“Esse será mais um dia daqueles!”, pensei a caminho do hipermercado Ashan, em Moscou. “Mas vou em paz dessa vez. Não vou discutir com o segurança da garagem e nem tentar atropelar o cachorro vira-lata que cisma com o meu carro toda vez passo por ele”.
Sabendo muito bem que fazer compras no Ashan de fim de semana ou de fim de tarde seria confusão na certa, me habituei a ir toda segunda-feira de manhã.
Pois então, parei no caixa eletrônico e depois pilotei o meu carrinho pelos largos corredores do hipermercado (daqueles que vendem de tudo: de laranjas a pneus). Mas mesmo às nove horas da manhã, com os corredores praticamente vazios, os moscovitas não desistem de colocar em prática o hábito de ficarem muito próximos uns aos outros, mesmo se isso signifique terem que empurrar sem a menor consideração os carrinhos dos outros para o lado, ou terem que passar com ele por cima dos seus pés.
Já acostumada com a grosseria, procurei dar conta da minha lista e de espiar uma vez ou outra (por pura curiosidade) os itens que os russos levam para casa: garrafas de bebida alcoólica, muita maionese, muita salsicha, blíni, repolho, beterraba, alho, peixe defumado, maçãs, peras e para os mais endinheirados, latinhas de caviar vermelho ou preto.
Após ter conseguido chegar no caixa com os pés inteiros e até sem ter respondido a nenhum desaforo, coloco os itens sobre a esteira num ritmo frenético e de repente, a caixa observa com cuidado um pratinho de filé que gostaria de fazer acebolado, leva ao seu rosto, cheira-o e diz: – A carne não está muito fresca.
Fiquei surpresa com tal comentário, porque por aqui ninguém nunca está disposto a dar informação alguma, seja lá qual for. Assim, sem prévio-aviso, um ato de tamanha bondade? Realmente isso me pegou de calças curtas.
Eu finalmente agradeci pela dica e passei adiante. Só que não tinha acabado por aí: a caixa pega em suas mãos um copinho de framboesas que usaria para fazer um molho ao champanhe e diz: – Tem certeza de que quer comprá-las mesmo? Estão caras demais!
Dessa vez fiquei muda. É claro que resolvi deixar tanto a carne, quanto a framboesa para trás. Essa caixa tinha conseguido amolecer o meu coração por um momento com dois simples e banais comentários nessa cidade de brutos, onde além dela, ninguém parece se importar com ninguém (e não me venham falar da Russkaia Duschá!).
No instante em que cheguei no hipermercado, tive certeza de que sairia dali com uma feição azeda no rosto, mas ao invés disso, meus olhos estavam sorrindo, pelo menos até passar pelo cachorro vira-lata de novo.
Luciana B. Veit
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