Aposto que a maioria dos meus leitores não lerão nem mesmo o primeiro parágrafo só por conta do título. Maternidade é um assunto que só interessa mães, nem mesmo filhos ou pais, não é assim? Mesmo entre mães, tenho certeza que no fundo do peito a maioria das mães não está nem um pouco interessada com o que as outras mães fazem ou deixam de fazer.
Independentemente do Dia Internacional da Mulher estar se aproximando, li um artigo no jornal inglês The Guardian que explora o fato de pouquíssimos roteiros de teatro terem o tema Maternidade como foco principal. Por que será?
A jornalista admite que esse é um assunto delicado, porque as mães que trabalham tem fama de “não serem boas mães”, e as mães que ficam em casa tem a imagem de serem “vacas de leite sem cérebro”. Então, como fazer desses dois ângulos um roteiro interessante? É possível?
Claro que poderia criar um texto onde uma mãe que trabalha fora sofra com a própria consciência ou até defende o fato de não ter que sofrer por ela. Ainda poderia escrever sobre uma mãe dona de casa que sonha em poder alcançar tantas coisas que provavelmente jamais conseguirá pela falta de coragem de deixar os filhos com estranhos. Mas sinceramente, tais conflitos valem a pena no teatro? Eles já não fazem parte da realidade?
De acordo com os comentários a respeito do artigo do Guardian, o mais curto deles foi o mais real, sem filosofia, sem flores ao redor. O leitor simplesmente disse face a pergunta da falta de peças referente à maternidade: “Ora, é simplesmente chato”.
Eu, sendo mãe e roteirista, dou razão a ele. Quem iria ao teatro para assistir uma peça que retrata as batalhas diárias da maternidade? Imagino que o teatro ainda tenha audiência pelo fato das pessoas quererem fugir um pouco da rotina.
O alemão Bertold Brecht, por exemplo, retratou o tema da maternidade em duas excelentes obras: “Mutter Courage” (Mãe Coragem) e uma adaptação do livro homônimo de Maxim Gorki “Die Mutter” (A Mãe). Contudo, em ambas as obras as mães não levavam os filhos para a escola, conferiam a lição de casa e ajudavam para que eles se tornassem pessoas educadas e de boa índole. O retrato da maternidade ali não é realista e corriqueiro. Tampouco é a obra “Maternidades”, do brasileiro André Fusko. Essa peça não se limita a abordar classicamente as formas como as mulheres lidam com o assunto.
Não há nada mais glorioso na vida do que ser mãe, não me entendam mal. Luxo, viagens, sucesso profissional, um parceiro perfeito melhor do que o Príncipe Encantado; nada disso é par para a satisfação de ser mãe. Não existe amor maior do que aquele de mãe para filho, porque por mais que gostaria que fosse igual, o amor de filho para mãe já é diferente.
Irônico ou não, ninguém se interessa pela maternidade dos outros, por isso não culpo as companhias de teatro por negarem tais roteiros, com algumas exceções. A verdade é que quando duas mães estão juntas elas irão inevitavelmente comparar os filhos e a forma através da qual eles são educados, então para que levar esse stress todo para o palco? Não que toda a peça deve ser engraçada quando tantas obras imortais, trágicas ou simplesmente filosóficas, nos forçam para dentro de nós mesmos, mas o assunto da maternidade é rotineira demais, apesar de ser essencial.
Ainda falando sobre maternidade, será que o fato de eu estar morando longe do Brasil há tantos anos mudou como a palavra maternidade soa para mim? Sou só eu, ou palavra maternidade em si tem sim uma relação de compreensão mais direta com mulher grávida ou bebê? Acho curioso porque sempre digo ao meu filho que ele sempre será meu bebê, mesmo quando ele tiver os seus bebês e os bebês dos bebês…
Huh! Estão vendo? Maternidade leva a gente a falar inevitavelmente de nós mesmos, e a não ser que nossos relatos sejam trágicos de alguma forma, passarão a ser simplesmente chatos para os ouvidos dos outros. Por isso, não sendo Brecht, termino aqui.
Luciana B. Veit
Maternidade no teatro –
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Tags: mulher, teatro
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