agora aqueles que podem gastar um pouco mais, compram pijamas para fazer questão que todo mundo veja. É muito comum ver gente passeando com o cachorro de pijama, fazendo compras, cortando o cabelo no salão (adultos e crianças). Já no Camboja e na Tailândia por exemplo, são mais as crianças que saem de pijama em público.

Uma vez escrevi uma crônica sobre o direito que cada um devia ter de poder ficar pelado dentro da própria casa sem ter que se preocupar com incredibilidade dos vizinhos voyeurs e de suas crianças se divertindo com a visão da casa ao lado. Mas filosofar sobre pijama nunca me passou pela cabeça.

Quanto uma pessoa ocidental vem para a , ela percebe que muitas coisas são diferentes como hábitos alimentares, modo de pensamento, vestimenta, e essa estranheza toda a faz aceitar aquilo que não está acostumada como “normal” tão longe de casa. Agora os europeus e os norte americanos não são tão diferentes dos brasileiros. Por isso nunca achei que fosse ler um artigo desse, sobre gente saindo de pijama na rua. Já acho muito relaxo uma mulher que nunca usa um brilho nos lábios ou nunca passa pelo menos um rímel para sair por aí, agora pijama é demais! Melhor sair pelada na rua mesmo.

Fico imaginando os avisos em lugares públicos para gente-sem-noção no mundo ocidental (porque aqui no oriente tudo é possível, mesmo que nem sempre explicável): O uso do pijama está vetado neste estabelecimento. Favor não lixar a sola do seu pé neste restaurante. Favor não soltar gazes neste elevador. Favor não urinar no chão dos lavatórios desta aeronave. Favor não fumar na Setor de Emergências deste hospital. Queira por gentileza mastigar as guloseimas de boca fechada durante o filme e ainda desligar os telefones celulares. Agradecemos.

Da mesma forma que tem gente que precisa ler um aviso para não secar animais domésticos no micro-ondas, tem gente que precisa ser lembrada de que as roupas (ou a falta delas) fazem a imagem.

O que? Você está me dizendo que sair de pijama na rua não é tão sério como cutucar as unhas dos dedos do pé sentado ao lado de um no avião, trem ou ônibus? Huh! O que foi que eu disse logo no começo desta crônica? Nada sei eu do mundo mesmo!

Luciana B. Veit

Pijama em público –
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Poluição em Pequim

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De férias na Europa durante o fim do ano de 2011 curti o Mercado de Natal de Stuttgart, as belas paisagens do Lago de Garda e a deliciosa comida de Milão, mas acima de tudo curti respirar o ar puro. Dei graças ao cansaço extremo à noite que nada tinha a ver com jetlag, mas sim com os meus pulmões desacostumados com o ar limpo.

Há quem diga que Stuttgart e Milão, por exemplo, sejam cidades poluídas mas quem conhece a , principalmente , sabe que seja qual for a mais poluída da Europa, ela ainda será mais limpa do que um dos dias de índices médios de poluição na capital da China.

Sendo paulistana, cresci descendo a serra para Santos nos feriados e férias e passando por Cubatão, que na minha memória era a cidade mais poluída do mundo, mas naquela época ainda não havia pisado em Pequim. Qualquer lugar próximo ao mar tem melhores condições de ar, e mesmo Shanghai ou Hong Kong ganham de Pequim, apesar da fama de altos níveis de respectivamente.

Toda vez que aterriso em Pequim de qualquer viagem da Europa, do Brasil ou de qualquer lugar fora da China, vejo uma nuvem cinza alaranjada engolindo a capital como se fosse o fim do mundo. Isso me assusta. O que também me assusta ainda dentro do terminal do aeroporto é o cheiro de queimado. E fora dele, a impossibilidade de ver seja lá o que for a menos de dez metros de distância. Que lugar é esse?

Para aqueles que tem ambições sérias profissionais, o lugar para se estar no momento é na China aprendendo Mandarim, comendo coisas bizarras, matando o pulmão… Mas sendo eu hoje, dia 10 de janeiro de 2012, residente em Pequim, sei que minha estada aqui será passageira e que no mais tardar em dois ou três anos já estarei longe, mas e aqueles que hão de ficar aqui para o resto dos seus dias?

