Acho interessante observar o quanto nós não aprendemos do passado e o quanto uma obediência cega pode ser tão perigosa, apesar da nossa suposta independência como seres pensantes e da nossa suposta decência em termos de humanidade e civilidade.
Voltando a Segunda Guerra Mundial, ainda é difícil aceitarmos o fato que muitos alemães participaram de atrocidades porque estavam simplesmente recebendo ordens. Mas esse assunto não é tão simples assim de julgar.
Muitos de vocês provavelmente já ouviram falar do psicólogo Stanley Milgram, que há quase meio século liderou o Experimento do Choque Elétrico. Pois bem, esse experimento foi retomado há poucos meses e provou que muitos de nós ainda estaríamos em posição de cometer atos horrendos só pelo fato de estarmos seguindo ordens face à certas situações, incluindo circunstâncias bem banais. Nesse experimento, voluntários deveriam dar choques elétricos numa pessoa por eles desconhecida (ator). Os cientistas se surpreenderam ao constatar que apesar do ator estar fingido gritos de dor e agonia aos 150 volts, mais que 80% dos voluntários prosseguiram com o teste, que chegou a alcançar (falsos) 450 volts!
É claro que outros testes psicológicos foram e continuam sendo feitos para provar que na verdade nós não sabemos como nos comportaríamos diante a uma situação trágica ou surpreendente, no entanto isso não vem ao caso agora. Só gostaria de realçar o fato que poucos são aqueles que se conhecem à fundo, em termos de seguir ordens macabras ou de encarar e tomar posição num momento delicado e inesperado.
Já no Camboja, as desgraças e os assassinatos em massa cometidos por membros do Khmer Rouge nos anos 70 só estão começando a ser julgados hoje, quando um dos soldados afirmou recentemente de frente ao juíz que assassinou para não ser assassinado e que ele também era vítima do regime de Pol Pot, apesar de fazer parte do outro time.
Era matar ou morrer, regra de muita guerra da nossa sanguinária história.
Atualmente assassinatos não são os únicos crimes contra a humanidade ou armas de guerra, quando pensamos nos estupros de gangue e em massa de Darfur. De acordo com uma reportagem da rede de TV britânica BBC, soldados em anonimato relatam como são forçados pelos superiores a estuprarem crianças de 10 ou até de 9 anos de idade somente para botar terror nos vilarejos, forçando os residentes a fugirem com medo.
Como alguém é forçado a fazer uma barbaridade dessa?
Procurando ser cautelosa com minhas palavras, não acredito que ninguém que possua o mínimo de decência e de amor, senão respeito pelo ser-humano, inclusive por si mesmo, estaria em posição de arrancar os bicos dos peitos de mães para que elas não possam mais amamentar seus bebês, ou de penetrar uma criança que nem sabe o que sexo significa somente por somente estar seguindo ordens.
O livre-arbítrio continua sendo uma das nossas vantagens enquanto estivermos de passagem pela Terra.
Aqui tradições culturais não estão sendo discutidas, senão já teria mencionado a mutilação genital que garotas islâmicas principalmente do continente africano são obrigadas a encarar.
Não preciso dar exemplos macabros para demonstrar a falta de coragem de ser do contra. Basta olharmos para dentro das escolas, das universidades, dos escritórios e inclusive dentro das famílias e dos ciclos de amizades para constatarmos que a maioria prefere mesmo não se destacar, não ser notado e fazer aquilo que lhe é requisitado com a mais pura postura da obediência do “Jawohl” (pronúncia do Alemão: “iavool”), somente para não ter que arcar com conseqüências mais tarde.
Pois é, exatamente essa é a mentalidade dos covardes, que tentam fugir do fato que mais cedo ou mais tarde terão que arcar com as conseqüências (espirituais, físicas ou psicológicas), já que não existe ação sem reação.
Machucaremos sim pessoas no caminho do nosso posicionamento nada passivo, mas se essa for a garantia de que poderemos dormir com nossas consciências limpas, então que assim seja!
Luciana B. Veit
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