Ironia do destino ou não, somente agora que estou para partir de Moscou é que os nativos passaram a ser menos rabugentos.
Após dois anos e meio farta, e de uma forma até acostumada, com respostas mal-criadas e olhares congelados dos moscovitas, me surpreendo hoje quando alguém segura a porta para eu passar, amacia o tom da fala ou ainda quando os seguranças do prédio dizem “Bom Dia” ou “Boa Noite”. Até meu cachorro passou a ganhar biscoitos diariamente como uma forma indireta de afeição.
O que está acontecendo? É o sol do verão responsável pela mudança de comportamento? Ou os russos já se acostumaram em ter os “inimigos da Pátria” no seio de sua comunidade? Ou será ainda que por eu estar feliz da vida, praticamente de malas prontas para deixar este país, passei a desperceber os gestos grosseiros e a ignorar as palavras de teor racista dos russos para com os estrangeiros?
Ah! O que importa agora? Pode até ser que esteja sendo egoísta agora em não querer quebrar muito a cabeça com hipóteses absurdas, mas fato é que essas últimas semanas na capital russa tem sido um tanto agradáveis. Até me dei conta do quanto eu me modifiquei aqui: passei a sorrir menos, a fazer os outros me notarem para poder ser respeitada e obriguei meu lado mais sensível a se controlar, pelo menos em público. Se isso tudo é bom? De fato, em uma selva de pedra.
Dizem que crítica é o resultado da má-compreensão, mas o que fazer quando se é negada a chance de explorar?
De um jeito ou de outro, minha experiência em Moscou me fez evoluir e agora estou pronta para iniciar um novo capítulo em minha vida. Entre lágrimas, decepções, surpresas, alegrias e progresso pessoal, já estou com o pé na estrada querendo mais, muito mais.
Luciana B. Veit
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