A China tem o dom de chocar os estrangeiros com freqüência por diversos motivos (como as leis severas, ética no geral, costumes alimentícios, arrotos e cuspidas, etc.), mas o que mais me choca por aqui é ver gente ainda fumando (e bebendo coca-cola)! Para que? Há pouco tempo uma expatriada, esposa de um colega de trabalho do meu marido, voltou para a Europa e fez um check-up completo. O médico disse que ela tinha que parar de fumar porque seu pulmão não iria agüentar muito mais tempo. Engraçado é que ela nunca tinha colocado um único cigarro na boca, mas sim vivido em Pequim durante quatro anos!

As autoridades chinesas afirmam que hoje o ar, ainda que ruim, está muito melhor do que há dez anos, quando no inverno as casas ainda eram aquecidas com carvão e todos os ônibus e táxis não eram elétricos. Certo, o ar pode até estar melhor, mas achar de acima de 500 partículas de poluição atmosférica em Pequim seja algo corriqueiro e que não haja necessidade dos pais proibirem as crianças e cachorros de brincarem ao ar livre, chega a ser criminoso. Somente há alguns dias o governo decidiu monitorar as partículas oficialmente, o que até agora somente a Embaixada dos Estados Unidos fazia. Como comparação, na o estado passa a ser dramático se acima de 250!

O que me entristesse é que Pequim em si é uma cidade em tanto! Tantas possibilidades, tanta cultura, tanto progresso, tanta infra-estrutura referente à escolas de alto nível, hospitais, transporte público! Então por que matar a população com poluição?

Presa dentro de casa hoje – dando graças à invenção do filtro de ar, que nem todo mundo pode pagar – olho chocada para fora da janela com meu pulmão pesado, pensando no eventual fim do mundo dia 21.12.2012 ou logo depois da data amaldiçoada pelos maias. Estamos mesmo perdidos. Ainda sim, Feliz Ano Novo! Vamos curtir cada momento com intensidade porque só Deus (ou Allah, Buda, a Mãe Natureza, enfim…) sabe o que o Ano do Dragão trará.

Luciana B. Veit

Poluição em Pequim
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Estranhos à parte

Eu não entendo quando peço uma lagosta grelhada nunca ninguém me serve um telefone cozido.

Salvador Dalí

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Tem muito famoso que faz tipo físico para estabelecer uma marca. Hitler e Salvador Dalí com seus bigodes, Jennifer Lopez e Kim Kardashian com suas curvas ou Giorgio Armani com suas roupas pretas. Mas será que fazer um tipo psicológico também faz parte do esquema de marketing, tipo Paulo Coelho e Loreena McKennitt com seus lados místicos ou Vladimir Putin com seu perfil de machão?

Teria sido Dalí tão excêntrico assim, citando-o pela segunda vez por conta de sua filosofia da lagosta e o telefone; ou será que aquele jeito de maluco era só um tipo comercial? Imagino que ele tenha exagerado um pouco nas aparições públicas, mas que ele agia e pensava como um funcionário de escritório, certamente não.

Dizem que os artistas enxergam o mundo com outros olhos e isso não os tornam loucos, talvez somente um pouco estranhos. Mas ninguém precisa ser para ser diferente. Quem vai a um restaurante e pede a sobremesa primeiro antes do prato principal? Ou quem prefere caminhar na praia no inverno ao invés do verão? O próprio fato de alguém preferir a noite pelo dia já a torna um tanto bizarra. Sem contar as pessoas silenciosas que não fazem questão de falar ou de ser sociável o tempo todo por simplesmente serem verdadeiras com a própria natureza.

Esses “estranhos” são livres porque não se preocupam com aquilo que os outros vão dizer ou pensar. Tem sim suas dificuldades por conta de suas identidades autenticas, mas daí me pergunto, já que não podemos ter tudo mesmo, é preferível ter dificuldades por conta da autenticidade da personalidade ou ter dificuldades psicológicas por sermos alguém que no fundo do peito não queremos ser?

