Misérias

Misérias, Árvore Pelada no LagoA não pode ser tão frágil assim, penso. Não pode porque certos problemas nos são tão claros que até ofuscam a nossa visão.

Aqueles abençoados, pouco acostumados com nada menos do que freqüentes taças de champanhe ou casas com nenhuma parede descascada por falta de dinheiro para a reforma, muitos preferem não olhar a verdade no olho.

Qual verdade? A verdade das verdades, aquela que incomoda, aquela que não deveria existir. A verdade da miséria. Essa miséria que vem em várias formas: a miséria financeira, quando a falta do dinheiro leva a culpa em tudo. A miséria intelectual, que mesmo aquele que por um motivo ou outro não teve a oportunidade de trabalhar por um diploma universitário simplesmente se acomoda e não procura progredir através da auto-didática por simples preguiça ou falta de interesse. Também me refiro à miséria emocional. Pessoas que se foram uma vez machucadas ou não, fecham todas as portas e janelas para aqueles que poderiam alegrar ou esquentar o coração. A miséria pessoal, quando alguns imaginam ser o centro de tudo. E a miséria de saúde principalmente para aqueles que tem meios de pagar pelos tratamentos mais caros do planeta e mesmo assim não tem jeito.

Mesquinhez, arrogância, intolerância, ignorância, preguiça, egoísmo, ganância… Quem é que não possui como característica pelo menos uma dessas misérias, já que miserável não é só aquele que faz barraco por um prato de comida?

Quando fechamos os olhos para o nosso redor, somos miseráveis. Quando nos sentimos grande coisa face à complexidade do universo, somos miseráveis. Quando erramos, nos desculpamos mas voltamos a cometer exatamente o mesmo erro, somos miseráveis.

A miséria está por toda a parte, inclusive aqui em Seul. Mulheres provenientes de ricos países tem a chance de mostrar aos filhos que nasceram com uma colher prateada na boca que existe miséria pelo mundo e nem mesmo todas seguem esse caminho. Eu sei que tentar ser sempre feliz é nosso objetivo de vida e que não deveríamos nos envergonhar disso, mas talvez um puxão de volta para a realidade não vá nos ajudar a conquistar essa alegria?

A verdade é que essas expatriadas de elite, entre outras sub-sociedades, nem precisariam sair da capital sul-coreana para se darem conta da miséria, quando o nível de suicídio e de abandono de bebês é tão grande, apesar dessas práticas andarem lado a lado com prédios espelhados e chiques shopping centers!

Quando a alta sociedade estrangeira tem a possibilidade de assistir uma peça de teatro que retrata a miséria que mulheres coreanas passaram quando foram escravas sexuais dos japoneses durante a ocupação e até de soldados americanos durante a guerra das Coréias, diz que o assunto é pesado demais e que isso não significa diversão. Sim, um assunto desse não é diversão, mas toda vez que deparamos com uma velhinha a partir de 65 anos por aqui, talvez a tratemos de uma outra maneira, imaginando os terrores pelos quais ela já passou.

Olhando ainda um pouco mais além, muitos expatriados teriam como visitar países mais pobres, porém ainda com rico programa cultural como o Camboja, o Vietnã ou a Índia, mas dizem que preferem não introduzir o estado miserável das crianças nativas aos seus filhos. “– Eles não precisam ver uma menina de 11 anos se oferecendo sexualmente ao um senhor de 60 ou ter que dispensar um garoto mal-nutrido de uns 4 ou 5 anos por ele estar vendendo cartão-postal”. Talvez, mas vendo essa e outras misérias, esses filhos dourados entenderão o significado da palavra gratidão. Serão gratos por terem um teto, comida e uma família “normal” cuidando e protegendo-os e isso não será da boca para fora.

Refletindo sobre o assunto, passo até achar que nem sempre trata-se de fragilidade ou de frieza da sociedade em relação às misérias alheias, mas talvez isso seja simplesmente pura ignorância. Muita gente não entende que mesmo um par de Havaianas de segunda mão (ou pé) possa ser ainda utilizado por alguém que não tem nada. Nada mesmo.

O conceito de miséria deveria ser melhor elaborado, por mais que seja uma tarefa difícil já que seu significado abrange tanta coisa – ou quase nada ao mesmo tempo. Até Victor Hugo não foi tão feliz de chamar uma de suas obras mais consagradas de “Les Misérables”, porque apesar do povo da trama ser pobre de bens, não era pobre de intenções. A não ser que Hugo tenha chamado de miseráveis os malvados da estória, mostrando que a maior das misérias é a falta de .

Luciana B. Veit

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