O Lado Inverso da Moeda

monster, estátua, figuraOutro dia falei sobre os pequenos prazeres do dia-a-dia, como dormir ouvindo a chuva cair, estralar os dedos e por aí afora. Hoje falarei sobre o lado inverso da moeda: acordar no meio da noite com o ronco do cachorro, colocar (sem perceber) algum alimento liquido vazando no carrinho do supermercado, ter que suportar vendedores de rua tocando a campainha de casa, falar pela centésima vez sempre as mesmas coisas para as mesmas pessoas…

A lista não para por aí, no entanto é de dentro de um avião com um vôo de mais de seis horas de duração que merece toda a minha atenção essa semana. Voltando para a Coréia da Alemanha, já não esperava um quadro diferente no aeroporto: caras fechadas, outras deslumbradas, filas para o check-in e tolerância zero a respeito de uns quilinhos a mais da bagagem.

Mas enfim, já com os cartões de embarque em mãos, e com o saquinho plástico com tudo liquido no túnel do raio X, aguardamos a chamada para o primeiro vôo. Esse foi tranqüilo. No entanto, todo aquele desconforto estaria à nossa espera no grande e novo Airbus A340-300.

O avião era novinho, mas a poderosa Lufthansa ainda se recusa a apostar em modernidade e oferecer um monitor individual para cada passageiro da classe econômica, como a maioria das companias aéreas de hoje fazem. Como o avião não estava lotado, aqueles que viajavam sozinhos vibraram por não ter nenhum vizinho espaçoso, mas no meu caso o incômodo vinha da frente, se tratando de um sujeito que não colocava sua cadeira verticalmente nem mesmo para comer. Pessoas maiores que a média, vertical ou horizontalmente falando, tem grandes problemas de espaço em suas estreitos assentos, mas fazer o que? É melhor viajar uma única vez em classe executiva ou várias vezes em classe econômica? Ou aposto na segunda opção.

Hora da refeição: meleca ou gereba? Terceira opção não existe. Então opto pela menos nojenta. Até me ofereceram palitinhos para um prato coreano que se come de colher…

De barrigas quase vazias (mas conformadas), os passageiros começam a se ajeitar para assistir o primeiro filme, enquanto as crianças choram porque não querem dormir.

Olho no relógio? O que? Só se passaram três horas desde a decolagem? Como o tempo não passa quando tem que passar e passa rápido quando não deveria! Certo. Ainda tenho que encarar mais oito horas.

As luzes finalmente se apagam e o avião começa a ficar mais silencioso. De repente um cheiro de gambá invade meu espaço. Gazes? Não. Peixe pobre? Não pode ser. Chulé? Ah sim, e como! O passageiro que estava atrás de mim resolve ficar mais confortável tirando os sapatos e esticando as pernas bem debaixo do meu assento. Começo a ficar sufocada. “Esse deve ter sido o motivo de meu filho ter adormecido tão rápido”, pensei. “Ele praticamente desmaiou!”. Olho para trás pronta para dizer alguma coisa, mas resolvo morder a língua quando vejo que o passageiro em questão era uma passageira! Quem diria… Uma coreana magrinha de olhar dócil, mas com chulé de trabalhador de obra. Incompreensível.

E as horas passam vagarosamente. O segundo filme já acabou, os monitores estão desligados e somente alguns passageiros estão acordados com suas luzes individuais acesas, se divertindo com seus laptops ou mergulhados em algum livro. Tento dormir, mas não consigo encontrar uma maneira de esticar minhas longas pernas. No entanto, o sono me pega de calças curtas. Passadas duas horas, acordo com a boca seca. Levanto com cuidado para não acordar meu filhinho e atravesso o corredor a caminho da “cozinha”. É claro que fiquei alerta para não tropeçar em algum pé no meio do caminho ou não encostar em alguma cabeça pendurada, mas ali cheguei. O comissário se sente brutalmente invadido quando peço para ele me servir água, já que refrigerante, suco de laranja ou maçã que já estavam servidos na bandeja, não matariam a minha sede.

Resolvo ir rapidamente ao toalete, desço as escadas do moderno avião e faço o que tenho que fazer. O estado dele já estava deplorável, mas na urgência ainda servia.

De volta ao meu assento, leio mais alguns capítulos de um livro de bolso e volto a adormecer – meia hora antes do café da manhã ser servido. As luzes da cabine se ascendem, os comissários distribuem lencinhos mornos e logo começam a servir a última refeição do vôo.

Uh! Até que o omelete meleca estava comestível! O capitão resolve dar o ar da graça e todos acreditam saber o que ele estava para falar, mas para nossa surpresa, ele diz que devido ao mal tempo, o aeroporto de Seul estava fechado e que deveríamos aterrissar em Pequim. O descontentamento foi geral, mas segurança vem em primeiro lugar. Os comissários recolhem as bandejas em tempo record e as filas para os toaletes se formam mais ligeiramente ainda.

Dessa vez, ficar esperando na fila foi uma experiência medonha, já que a maioria dos passageiros estavam com mal-hálito matinal por não terem escovado seus dentes após o jantar, portando caras amassadas, olhares de incômodo loucos para se aliviarem, cabeças despenteadas e sovacos cheirando a suor. Quando chega a minha vez, tive que segurar a ânsia de vômito por conta do estado do toalete: urina tanto seca quanto molhada por cima, por baixo, de um lado e do outro do assento, pia ensopada e lencinhos de papel saindo praticamente sozinhos do lixinho lotado. O ar lá dentro estava irrespirável, pelo menos pelas narinas. O jeito foi respirar pela boca e contar os milésimos para sumir dali.

A piada do dia foi que assim que voltei ao assento, o capitão anunciou que não precisaríamos mais pousar em Pequim e que o vôo seguiria como previsto para Seul. Haveria sim um atraso, mas não seria nada fora do comum. Tanta pressa para nada! Nem pude beber minha segunda xícara de chá!

Aterrissamos, ninguém bateu palmas porque isso não se faz na Ásia, e seguimos para o controle de passaportes e esteira de bagagens. Tudo correu bem. Nada de interrogatório (vide “Essa não é uma Folha de Bananeira”).

Geralmente procuro enxergar somente o lado florido e bonito de tudo, mas continuo sendo humana a mercê de situações que nos forçam a respirar fundo e controlar nosso lado selvagem, para estarmos aptos a viver em .

Mas, cadê o lado bom desta moeda? Ora, como voltei para casa ainda sofrendo de Jetlag (problema com diferença de fuso horário), já estou praticamente de malas prontas para a próxima viagem porque a alma nômade nunca descansa e nem se contenta com nada eternamente. Que venham os próximos pés fedidos debaixo do meu assento da classe econômica, todos os maus-hálitos e todas as caras amassadas do planeta!

Há quem diga que o que vale não é o destino, mas sim a jornada. Aí eu pergunto: quem concorda?

Luciana B. Veit


 

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