É difícil sobreviver financeiramente à base de uma filosofia de liberdade, mas se pudéssemos pelo menos sobreviver fazendo aquilo que gostamos, já seria um grande passo para uma mais feliz. E que não subestimemos o conceito de felicidade, porque aquele que é feliz trata os outros de uma maneira melhor e tem mais compreensão no geral.

Mas o que é ser feliz? Para você eu não sei, mas para mim ser feliz é ser livre: amar quem eu quiser amar, comer o que eu quiser comer, viver no lugar que eu escolher, ser quem eu quiser ser. Agora, tal me faz uma estranha? Caso sim, que faça!

Luciana B. Veit

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Questão de adaptação

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Dos países onde já residi, cresci no Brasil vendo o povo em geral jogando lixo para fora da janela dos carros e ônibus e os homens coçando o saco em público. Na procurava evitar de ir à sauna (mista) para não encontrar meu sogro ou meu professor de Alemão. Nos Emirados Árabes passei quatro anos vendo os trabalhadores de obras (indianos e paquistaneses) indo à praia de cueca. Na observava todo mundo comendo sorvete adoidado no inverno. E falando em comida, durante os quatro anos na não tive coragem de comer a metade dos snacks de rua que os nativos comem, como sopa de larva e Deus sabe mais o que. Agora na China qualquer estrangeiro deve aprender rápido a desviar de uma cuspida no pé, que por mais que não seja uma ofensa pessoal, passa a ser.

Barulhos de catarradas profundas, dessas que sobem à garganta, passam a fazer parte da melodia das cidades na China e qualquer mocinha bonitinha é craque em jogar suas melecas do nariz com somente dois dedos a pelo menos dois metros a frente.

O que elas também são craques é de ficar de cócoras nos banheiros públicos, que muitas das vezes nem divisão de cubículo tem. Cheguei a tirar foto de um banheiro de hutong (ruelas tradicionais) em Pequim quando os buracos no chão servindo de toalete, estavam posicionados deliberadamente uns de frente aos outros em um espaço de no máximo três metros quadrados, sem divisão, sem paredes. Imaginar gente pelada fazendo yoga é pouco se comparado a uma situação dessa. Sem contar os mesmos toaletes de casas noturnas mais populares, quando as mesmas mocinhas bêbadas se apóiam no chão “úmido” para não atolarem no buraco. É claro que com o tempo, nós mulheres estrangeiras, acabamos nos adaptando e aprendendo a técnica do toalete da China (e alguns na França também), mas aleluia é o que sempre digo quando encontro um vaso sanitário em banheiro público no nordeste asiático (mesmo que nunca sente nele).

De volta na Coréia do Sul, pedir água em restaurante sempre foi algo natural e de graça, quando na Europa se paga até para respirar. Mas na China, se você não especificar qual tipo de água, ganhará água quente, mesmo que de graça!

Mesma coisa é visitar um salão de beleza chinês, que muitas vezes (não todas as vezes, atenção!) adota o hábito de lavagem seca, quando a cabeça espumada é enxaguada por um pouco de água de uma garrafinha e enxuta logo após com uma toalha. Urgh!

Ver gente andando de costas, dançando, praticando tai-chi e convidando estranhos a jogar xadrez em parques públicos faz parte da rotina, que não virou a minha.

Sem contar a lógica chinesa de instalar um sensor de movimento do alarme de segurança da casa dentro do armário da cozinha ou ainda dentro da cabine de ducha no banheiro de hóspedes! Ainda de casa, que tal instalar um armarinho com modem para internet e cabos em geral sem tomada? Para que? Deixe que os fios atravessem o quarto! Falta de atenção ao detalhes é característica típica dos chineses.

Marcas pretas de dedo nas paredes, vidro empoeirado ou a sujeira do quintal e jardim em geral não incomodam nenhuma empregada doméstica, quando elas sim se sentem incomodadas por terem que limpar tais “inutilidades”.

Na Rússia ter que se adaptar com o sistema preferencial de trânsito é o que mais incomoda. Qualquer funcionário do governo ou oligarca compra ilegalmente a luz azul (as mesmas dos policiais e ambulâncias) para não ficarem presos no trânsito. Quando o chefe do governo ou seus convidados cruzam as ruas de Moscou, as mesmas são bloqueadas para os mortais.

