Após o teste nuclear da Coréia do Norte, muitos aqui em Seul correram para suas respectivas embaixadas para obterem respostas para suas mais naturais dúvidas, por exemplo, se haveria risco de contaminação do ar ou da água, ou se deveríamos contar com uma guerra, já que os americanos residentes aqui não falam em outra coisa.
Depois é a vez de responder a inúmeros e-mails de pessoas que se preocupam verdadeiramente com a situação, ou de outras que acham excitante conhecer alguém que resida num local tão exótico e ainda por cima tão crítico. O que elas querem como resposta? A verdade? Nós estamos de fato preocupados com o decorrer desta história. Então ao invés de fazer uso de uma mentirinha para aliviar os corações dos entes queridos e amigos mais chegados que estão longe (até demais), retratamos os fatos como eles são, que o teste nuclear não foi a única afronta da Coréia do Norte, já que provocações na fronteira com a Coréia do Sul fazem parte da rotina.
Depois temos que lidar com os comentários daqueles que só acompanham a situação através dos noticiários e jornais internacionais. Os que estão na Europa se sentem seguros por estarem tão longe, por não serem alvos dos mísseis norte-coreanos como a Coréia do Sul, a Rússia, a China, o Japão e talvez até os E.U.A. são. Os europeus até esquecem que, como o mundo inteiro, também estão sob a mira dos terroristas, sendo chechenos, bascos, membros do Al-Qaeda, mafiosos e políticos-gângsters, que calam a voz de jornalistas e artistas à força (nem Mozart escapa, após sua ópera Idomeneu ter sido cancelada em Berlim por medo de causar a fúria de alguns muçulmanos sensíveis).
Aqueles no Brasil suspiram aliviados e dizem: – Volta para o Brasil! Isso sim é país bom, livre de terroristas e ataques nucleares. O melhor cantinho do mundo para se viver…
Só que os brasileiros também esquecem dos seus terrores diários, como a rasante taxa de criminalidade que parece não ter solução, as feições tristes ou drogadas das crianças de rua, famintas e sem futuro, ou ainda da incerteza se aquele pai de família ainda poderá alimentar seus dependentes daqui a um mês. A grande parte dos brasileiros se sentem mesmo vivendo num país sem leis, sem dono, sem justiça e sem progresso. Se acostumam com a realidade, votam em branco e tentam viver o seu dia-a-dia da melhor forma possível. Já não se importam mais em querer salvar o mundo, mas sim em sobreviver mais um dia.
A situação em Seul não é muito diferente em relação ao medo de um ataque nuclear. Os sul-coreanos e expatriados residentes aqui continuam indo à escola (como sempre fizeram, inclusive durantes as guerras e período de ocupação japonesa), continuam se empenhando ao máximo para exercerem suas funções da melhor forma possível, mas também não deixam de estar alertas para o que der e vier.
Ninguém está tomando decisões precipitadas como largar o emprego, fugir do país e acompanhar o resto da história de longe, mas como qualquer pessoa com senso de responsabilidade, nós aqui no leste asiático, estamos vivendo a nossa história particular, procurando a aprender viver com o medo, mesmo torcendo ou apelando publicamente para que a loucura, que é a dona do mundo hoje, termine, antes que o mundo não tenha mais saída, face com o seu (inevitável?) fim.
Luciana B. Veit
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