Como já havia mencionado semana passada, o outro assunto que despertou meu interesse quando folheava as páginas do jornal local foi o da situação da mulher aqui na Coréia do Sul. Mas antes de mais nada, sei que existem problemas relacionados ao tema nos quatro cantos do planeta, no nosso círculo íntimo de amigos e até dentro de nossas próprias famílias, no entanto meu foco hoje é a Terra das Calmas Manhãs.
Na verdade nem precisava ter lido o artigo do jornal para comentar em partes sobre ele, porque nas primeiras semanas como residente em Seul há mais de dois anos e meio, logo percebi que se tratava se uma sociedade machista.
E daí que 100% do salário do marido coreano vai diretamente para a mão de sua esposa, que por sua vez lhe dá “mesada” para o almoço e para uma cervejinha extra por semana (que ele muitas vezes economiza para gastar na “terceira rodada”, que segue o restaurante e o bar)?
E daí que a esposa é notificada por torpedos toda vez que seu marido passar o cartão de crédito?
E daí que na maioria das vezes é a mulher que decide qual imóvel o casal estará comprando, lembrando que é ela que senta em cima do dinheiro?
E daí que muitas mulheres locais trabalham fora, achando normal deixar a educação dos filhos para os avós?
E daí que em segredo muitas solteiras e até algumas casadas fazem programas após o expediente “diurno” para engordar o salário num país onde a prostituição é proibida por lei?
E daí que pelo peso que as mulheres (esposas e sogras) colocam em cima dos ombros dos homens em termos de finanças e status social (títulos), muitos deles acabam até sucumbindo ao stress e cometendo suicídio?
Poderia até mencionar mais alguns exemplos, mas acho que já deu para transmitir uma visão geral do ponto de vista masculino.
Passemos para o ponto de vista feminino, que apesar de poucos, os exemplos a seguir são bastante desumanos comparado aos exemplos de cima, que basicamente tem uma “raison d’être” financeiro.
Na regra parceiros não são escolhidos pelos familiares na sociedade sul-coreana, mas eles ainda tem o poder do veto.
Uniões com estrangeiros são extremamente desaconselháveis, o que pode até levar ao rompimento dos laços de família.
Traições conjugais principalmente por parte do homem fazem parte da rotina de muitos porque passada as festividades do casamento, o ambiente profissional volta a ter mais importância na vida do homem do que o relacionamento a dois – e a mulher não só sabe, mas como aceita os fatos, enchendo a banheiro às duas da madrugada quando o marido volta para casa com cheiro de mulher, cigarro e álcool no corpo e na roupa.
Apesar dos diplomas universitários, as mulheres que não se escravizam literalmente pela figura esguia e pelos rostos e cabelos impecáveis na meca da cirurgia plástica da Ásia não merecem o respeito masculino. E aqui mais uma vez elas se curvam para essa forma de submissão com naturalidade. E as poucas que ousam pensar e ser diferentes, são vistas como seres estranhos.
De acordo com o KWAU (Korean Women’s Association United), 40 a 60% das mulheres coreanas casadas são abusadas fisicamente pelos seus maridos (o que vai de desrespeito falado a empurrão, estupro e surra), quando 9% delas chegam a receber cuidados médicos por tamanha brutalidade. 42% dessas mulheres são abusadas mais que uma vez por semana. Sobre as mulheres que no passado foram escravizadas sexualmente pelos japoneses, coreanos e americanos (voluntariamente ou involuntariamente), bom, isso já é uma outra história relatada no texto “Escravas Sexuais”.
Abusos de pai para filha não são inexistentes aqui e quando uma adolescente resolve fugir de casa por não mais agüentar essa situação, suas perspectivas de sucesso na vida passam a ser nulas, porque por mais que volte à escola meses mais tarde após ter sido aceita em uma casa de caridade qualquer, suas próprias amigas não a aceitarão mais.
Quando as casadas engravidam, a lei proíbe que elas saibam do sexo do bebê antes do nascimento, pelas taxas de aborto no caso de se tratar de uma menina serem tão monstruosos (e não por vontade da mãe, claro).
Porém a coisa fica mais feia ainda quando mulheres solteiras engravidam. De acordo com os valores do rígido Confucionismo, elas tem somente duas opções: abortar ou dar a criança para adoção. Aquelas que dão seus bebês para adoção podem até resolver o problema social da coisa (isso se tiverem conseguido esconder a gravidez do ciclo de conhecidos), mas não o emocional quando quase que unanimemente sofrerão de um senso de perca e de culpa para o resto de suas vidas.
Mas apesar das dificuldades, ainda existem mulheres aqui que graças à auto-estima e à ajuda extensa da organização filantrópica chamada “Aerowon”, resolvem levar à frente a decisão de encarar as conseqüências de trazer crianças “ilegítimas” ao mundo – sozinhas, porque nessa hora os parceiros tornam-se inexistentes e as famílias distantes. No entanto, por mais que por um milagre essas mulheres consigam aprender uma profissão para assim garantir a mais modesta sobrevivência, as mães solteiras terão que arcar no futuro com o sofrimento e até com a vergonha de seus filhos por conta das piadinhas de mal gosto nessa sociedade tão intransigente.
São situações no dia-a-dia que provam que a Coréia do Sul se recusa a olhar para o futuro, para exemplos de lugares onde os direitos das mulheres significam muito mais do que a administração do dinheiro.
Apesar de ter em mente que tudo é uma questão cultural e que a Coréia do Sul é um dos países mais agradáveis, limpos, seguros e bem estruturados onde tive o prazer de residir até agora, me pergunto o que faz com que as mulheres daqui se deixem levar dessa forma. Tudo é uma questão de escolha pessoal e enquanto a maioria das mulheres aceitarem os fatos com obediência e sem a mínima rebelião, sem demonstrarem claramente o orgulho que tem de serem mulheres, nada mudará. E acreditem, as coreanas (da nova geração pelo menos) querem mudar porque entendem que o progresso pessoal, espiritual, financeiro, estrutural e social depende de mudanças!
É possível fazer valer seus direitos como mulher andando lado a lado com a feminilidade e tradição?
Feliz Páscoa para todos que acreditam na ressurreição de Cristo, e para aqueles que não acreditam nela, que se lembrem pelo menos do significado dos ovos: renascimento!
Nunca é tarde para acordar do sono imposto sobre nós mesmos.
Luciana B. Veit
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Tags: Coréia do Sul, discriminação de sexos, feminista, great wall china, intolerância, mulher, seres humanos
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