Em os sistema de rotatória nas ruas é um tal de “Allah-me-ajude”. Não há uma regra de bom senso e ainda durante o mês do Ramadan, quando os fiéis muçulmanos se sentem inatingíveis por terrestres, não é impossível ver um carro dando voltas e mais voltas na mesma rotatória por não conseguir sair dela. Ali a adaptação vem na raça!

No Brasil o medo de assalto nos faróis passa a ser neurótico, pelo menos para mim. Qualquer sombra (até de nuvem) passa a ser um bandido querendo me abordar, mesmo que eu esteja num carro mais simples. Essa seja talvez uma das poucas coisas que ainda não consegui me adaptar, mesmo na minha própria terra natal.

Na Alemanha, por mais triste que seja e por mais que o país lute para mudar a imagem, qualquer cabeça raspada evoca em mim a idéia de skinhead neonazista. Moda ou queda de cabelo nunca me passa pela cabeça, logo não consigo me adaptar com o visual careca sem achar nada .

Uma amiga européia dizia antes que nunca levaria seus filhos para conhecer lugares desavantajados para que eles não ficassem abalados com as cenas de miséria. Agora morando em Chennai, Índia, ela e seus filhos tem que se deparar com pessoas defecando em público e crianças pobres brincando em montanhas de lixo, enquanto outros moram em palácios de cento e vinte quartos e deixam quatro empregadas à disposição de qualquer hóspede que eles possam ter. Uma adaptação em tanto!

É fácil se adaptar ao luxo, às pessoas interessantes e divertidas, às coisas boas da , mas tudo que nos faz sair da nossa zona de conforto e nos faz pensar de uma outra maneira (o que não significa necessariamente que seja algo ruim), passa a ser no mínimo um desafio. Adaptações inevitavelmente contribuem para nossa evolução pessoal. Ter que comer pimenta diariamente, virar um craque de cócoras, ou dirigir desse ou daquele jeito nos faz lembrar que o mundo e suas esquisitices vão além do nosso próprio umbigo.

Luciana B. Veit

Questão de adaptação –
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Tragédias – O choro e o lamento

E agora sobre a face da Terra
Vem um grito de lamentação,
Lamento pela grandeza
E da glória passada, a graça
De você e seus parentes.
Todos os mortais que habitam
As casas da santa
Angústia e aflição (…)

Prometheus Bound, by Aeschylus


O+fim+do+mundo%2C+a+Korean+buddhist+praying+during+cherry+blossom.
Apesar do poema acima fazer parte da trilogia de uma das grandes gregas, o conteúdo não poderia ser mais atual. Estou certa de que não sou a única que vê nas palavras de Aeschylus uma descrição da tragédia de Fukushima.

O “lamento pela grandeza” mais se associa com o acidente em Fukushima do que com o terremoto e em si.

Agora sendo residente na , pergunto-me o quão profético seria “todos os mortais que habitam as casas da santa Ásia, angústia e aflição”.

Procuro me tranqüilizar quando penso que para a nuvem tóxica chegar em terá que ter aniquilado as Coréias e o próprio antes. No entanto, posso chamar de tranqüilizante o fato de milhões de pessoas terem que morrer antes de chegar a minha vez? Esse é o “grito da lamentação”.

De frente ao poder da natureza nós não somos nada e não podemos nada. O fato que seu ente querido morreu na sua frente sendo levado pela grande onda enquanto você foi poupado para contar estória pode ser uma benção ou um tormento pior do que a própria morte.

Já Fukushima, como tantas outras usinas nucleares, são frutos do homem. Ação e reação é a mais essencial lei . Para tudo há conseqüências, boas e ruins, mais cedo ou mais tarde, nesse ou em outro plano espiritual.

Durante a programando para uma viagem que fiz para as Filipinas é claro que não deixei de pensar em todas as coisas que poderiam acontecer lá. Situado no mesmo Anel de Fogo do Pacífico que o Japão, região recheada por vulcões ativos ou dormentes onde diversas colisões de placas tectônicas ocorrem ao ano, seqüestros e batedores de carteira passam ser uma piada.

A é mesmo um risco diário, por isso deixar de viver não é uma opção.

