Saindo de um restaurante chamado “Louco por Alho” (Mad for Garlic) aqui em Seul, fiquei orgulhosa de ver meu filho ter praticamente lambido o prato que comeu. Não que alho ou cebola sejam raros na minha casa, bem pelo contrário, mas nenhum filé de carne mal passado ou salada de espinafre que eu venha a preparar se comparam com a qualidade e quantidade de alho desse lugar.
– Coma bastante alho, meu filho, e ficará sempre saudável!
– Sim, saudável e sozinho…
– Por que isso?
– Porque quem é que agüenta ficar ao lado de gente que come tanto alho, hein mãe?
– Ora, é simples: é só encontrar uma pessoa que também coma alho.
A caminho do restaurante para o carro nossa orgia já começou a fazer efeito. Os primeiros arrotos “discretos” e fedorentos, mal hálito e o estômago irrequieto se aquecendo para dar suas piruetas, até horas mais tarde (e não somente no dia seguinte) o excesso ter saído por onde ele deveria.
Mas continuando a conversa com meu filho…
– Mas nem todo mundo gosta tanto de alho como a gente.
– É verdade, mas para que serve o diálogo? Hoje você ainda é pequeninho, mas imagina quando começar a namorar! Esses portais de namoro online terão certamente a pergunta: Gosta ou não gosta de alho?
Meu filho me olhou com uma cara nada convincente.
– Tá bom, tá bom. Quem sabe até não conhece a mocinha pessoalmente, à moda antiga sabe? É só levá-la para jantar no primeiro encontro para tirar essa questão a limpo, confirmar se ela é ou não é discípula! Sim, porque ninguém deveria se anular, pois a questão do alho é muito séria. Ela pode até destruir relacionamentos!
– Uh? Alho destruindo relacionamentos? Como assim?
– Pense comigo, meu anjo: o cheiro da pessoa é uma questão. Sim porque já foi provado cientificamente que na escolha do parceiro ou da parceira o fator mais importante é se aprovamos o cheiro dele ou dela, consciente ou inconscientemente. Então é claro que um comedor-de-alho não gostará de uma não-comedora-de alho e vice-versa. Mas se ainda insistirem na sorte, os problemas virão mais tarde.
– Ainda bem que você e o papai adoram alho…
– Ainda bem mesmo, porque senão com o passar dos anos não iríamos nos pegar pela história do tubo da pasta de dente no banheiro, mas sim pelo fato de eu ter comido fora ou até ter trazido para dentro de casa o bendito alho. Um sufoco, uma prisão! E como é que fica a liberdade de escolha?
– Não fica, mãe. Que inferno!
– Por isso te digo, meu filho, antes só com o alho, do que mal acompanhado sem ele.
Luciana B. Veit
PS: Feliz Chusok para os residentes na Coréia e para os coreanos fora dela!
Loucos por Alho –
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