Recentemente estava eu sentada num Café de rua na cidade de Stuttgart saboreando o meu schnitzel, me refrescando com meu suco de maçã com água gazoza e curtindo o ambiente, no qual observava as pessoas de todos os tipos que iam e viam. Pessoas chiques com pastas de trabalho ou sacolas de lojas caras nas mãos, estudantes vestidos com jeans surrados, velhinhas com andadores ou até com mexas lilás e pink na cabeça branca, famílias com crianças ou sem elas, e alguns poucos turistas.
Acostumada com a loucura de uma megalópole asiática, tinha até me esquecido de como a Alemanha era calma. Como é quieta, apesar das conversas cochichadas aqui e ali, dos ruídos dos trens U-Bahn e S-Bahn que passam no horário exato. Como é organizada, quando até nos calçadões tenho a impressão de que as pessoas que vão andam mais do lado direito do que as que vem, que andam mais do lado esquerdo. Como as pessoas são educadas, quando poucos são aqueles que tentam levar vantagem em coisinhas do dia-a-dia, como furar a fila da padaria como quem não quer nada, roubar um figo do stand de fruta do mercadão (detalhe: figo é sinônimo de fruta exótica e cara nessas bandas), ou sentar-se num Café de rua e sair correndo sem pagar a conta só de gozação…
Observando tudo e todos ao meu redor, não demorou para eu notar um casal vizinho onde a mulher que só havia pedido uma saladinha, tentava o tempo todo roubar a batata frita do prato do marido, que por sua vez, já bastante estressado, puxava-o para si. Mas eu também notei uma outra mulher, que acompanhada por uma amiga, estava sentada num outro Café logo de frente ao meu, só bebendo um cafezinho, enquanto sua companhia se gabava com um belo prato de massa e um suco. Achei estranho, mas tudo bem. Quem sabe ela já não havia almoçado, ou talvez estivesse em jejum, pagando promessa, sei lá eu? Fato é que o que também percebi, foram os olhares maldosos escondidos por debaixo dos sorrisos amarelos que uma jogava para a outra. Mas por que almoçam juntas se não se suportam – foi meu pensamento seguinte.
Bom, logo que a mulher que estava comendo terminou seu prato, avisou que daria uma corridinha até o toalete. Foi aí que aconteceu! A fulana que ficou, terminou seu cigarro apagando-o no resto do cafezinho da sua xícara, pegou o copo de suco da sua colega e deu uma bela golada. Achei feio porque ela fez isso escondido, fazendo questão que o copo voltasse para a posição exata de onde estava antes. Estava ela com sede e sem dinheiro? Então por que não havia pedido um copo de água da torneira para a garçonete, ou então que pedisse para sua amiga que lhe desse um pouco do seu suco. Mas escondido, olhando dos lados para não ser descoberta?
Um minuto se passou e nada da colega voltar. O sol estava alto e quente apesar da brisa, e pelo o que deu para perceber, a sede da mulher persistia. Dessa vez, a fulana sedenta pegou o copo de suco mais uma vez e ao invés de dar aquela golada gigantesca já por mim esperada, cuspiu no copo ao invés! Um cuspe discreto, mas ainda sim um cuspe!
Fiquei chocada. Que espírito de porco, pensei, mas ao mesmo tempo me ajeitei na cadeira para ver no que ia dar essa história. Iria a colega perceber que seu suco já não estava mais intocado? Se percebesse, diria ela alguma coisa? É claro que ela dificilmente perceberia o cuspe no copo, a não ser que ele ainda estivesse nadando na forma de espuminha. Beberia ela o suco cuspido caso a mulher na sua frente fosse a sua chefe no escritório ou jogaria ela o conteúdo na cara da fulana mesquinha, sem pensar nas conseqüências?
– Vai ver o suco estava frio demais ou até ralo e a fulana só quis ajudar, cuspindo dentro do copo para esquentá-lo um pouco e melhorar a consistência – meu filho comentou de camarote.
Sem mesmo olhar o seu copo, a mulher recém chegada do toalete leva-o à boca e vira o conteúdo de uma só vez, sem cerimônias.
– Pfuuuuuuiiii – foi o coro da platéia, seguido do sorrir dos olhos da fulana que havia cuspido no copo.
Infelizmente nunca saberemos se a mulher exerceu um auto-sacrifício no qual bebeu um suco cuspido em nome de algo muito, mas muito importante, ou se ela realmente era uma nó-cega mesmo.
Todavia, quando meu filho pediu-me para que levasse-o ao toalete olhei ao meu redor com um pé atrás e automaticamente me lembrei de uma estória que já havia ouvido dezenas de vezes. Essa estória resolvi então colocar em prática, para assim evitar que qualquer situação parecida se desse conosco.
Sem poder confiar no nível da loucura das pessoas sentadas ao meu redor, abri a minha bolsa, peguei de dentro uma caneta, dobrei o guardanapo de papel do Café e escrevi em Alemão bem grande:
“Eu cuspi em ambos os sucos” – sem tê-lo feito, obviamente.
Todavia, no caminho do toalete de volta para a mesa eu estava apreensiva, porque a última coisa que gostaria de encontrar, era o fim dessa notória estória do suco realizada, no qual um outro guardanapo com uma letra nada familiar ao lado daquele original diria:
“Eu também cuspi em ambos os copos.”
Luciana B. Veit
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