O que me deixa um pouco inquieta é juntar todas as profecias para 2012. O Ano do Dragão trará consigo o fim do mundo? Pessoalmente eu não acredito em um fim absoluto, mas sim em um novo começo, mas mesmo se o planeta Terra não acabasse, podemos contar que 2012 será um ano agitado em termos de catástrofes naturais ou produzidas indiretamente por nós mesmos.

Luciana B. Veit

Tragédias? O choro e o lamento –
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Pelados no Palco

Tem pessoas que gostam de se expor. em casa, pelados na praia nudista, pelados no . Uh? Pelados no ?

Nudez no não é nada novo. Quem nunca viu um ator nu, ao vivo, em um palco de respeito (e não “tais” palcos)? Quando eu era adolescente, eu vi uma das minhas professoras do -escola Célia Helena em São Paulo pelada no palco, encenando em uma produção profissional. A cena me incomodou um pouco e acho que incomodou minha professora também por saber que eu havia assistido. Mas a verdade é que não houve nenhuma sacanagem, bem pelo contrário. A cena de nudez foi elegantemente elaborada e com propósito que fazia jus à peça e principalmente ao personagem.

Pelados+no+Palco+-+Theatre+stage+with+red+curtain+and+spotlights+on+the+stage+floor
Artistas geralmente não tem problemas com sexualidade e nem com nudez, o que não significa que todos sejam promíscuos. Trata-se de uma questão naturalista, eu diria. Modelos nus posam para pintores e escultores. Amantes nus são inspiração para músicos e escritores. nus, trocando de figurino nos camarins dos teatros, agem como se não estivessem nus. No entanto, trazer a nudez aos palcos sempre é uma questão delicada por conta principalmente da reação do público.

No teatro a integração com o público é sempre tão forte e imediata que não há como negar dois fatores. Primeiro, o público no geral deve sentir-se surpreso e um tanto chocado, para dizer o mínimo, principalmente quando não esperam a nudez da estrela da noite tão próxima de si. Segundo, pelo ponto de vista do no palco, ter todas essas pessoas conferindo cada ângulo de sua intimidade não é a mesma sensação de trocar de roupa no camarim, porque nem todos na platéia tem uma mentalidade aberta e uma tendência naturalista. Essa pode ser a visão do , que pelado no palco, caminha para lá e para cá, senta-se, deita-se, mas geralmente de pernas mais fechadas. O que fica para o público ver geralmente não passa do contorno do corpo. Já com a dança é muito diferente.

…genitálias (perigosamente) bem próximas do público…

The Guardian

O que The Sadler’s Wells Show (O show de Sadler Well), Karina Champoux e Aude Rioland em Un Peu de Tendresse, Bordel de Merde! (do Francês, “Um pouco de ternura, bordel de merda”) e Transatlantic de Javier de Frutos tem em comum? De acordo com um artigo do jornal inglês The Guardian, todas essas companias e todos esses espetáculos tem dançarinos nus no palco, fazendo mirabolias, piruetas, espagates, levantando a perna aqui, espichando o corpo ali, sempre com as “genitálias (perigosamente) bem próximas do público”, tanto de dançarinos homens, quanto de mulheres. Obviamente tais companias são “fascinadas para quebrar tabus e criar uma intimidade maior ainda com o público” (sem contar fazer a audiência rir por certos elementos visuais que são criados a partir de certas posições dos dançarinos pelados), explica o tal artigo. Certamente a sensualidade tem um papel importante em coreografias nuas, mas o coreógrafo Javier de Frutos diz “nunca ter visto nada menos erótico” do que uma dança onde os dançarinos estão nus – explica ele na entrevista para The Guardian. O que o hipnotiza todavia, é a obsessão que ele sente do público no que diz respeito o voyeurismo.

