Tolerando a Intolerância

Islâmica, Portas, EntradaIndependentemente da advogada brasileira ter mentido sobre a suposta gravidez mês passado quando teria sido atacada por na Suíça, o que mais me chocou é que a imprensa deu mais atenção à gravidez do que ao ataque em si.

Se a coitada é louca ou estava simplesmente desesperada por ter inventado a gravidez, não acredito que ela tenha imaginado o ataque, e mesmo se o tiver feito, é porque o medo já existia dentro dela.

Eu sei o que é viver com receio de falar Português em público nas ruas de diversas cidades da Europa Ocidental e da . Eu sei por experiência própria ou por experiência de conhecidas minhas o que é ser uma brasileira poliglota ou diplomada nisso e naquilo e mesmo assim ser vista como mais uma “coitada” em busca de uma vida melhor no exterior. Eu sei o que é ter que se explicar o porquê de ser branca ou de manter uma aparência refinada com um passaporte brasileiro no bolso, já que a nossa imagem continua sendo a de mulatas safadas de tanguinhas fio-dental.

Brasileiras de “nível” tem sempre que provar em dobro aquilo do que são capazes no exterior e eu acredito que a tal advogada não conseguiu segurar a barra, agüentar tanta pressão – isso talvez explique suas ações.

Já a Suíça sempre foi conhecida como um país fechado e difícil para estrangeiros se adaptarem, mas não necessariamente nazista, apesar de ser um tanto metida. Por isso ela tem procurado dar mais ênfase na estória da gravidez da brasileira do que na existência de nazistas de cabeças raspadas no país.

Aliás, ela não está sozinha. Após ter feito tantas pesquisas e ter vivido em Moscou, o que resultou meu livro “A Rússia Começa Aqui”, compreendi que é negócio para o governo negar a existência de tais organizações racistas. Negócio porque no caso da Rússia, ela lucra com o medo que põe sobre os seus residentes. Esse é um país que vive de uma imagem criada, e nesse contexto a Suíça tampouco tem interesse algum em perder a sua imagem de conto de fadas, com seus lagos, montanhas nevadas, bosques floridos, pessoas civilizadas e sorridentes…

Em qualquer lugar do mundo haverão pessoas de boa ou de má índole e indiferente da educação que receberam, sempre haverão aquelas que fazem coisas obscuras porque assim resolveram.

Mesmo a , que vive com a vergonha e o peso nos ombros do Holocausto, me decepcionou no começo do mês passado quando aprovou que 6000 skinheads marchassem no centro antigo de Dresden, mesmo com 12000 marchando contra.

Democracia é uma coisa, agora principalmente em um país com uma história tão marcante a respeito de ódio racial como a Alemanha, tais protestos, tais marchas jamais, repito, jamais deveriam ser aprovadas. Esses grupos devem ser esmagados pelos governantes. Eles não devem ter o direito algum de expor suas opiniões. Digo isso porque essas pessoas amam mais suas pátrias do que o próprio ser – humano. A história prova que tais sentimentos só levam à desgraças.

Está certo que os nazistas que organizaram a marcha do dia 13 de fevereiro procuraram fazer o mundo (principalmente os ingleses) lembrar que Dresden começou a ser bombardeada nesse mesmo dia há 64 anos – meses antes do fim da Segunda Guerra Mundial. Dresden, juntamente com Stuttgart e a capital Berlim, foi uma das cidades mais destruídas pelos aliados.

Esse pode até ser um motivo triste, no entanto os nazis tem explorado o sofrimento dos alemães causados pelos estrangeiros nessa ocasião (que sob Hitler, eles mesmo iniciaram). Eles dizem que Dresden perdeu 650 mil habitantes com os bombardeios, enquanto historiadores provam que eles não passaram de 250 mil.

Hoje ouve-se até dizer que nazistas tem perdido a inibição e estão começando a ranger os dentes contra policiais, o que prova alguns casos mal resolvidos.

Por isso, o caso da advogada brasileira na Suíça foi bom para nos relembrar que o sub-mundo intolerante existe, dentro e fora das nossas cabeças.

Eu não sou a favor de imigrantes ilegais em nenhum país e nem aconselho ninguém a se tornar um, porque como mencionei antes, estrangeiros de países mais pobres tem sempre que provar o que são e de onde vem de cabeça erguida nos países mais ricos, e quando os documentos não estão em ordem, você acaba perdendo o orgulho de estar tentando crescer de várias formas durante a estada no exterior.

Contudo, esconder o sol (aqui, ataque nazista ou sua existência abafada em países com ou sem tais tradições) com a peneira (no caso a gravidez inventada de uma brasileira no exterior) não trará soluções para os problemas, porque por mais que consigam viver assim por anos a fio, um dia a ilusão morrerá. As pessoas são o que são e o futuro da tolerância de raças e crenças depende do nosso estado de alerta e da nossa reação à ela.

Temos que compreender que apesar do fato daquele que vem de fora ter as chaves para a fechadura da porta, é preciso que alguém a abra voluntariamente do outro lado.

Luciana B. Veit


 

No related Chronicles.


Tags: , , ,
Este post foi publicado emCrônicas 2009 e tags , , , . Bookmark o permalink. Comentar ou deixar um trackback:Trackback URL.

Comentar

Seu email nunca será publicado ou distribuído. Campos obrigatórios estão marcados com *

*
*

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Notify me of followup comments via e-mail. You can also subscribe without commenting.

  • Língua

  • Categorias

  • Arquivos