– Doze quilos a mais do que permitido? Ainda mais doze de bagagem de mão? Sem problemas… – diz a funcionária da compania aérea no balcão do check-in com um largo sorriso. – No entanto, tenho uma má-notícia: os assentos reservados pela senhora já foram imprimidos no cartão de embarque de dois outros passageiros. Peço mil desculpas pelo erro da minha colega inexperiente. Mas a boa notícia é que a saída de emergência ainda está livre. Que tal?
“Saída de emergência, logo espaço dobro para as pernas. Melhor ainda”, pensei, mas fiz cara de quem não tinha gostado nada.
Ao invés das gigantes filas para o raio-x, os fiscais estavam se coçando sem saber o que fazer.
“Onde estão os demais passageiros?”, refleti.
Colocando a mala de mão sobre a esteira, aviso o fiscal que não carregava líquidos comigo, mas um laptop.
– Já vou abrir a malinha. Um momento… – disse, me livrando da jaqueta e também colocando-a sobre a esteira do túnel do raio-x. – Não precisa, não. Está tudo bem. Pode passar.
Que paraíso! É como se ele soubesse que no momento em que abrisse a malinha, vários itens menores como caneta, barra de chocolate e o jornal local cairiam, por estarem por cima do laptop.
Na Alfândega, o fiscal carimbou meu passaporte sem mesmo procurar pelo carimbo de entrada! E claro, feliz da vida por poder estar trabalhando em pleno fim de semana ensolarado…
Também não tive que esperar a tia da limpeza acabar seu serviço no único toalete feminino do portão de embarque para poder entrar.
Enquanto aguardava a chamada para o vôo, ainda encontro em um dos assentos um clipes de prata segurando cinco notas de cem euros cada. Olho em volta, mas ninguém ali pareceu se dar conta dele.
Beleza! Corro para o Duty Free com o intuito de gastar o dinheiro antes que alguém percebesse. Compro cremes, dois frascos de eau de parfum francês, maquiagem, mais chocolate Sprüngli para meu filho e ainda uma garrafa de Moêt et Chandon. No caixa, a funcionária que tinha provavelmente acabado de sair das fraldas, se enrola toda com as notas de dinheiro, meu cartão de embarque e ainda o cartão de Miles & More. Resultado, me devolve uma nota de cem euros por engano. Como sou terrível com números, só me daria conta disso quando estivesse contemplando as compras e o recibo horas mais tarde. Sorte minha.
Atravessando a ponte coberta que dá para o avião, nada de passageiros de primeira viagem que te atropelam com medo de ficar para trás, ou que ainda ocupam todo o espaço de bagagem à mão no compartimento superior. Todos ali eram do tipo que não batiam palmas quando o avião aterrissava, e que não se levantavam para juntarem as trouxas do compartimento superior quando o avião, após ter tocado o chão, ainda estivesse taxiando.
Finalmente dentro do grande pássaro, meu filho de cinco anos e eu teríamos uma outra surpresa nesse avião lotado de pessoas educadas e viajadas.
– Acredito que não poderá ocupar esse assento, garoto – diz a aeromoça ao meu filho. – Crianças não são permitidas na saída de emergência! Infelizmente terá que se sentar em outro lugar.
– Hey, hey, hey! – falei com autoridade. – Ele não vai a lugar algum sem mim. Como foi sua colega que fez a asneira de nos colocar aqui, exijo que encontre dois outros assentos decentes, porque senão meu filho não vai deixar ninguém dormir nesse vôo de 11 horas.
A aeromoça olha ao redor e vê que o avião estava pingando gente.
– Um momento, por favor – ela diz com um sorriso amarelo, o cabelo preso melado de gel, perfume doce e batom rosa entre os dentes.
Ela se afasta enquanto meu filho e eu aguardamos de pé no corredor estreito da classe econômica.
Passados cinco minutos, quando todos os passageiros pareciam estar acomodados, a aeromoça volta triunfante.
– Queiram me acompanhar.
Maravilha! Sabia bem que quando elas faziam isso, significava um upgrade, mas não poderíamos sonhar que até mesmo a classe executiva estaria lotada.
– Primeira classe! Acho que estarão confortáveis aqui – diz a aeromoça sorrindo. Uma colega mais sorridente ainda se aproxima imediatamente com uma bandeja servindo champanhe, sucos e água, enquanto a moçada da classe econômica teria que se agüentar com sede por no mínimo mais meia hora.
As 11 horas de vôo sobre o Atlântico não poderiam ter sido melhores. Mordomia e luxo são bons, e todo mundo gosta!
Após a aterrissagem, os passageiros da primeira classe – NÓS – saem primeiro, não encontram filas na alfândega e mal precisam esperar para a esteira das bagagens começar a se mover. Ha! Dois minutos parada ali e logo avisto nossas malas.
Na saída ninguém bloqueava a saída dos passageiros, passageiros, paaassageirooos, passssssssageirosssss, pas-sa-geeei-ros…
– Acorda, mulher! Não sonha, não! – me trazendo para a realidade, diz um fulano nervoso com barba para fazer atrás de mim na fila do check-in. – É a sua vez!
Luciana B. Veit
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