Com o aumento de campanhas ateístas no Reino Unido e na Alemanha onde frases como “Relaxe: Deus não existe” enfeitam ônibus e outdoors de grandes cidades, pergunto o que a moral tem a ver com a religião ou pelo menos com a fé em geral (como é no meu caso, que não pertenço à nenhuma religião em particular, mas que possuo uma crença pessoal formada a partir de diversas crenças universais).
Se Fiódor Dostoievski, escritor russo de família aristocrata, já criticava o tópico de discussão da moda em meados do século XIX que “sem Deus tudo é permitido” sem grandes comoções da sociedade, o que faz com que os ateístas de hoje acreditem que dessa vez será diferente, que a sociedade realmente mudará as regras fundamentais que se baseiam na religião da maioria dos cidadãos do seu país?
Será que como seres-humanos estamos prontos para encarar o valor da moral independentemente da religião?
Será que passamos a acreditar mais em atuais valores morais do que em textos religiosos antigos que necessitam de interpretações modernas?
E o que é exatamente ser ateísta?
Há aqueles que de fato não acreditam que Deus seja um ser supremo sentado no trono no paraíso, mas existe pessoas que vêem Deus não como um espírito julgador, mas sim como todas as forças juntas da natureza.
Face às agressivas campanhas ateístas, alguns padres católicos (como o bispo alemão Walter Mixa, por exemplo) até chegam a comentar que as grandes tragédias da humanidade se deram graças à falta de religião. Está certo que o comunismo era um sistema ateísta, mas não o Terceiro Reich, que por sua vez se baseava em tradições cristãs e onde ateístas não eram desejados. E as desgraças de hoje e do passado então, quando islâmicos, cristãos, budistas e por aí afora se matam literalmente em nome da fé?
Será que haveria paz no mundo se não houvesse mais religiões?
Será que o homem usa sua fé como desculpa para esconder e até para exercitar indiretamente seu lado maligno?
Também não posso negar que aquele que tem fé em Jesus Cristo, por exemplo, pensa duas vezes antes de se suicidar, mas aquele que acredita no profeta Mohammad sabe que com seu próprio sacrifício em nome de sua crença receberá uma grande recompensa no outro lado da vida.
Já sobre os altos e baixos da nossa existência, tem gente que acredita, torce e quase que depende que Deus ajude a superá-los com o tempo, e tem gente que ignora que um poder absoluto possa influenciar qualquer coisa, buscando eles mesmos soluções para problemas.
Tem gente que pensa que religião é coisa de fraco. No entanto tem gente que defende a tese que fracos são aqueles que não tem religião, por não admitirem que exista um poder maior que o deles, aceitar uma idéia que não pode ser cientificamente provada.
O que deveria valer numa discussão assim são os valores morais de cada um, independentemente desses terem uma ligação religiosa ou não.
Imaginemos os seguintes cristãos, que obedientemente freqüentam a igreja todos os domingos ou que pelo menos rezam diariamente, pedindo isso e aquilo para Deus:
Uma pessoa na Alemanha que sabe que está infectada com o vírus HIV e que não avisa seu parceiro/sua parceira sexual, ou pelo menos não faz questão de usar proteção seja por vergonha ou ruindade mesmo, está cometendo uma forma de assassinato.
Um viciado nos Estados Unidos que ignora a dor de sua família imediata por sua causa, está não só matando a si mesmo mas também matando “a alma”, o prazer de viver daqueles que mais o amam.
E aquela sogra no Japão que inferniza a vida de sua nora ou de seu genro por frieza ou por ciúmes, bem ciente que apesar do amor que sente pelo/a filho/a, está tirando a paz daquela pessoa que passou a ter grande importância na vida dele/a.
Ainda ouvi falar de um pedófilo condenado e em regime albergado que se acha no direito de trabalhar como locutor numa estação FM de rádio comunitária do interior da Paraíba, quando suas vítimas são seus ouvintes.
Agora devemos também imaginar ateístas que protestam a intolerância racial nas ruas, que trabalham em missões humanitárias nos piores países do mundo, que cedem seus assentos no metrô lotado a idosos, a mulheres grávidas ou com crianças de colo, ou mesmo a jovens carregando muitas sacolas ou até um instrumento musical.
Não seria um erro afirmar que a bondade, os valores morais, logo os valores humanos, pouco ou nada tem a ver com religião sozinha? Ou são as regras de cada religião que formam mesmo o caráter de cada indivíduo?
É claro que num país como o Afeganistão ou na Somália, aquele que não concordar em “forçar” a própria esposa a se deitar com ele no mínimo quatro vezes por semana acaba perdendo a voz na sociedade, da mesma forma que várias cidadezinhas ainda controlam a ida à igreja de seus habitantes. Mas mesmo esse muçulmano pode tratar sua esposa com carinho e atenção fazendo até com que ela se alegre em ter que “recebê-lo” quatro vezes por semana. Ou ainda fazer da ida à igreja católica um programa legal, onde o padre não se sente literalmente no altar e onde temas atuais são por ele abordados.
Será que contradizer um padre, um íman e um monge publicamente, ou ainda renegar religiões como instituições e não como portais da fé são atos tão hediondos assim, visto que pouco aprendemos do passado e que é nosso dever de sermos sinceros com nós mesmos em primeira estância, mesmo que aquilo que entendemos por valores morais não caia no mesmo segmento para os nossos vizinhos?
A religião ajuda uma pessoa a ser desenvolver, sem dúvida, mas para qual lado já é uma questão individual, já que para tudo na vida existe diversas interpretações.
A fé ou a ausência dela não determina a essência de ninguém, mas no fim quem determina a moral somos nós mesmos e é isso que se espelha ao nosso redor.
Luciana B. Veit
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