Na platéia de um teatro sério e não de um clube de strip-tease, muitos de nós nos sentimos como uma criança, vendo um corpo nu que não seja do seu pai e da sua mãe pela primeira vez. Bobos, corados, animados. Mas uma melhor comunicação não é o que o mundo mais precisa? Sim, mas o que isso tem a ver com essa crônica? Ora, qualquer arte é comunicação e apesar disso e daquilo, a mensagem que um artista quer passar para o público quando apresenta a nudez no palco é que não há nada de errado com a nudez enquanto eles, que estão pelados, não virem nada de sujo com isso. Mesmo porque arrancar as roupas no palco nem sempre tem uma relação com sexo, mas também pode ter a ver com a imagem do personagem talvez estar arrancando a tristeza do peito, ou mostrando uma enorme fragilidade e vulnerabilidade, ou quem sabe ainda mostrando-se vitorioso ou derrotado.

A próxima vez que virmos um artista pelado no palco ou nos estúdios de arte, ao invés de fazermos comentários supérfluos ou termos pensamentos bobos, por que não tentamos decifrar o significado real da nudez sendo apresentada? Não se diz por aí que a verdade é nua e crua?

Luciana B. Veit

Pelados no Palco -
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Eunucos na China

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Se você é machão, aconselho a não ler essa crônica. Agora se você está curioso para aprender um pouco sobre aquilo que eu aprendi em uma palestra em sobre a dos eunucos na , você está no lugar certo!

Em primeiro lugar, sempre soube da existência de eunucos em sociedades islâmicas, no entanto fiquei bastante curiosa ao aprender que havia eunucos na e na Grécia também. Os castrati italianos já era um caso diferente. Apesar de terem sido castrados quando ainda crianças para assim manterem a voz aguda, não serviam como eunucos nas cortes. Na China homens faziam (e alguns ainda fazem) papel de mulheres na grande Ópera de Pequim, quando também aprendiam a cantar e a recitar versos em voz aguda. Porém eles não precisavam ser castrados para tal.

Então, qual era o motivo principal para a castração? O primeiro deles era que os eunucos eram os únicos funcionários do imperador que podiam se aproximar da família real, muitas vezes sendo chamados de A Sombra do Imperador. Aproximar-se da família real significava aproximar-se da imperatriz e das princesas também; por isso mesmo os eunucos eram banidos de se aproximarem da família real à noite.

Os eunucos eram extremamente poderosos; pessoas com grande influência. Eles não só deviam organizar a vida sexual do imperador com a imperatriz ou com as concubinas, mas eles também eram responsáveis pelas roupas, comida, entretenimento e também dispunham de grande influência no que dizia respeito até as guerras. Eles ganhavam um bom salário e muitos deles moravam dentro da Proibida.

O fator sexo não era o único motivo para o eunuco se castrar. Ser castrado significava ser limpo, e somente pessoas limpas que não tinham sangue nobre podiam se aproximar da família real.

Posso falar sobre três casos dos quais homens eram castrados. O primeiro era como punição para prisioneiros de guerra ou criminais. O segundo era por livre e espontânea vontade. E o terceiro era o caso de famílias pobres que, com as castração dos filhos na faixa dos treze ou quatorze anos, podiam sonhar com eles se tornando eunucos e assim vivendo uma vida confortável repleta de privilégios.

O que acontecia é que a castração em si não garantia a posição de eunuco. Após serem castrados, os candidatos eram mandados para um bateria de testes e somente os mais belos, os de pênis mais pesados (sim, eles eram pesados na balança depois de cortados) e geralmente falando os mais promissores eram aceitos.

A questão da castração é especialmente interessante na China porque os chineses acreditam em reencarnação. Para eles, ser enterrado sem uma parte do corpo significaria reencarnar incompleto, apesar do filósofo Confúcio ter sido contra a prática. Sendo assim, depois de castrados, o culto ao pênis cortado era importantíssimo e eles fariam de tudo para serem enterrados com os tais membros. Dentro da Cidade Proibida havia uma sala reservada a todos os Bao, ou tesouro em Chinês, que se associava ao pênis. Eles ficavam pendurados dentro de saquinhos de tecidos em ordem hierárquica: o eunuco mais poderoso tinham seu pênis bem no alto, enquanto um novato tinha seu pênis bem baixo, quase tocando o chão.

Os cirurgiões da época aceitavam galinha, vinho ou dinheiro para fazer a castração que acontecia geralmente na primavera ou no outono, mas quando famílias muito pobres não podiam pagar, o cirurgião guardava o pênis cortado como pagamento. Ao decorrer dos anos, muitos eunucos que por um motivo ou outro já não mais possuíam seus “tesouros”, compravam geralmente dos cirurgiões para poderem ser enterrados por “inteiro”. Vale mencionar que os prisioneiros de guerra e criminosos que eram castrados não tinham o direito de guardar seus Bao.

