Regras Rebeldes

Palmeira, Praia, Paradisiaca“É preciso conhecer as regras para poder quebrá-las”, diz o ditado intelectualmente, artisticamente ou socialmente falando (porém deixando as regras de etiqueta à mesa de lado, pelo amor de Deus!).

Outro dia estava dizendo ao meu filho (que adora pintar) que seria interessante que ele fizesse um curso de artes. Ele automaticamente me perguntou o motivo, já que eu sempre elogio aquilo que ele pinta. Há pouco tempo, ele até cogitou exigir ingresso pago para todos aqueles que entrassem em seu quarto, já que é lá onde seus desenhos mais elaborados estão colados na parede.

– Eu não preciso de técnicas para pintar como Miró – ele comentou com uma tremenda certidão.

– Talvez, mas tenha certeza que mesmo Miró aprendeu as regras antes de seguir seu próprio instinto. No curso você aprenderá técnicas de pintura e de desenho, como de frutas e legumes, por exemplo. Quem sabe quando você dominar as regras, não se tornará até um novo Arcimboldo? – expliquei no papel de mãe, mesmo sabendo que ele tinha razão.

Na verdade foi meu filho que, sem perceber, me deu aquele show de sabedoria quando afirmou indiretamente que a ausência de regras e técnicas promove ainda mais a criatividade. Tão certo ele estava!

Mas deixando pinturas de lado, li há pouco tempo um artigo no jornal que falava que qualquer escritor iniciante que se prezasse, deveria ler o livro blá, blá, blá, porque é nele onde todas as regras que um escritor jamais deveria ignorar estão presentes. Huh! Artigo pago, será? Pergunto-me porque é no meio artístico onde mais se procura por quebradores de regras e no fim, são os rebeldes que terminam sempre no papel de grandes novas revelações.

Na verdade os artistas em geral não quebram regras necessariamente para chamarem a atenção, mas sim porque suas mentes são livres. E por mais que conheçam todos os “faux pas” de cor e salteado, eles sabem que as regras não merecem a atenção reivindicada porque elas não contribuem com nada de novo.

Há mais ou menos dois meses, estava eu dirigindo uma peça curta de teatro aqui em Seul para o grupo “Seoul Players” quando durante os ensaios uma atriz repreendeu um colega ator por ele ter andado na frente dela no palco, quando a regra diz que ele deve andar por trás. Eu então liberei a ação do ator apesar dos protestos da fulana. Ora, apesar das regras de palco, eu tenho como diretora a total de transmitir a estória do meu jeito, porque se eu colocar o sujeito de costas para o público, eu terei certamente um motivo para tal – seja ele provocativo ou nesse caso, absolutamente natural.

E sobre aquela outra regra que diz que quando você é convidado por alguém, tem a obrigação de convidar a pessoa no futuro de volta como um sinal de gentileza? E se você não suportou a companhia daquele último jantar e contou os minutos para poder ir embora? Então para que repetir a dose? Para fazer jus às regras?

Existem algumas regras que de fato devem ser obedecidas, principalmente quando elas tem uma ligação direta com a cultura e até com a superstição do país. Por exemplo: não se deve mostrar (nem que indiretamente) a sola do pé para um árabe e não se deve beber sem brindar antes na Rússia, muito menos deixar o palitinho “descansando” (espetado) no pratinho de arroz na Coréia.

Agora ao meu ver, comer hambúrguer ou banana com garfo e faca é uma grande frescurite e não uma regra, enquanto chamar a atenção dos filhos dos outros em nome da ordem já é falta de bom senso.

É claro que aquele que nada freqüentemente contra a corrente acaba não sendo desejado em locais onde os “obedecedores” das regras reinam em absoluto, aqueles que dizem as frases corretas nos momentos ideais, que se vestem de acordo com o esperado, que são exteriormente os modelos exatos da imagem que querem vender de si mesmos e que no fundo morrem de inveja daqueles que vivem as suas próprias regras cotidianas livremente.

Bom, se não prejudicamos ninguém com a nossa rebelião, então porque nos deixar escravizar? Por que fazer uma criança pintar uma laranja redonda quando na sua cabeça ela é quadrada? Por que deixar que editores matem o sonho de um escritor promissor e anarquista quando ele mesmo pode publicar suas obras sozinho? Por que cortar a fluência de movimentos de um ator, quando a naturalidade é o que mais se preza nos palcos? Por que perder tempo com gente que não combina com a nossa natureza; afinal regras não existem para serem quebradas?

Luciana B. Veit


 

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