Naquela curva a rua estreitou-se. Já acostumada a observar a situação de frente ao meu nariz antes de tomar alguma providência, abaixei o vidro do carro e esperei chegar a minha vez, dirigindo à 30 km/h.
Eu não tinha motivo de fugir ou de me esconder porque às duas da tarde ainda não havia bebido nada alcoólico (não que o sempre faça, mas uma tacinha de vinho geralmente me acompanha quando preparo o jantar).
Pois então, lá estava eu em Seul, aguardando para poder soprar no bafômetro da polícia civil. Estranho – pensei – porque além de estarmos falando de uma blitz de álcool no meio do dia, essa rua estreita em questão dava bem de frente para um colégio coreano particular. Mas quem sabe esse não era o motivo da blitz, já que donas de casa desesperadas com a própria aparência, com a conta vermelha no banco, com as notas baixas dos filhos na escola, com a falta de vontade de fazerem qualquer coisa que tirassem-nas dessa miséria espiritual é o que não falta, e a capital da Coréia do Sul não é nenhuma exceção, já que muitas delas podem enxergar o álcool como a única diversão que tem.
Mas de volta à blitz, assim que o carro da minha frente foi liberado pelo policial, o motorista pisou fundo e me deixou cara a cara com o oficial de uniforme. Como estava de óculos escuros, ele acenou para que eu parasse e assim o fiz, porém para ser gentil, tirei os óculos já com a boca semi aberta para poder alcançar o bafômetro. Nesse instante, o policial olhou nos meus olhos e me deixou passar sem que eu tivesse passado pelo teste.
Senti-me marginalizada, mesmo que no bom sentido da palavra. Por mais que existam exceções, raramente estrangeiros são parados por policiais em blitz de qualquer natureza e o motivo é simples: os coreanos não querem dor de cabeça.
Com a força militar norte-americana estacionada bem no coração de Seul, fora as demais bases ao longo da península, os sul-coreanos engolem muitos sapos em nome da hospitalidade (forçada indiretamente). Aos nossos olhos os asiáticos são todos parecidos com seus olhos-rasgados, e para os asiáticos a situação é a mesma em relação a nós, os narigudos (como chamam os não-olhos-rasgados). Para evitarem problemas pelo fato de não conseguirem distinguir entre estudantes, esposas de diplomatas ou militares americanos, os policiais sul-coreanos quase sempre deixam o caminho livre para nós.
E aqui não só me refiro à pequenos delitos, como tomar aquela terceira taça de vinho e sair no volante e passar no sinal vermelho, ou esquecer os documentos em casa, mas já ouvi casos de prostitutas que trabalham na capital que passam por abusos nas mãos de estrangeiros. Assim que relatam os casos para a polícia, nada é feito. Inclusive no caso de doenças, porque apesar da prostituição ser proibida por lei na Coréia do Sul, “dançarinas” ou “garçonetes” de clubes noturnos são obrigadas a passarem por freqüentes testes de saúde e se eles não estiverem em dia, não poderão aparecer no local de trabalho. Por isso, elas alegam que são os estrangeiros, na maioria dos casos os G.I.s (militares americanos), que as infectam com doenças.
Não seria sincera se falasse que o certo é como as blitz funcionam em Moscou, onde todos são parados com grande freqüência por policiais sem motivo aparente (ou até arquitetado, de acordo com as circunstâncias), mas quando os anfitriões, sejam eles coreanos ou de qualquer outra raça, fecham os olhos para os abusos cometidos por seus “convidados”, eles acabam perdendo grande parte do respeito e até de sua autonomia.
A justiça deveria valer para todos, e sinceramente me sentiria mais como parte da sociedade seulita (momentaneamente pelo menos…) se não fosse constantemente ignorada pelas autoridades, apesar de não ter nada a temer.
Luciana B. Veit
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