Dois por cento era o número de mortes causados pela castração, mas esses eram geralmente casos onde as próprias famílias pobres operavam sem algum preparo, nem mesmo sopa de maconha (usada como anestesia). Numa operação bem sucedida, as feridas curariam em cem dias.

Como conseqüência da operação, os eunucos ganhariam seios femininos, a pele do corpo ficaria mais mole, a voz ficaria estagnada da época quando a castração foi feita, mudanças de comportamento, pouca força, e principalmente pouco ou nenhum controle de urinarem nas camas à noite. Ouve-se que uma pessoa sempre sabia quando um eunuco estava por perto, não somente pelo uniforme de eunuco e pela cor das penas do chapéu que indicava o ranking, mas principalmente pelo cheiro de urina.

Mas como nada na vida é perfeito, a vida de um eunuco estava longe de ser assim. Apesar da vida confortável, eles ainda eram vistos como empregados pelos nobres chineses. Os eunucos nunca tiravam férias e caso tivessem que deixar o palácio por um motivo importantíssimo, tinham 24 horas para retornar, senão teriam que arcar com severas conseqüências (não só eles, mas algumas conseqüências eram levadas até a membros da família do eunuco).

Apesar da fama dos eunucos ser relativamente boa no que diz respeito ao caráter gentil porém organizado, muitos deles sofriam e com isso a taxa de suicídios dentre os eunucos era altíssima. Alguns puderam se casar durante a Dinastia Qing (sem poder gerar filhos, obviamente) e outros puderam se educar, mas o grande choque foi com a abolição dos eunucos na China em 1924 por conta da nova república. Os eunucos foram expulsos da Cidade Proibida e sem saber para onde ir ou o que fazer (com seus “tesouros” debaixo do braço resgatados da Sala dos Eunucos), vários deles terminaram suas vidas em alguns templos.

Em 1996 morreu Sun Yao Ting, o último eunuco da história da China. Ainda em termos de celebridades, Zhao Gao tenha sido talvez o eunuco mais influente da história e existem rumores até hoje que dizem que foi ele o grande responsável pela queda da Dinastia Qing. Já o outro eunuco, Cai Lun, foi o grande inventor de papel da China.

Mutilações corporais são capítulos à parte da história da China, como as castrações dos eunucos ou o enfaixamento dos pés de flor de lótus, mas apesar de tais práticas parecerem selvagens aos olhos de um Ocidental, os chineses sempre acreditaram na razão delas existirem. Hoje mesmo menininhas ainda são forçadas a passarem pelo processo de mutilação genital em vários países africanos, quando os nativos parecem não compreender o motivo dos estrangeiros tentarem banir tais mutilações que, pelo ponto de vista deles, devem continuar em nome da preservação da cultura.

A única coisa que eu posso torcer hoje, é que nenhuma moda do gênero “alteração do corpo” volte a ter força na sociedade. Mas esperem aí! Esqueci de mencionar os malucos que se tatuam em cada centímetro livre do corpo e ganham piercings nas formas mais estranhas…

Luciana B. Veit

Eunucos na China –
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Cara de mau

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Devo ser sincera. Na minha opinião Bin Laden nem tinha cara de mau. Filmagens dele sorrindo, com gestos controlados e falando manso mesmo enquanto segurava uma arma na mão não combinam com sua mente inquieta e coração cheio de ódio. Ele até podia ter pinta de fanático religioso, mas não de mau. Não dizem por aí que os “olhos são o espelho da alma”? O que dizer de Bin Laden e de tantos outros psicopatas como Stalin, Ted Bundy, Kim Jong-Il, Charles Mason (apesar dos últimos dois terem mais cara de louco do que de mau) e tantos outros? Já com Hitler era diferente: ele tinha cara de mau.

