– Didgeridoo – explicou a simpática vendedora de uma lojinha de arte aborígene no centro antigo de Sydney, mais conhecido como The Rocks.
– Mas muita gente aqui diz simplesmente didgee – prosseguiu com sua explicação para meu grande alívio.
– That’s better. Thanks – eu disse.
– No worries! – foi sua resposta de utilização nacional, o que significa: sem preocupação. (Claro, quem vive no paraíso, não deveria mesmo se preocupar com muita coisa…)
Mas de volta ao didgeridoo, já havia escutado o som desse único e fascinante instrumento de sopro pela primeira vez no centro da cidade de Stuttgart há muitos anos, mas somente há poucos dias foi quando fui tocada pela força de seu som profundo que literalmente atravessou meu corpo enquanto eu atravessava o Circular Quay sentido a Opera House. Um aborígene, pintado e “fantasiado” como tal, tocava o didgee sentado na rua com um acompanhamento de música techno, enquanto seu colega mais branco de pele, com uma barbicha branca que chegava aos seu peito e chapéu de “Crocodile Dundee”, cuidava das moedas de dólares australianos que os amantes da arte indígena local deixavam no cesto no chão.
É claro que naquela tarde comprei o instrumento, após ter combinado uma boa taxa de entrega internacional com a vendedora. Posso dizer que matei dois (ou três) coelhos com uma paulada só: levei não só o instrumento de um metro e meio de altura (com a esperança de tocá-lo decentemente um dia), mas também a arte da pintura de pontinhos aborígene sobre ele, e acima de tudo um souvenir daqueles…
Mas falando de Austrália, seria uma ilusão minha dizer que em meros dezesseis dias tenha conseguido captar sua complexidade. No entanto, posso hoje dizer que tenha conseguido captar sua alma. E que alma!
Bem antes de embarcar fiquei um pouco desconfiada com os australianos por conta da dificuldade que foi para meu visto ser liberado, mas agora entendo o motivo de tanta explicação necessária na embaixada: aquele que chega na Austrália não deseja nunca mais ter que sair dela, nem pessoas de alma cigana como eu.
Ali ninguém se sente ruim ou apontado na rua por ser estrangeiro. Os cidadãos são receptivos, curiosos, simpáticos, educados, organizados e cultos. O bom senso é geral. Sempre achei que para um país funcionar ele deveria ter leis severas como é o caso de Cingapura, mas na Austrália isso não é necessário.
Todas minhas experiências nesse gigantesco país foram positivas, inclusive o mar bravo que enfrentei de dentro de um barquinho minúsculo no meio do oceano nas ilhas Whitsundays, na Grande Barreira dos Corais.
Mas independentemente daquilo que tenha visto no país, o que mais me impressionou foi mesmo a cidade de Sydney – o que não poderia ser diferente, pelo fato de ser uma megalopense de carteirinha. A cena cultural é diversa e abundante. O mar é verde e limpo. A vida noturna e diurna é agitada. As praias são convidativas, principalmente se você gosta de encarar um boa onda. Os habitantes são bem-humorados e sarados, e falando em gente sarada, nunca vi tanta gente bonita em um único lugar. Nada de obesos ou menininhas anoréxicas: a vista geral é de gente de bem com a vida, que curte se curtir e que gosta de comer e beber bem. Filés à parmeggiana, peixes frescos, massas deliciosas e bem temperadas, excelentes vinhos, sucos naturais de frutas que não se encontram na Ásia nem em mercados de elite, sorvetes leves, chocolates de sabor intenso, tortinhas doces e salgadas, guaraná importado, ah, é melhor eu parar por aqui…
Por mais que o país hoje ainda tenha muito o que melhorar, como levar mais à sério ainda as injustiças cometidas com os aborígenes ao longo de sua história, só posso tirar o chapéu para a Austrália.
Esse país começou a se desenvolver – como nós entendemos a palavra desenvolvimento – com a chegada de criminosos ingleses (nada de assassinos, mas sim bandidinhos de pão e galinha na rua), marinheiros e oficiais ( e todas as respectivas famílias) que contaram 1373 no total dos que sobreviveram a viagem que durou nove meses (passando pelo Rio de Janeiro inclusive) e terminou em 26 de janeiro de 1788 em Sydney.
Para aqueles que se interessam mais pela história, que comprem um livro à respeito ou melhor ainda, visitem a Austrália, começando pelo Sydney Museum na Bridge Street. Eu só queria mesmo oficializar através das minhas palavras a impressão que ficou em mim: deslumbrante é pouco!
Agora de volta à minha rotina em Seul, vou levando meu dia-a-dia com música do didgee de fundo até embarcar no próximo avião, de preferência de volta para a Austrália…
Luciana B. Veit
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