Para os amantes de criminologia, o canal Crime and Investigation (CI) é uma prato cheio de histórias verídicas de assassinatos em série e crimes violentos, inclusive canibais. O que sempre me deixa chocada são os relatos de conhecidos. “Ele era tão quieto. Bonzinho. Nunca iria imaginar que ele (ou ela) poderia ser capaz de tal coisa.” Pois é. As aparências enganam.

Em quem confiar? Eu sou mãe e tenho todos os motivos do mundo para desconfiar de todos ao redor do meu filho, mas qualquer outra pessoa casada, solteira, com ou sem filhos deveria ter mesmo olhos nas costas. Cara de mau não significa que a pessoa seja mau, e cara de santo não significa que a pessoa não tenha muito ódio no peito mesmo sem entender o motivo. Sem contar a idade! Malandros não são só aqueles na faixa de vinte e trinta anos. Existe muito velhinho ruim por aí!

Inveja, complexo de inferioridade, solidão, descontentamento com a própria e uma vez ou outra um impulso animal de ter o poder de acabar com a alheia, mesmo que essa seja de um animal, são os fatores que pesam na de um psicopata. Psicólogos, por favor me corrijam se estiver errada! Os predadores estão à solta e podem ser nossos vizinhos, os professores dos nossos filhos, membros da nossa família e celebridades.

Bin Laden alimentou seu ódio do mundo ocidental ao longo de muitos anos e muitas lavagens cerebrais, e todos seus atos terroristas foram planejados e calculados cuidadosamente, o que prova sua frieza e determinação para causar sofrimento. Mas há poucos dias três jovens em Berlin atacaram sem motivo aparente uma pessoa aleatoriamente em uma estação de metro, para quem está acompanhando o Spiegel Online. Eles continuam foragidos. Um outro caso parecido, um jovem preso diz à policia que juntamente com seus amigos, sai dando surras em pessoas desconhecidas quando dá vontade, assim do nada.

Como explicar tamanha maldade? Como um ser humano consegue sentir tanto ódio e colocar para fora essa monstruosidade que geralmente fica dentro do peito? Sei que poucos são os santos, pessoas que literalmente vivem para o bem-estar dos outros, mas se você não tem dom para ajudar ninguém, pelo menos não atrapalhe! Agora maldade pura para mim não tem explicação. Talvez os espíritas tenham, quando explicam as influencias que espíritos infelizes tem quando ficam próximos de uma pessoa enfraquecida, sem contar possessão demoníaca. Para os não-religiosos, dizer que psicopatas não sentem remorso não explica o ato em si, o momento antes deles se perguntarem como estão se sentindo e o motivo deles sentirem vontade de fazer o que fazem. Trata-se de um impulso selvagem e aniquilador, mesmo que organizado, como Bin Laden e o notório estuprador e assassino Ted Bundy conheciam bem demais.

Agora que o mundo Ocidental está festejando a morte de Osama, ando me perguntando uma coisa: como me senti com a noticia? Bom, colocando política, passado e prós e contras de lado, acho que um homem como Bin Laden deveria ter sido humilhado publicamente sob a custódia americana antes de passar alguns anos no corredor da morte e por fim ser executado. Diferente de um louco selvagem que escolheu sua vitima sem pensar muito a respeito, Bin Laden sempre teve todo o tempo do mundo. Isso não teria uma relação com um sentimento de poder máximo e absoluto? Ter morrido assim, sem ninguém ver, sem ultimas palavras, com um tiro no peito e outro na testa não foi nada espetacular para uma pessoa que era o inimigo número um do mundo Ocidental. Faltou humilhação, isso sim teria machucado-o de verdade, mais do que uma bala na cabeça.

Bin Laden está morto e sua morte não irá trazer suas vitimas de volta e nem acabar com o terrorismo, mais descentralizado hoje do que nunca, o que pode até ser mais perigoso ainda. Mas fato é que o mundo continua perigoso. Sou uma mãe dedicada e lembrar que um dia terei que deixar meu filho viver sua vida sozinho me corta o coração e me enche de aflição. O que me sobra agora é ensiná-lo passo a passo que vivemos numa selva mesmo e que os maus, mesmo os super-maus, geralmente não tem cara de mau.

Luciana B. Veit

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Publicado em Crônicas 2011 | Tagged , , , , , , | 1 Comentário
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