Fim de Ano na Alemanha

Eibsee Eu sei. Já estamos em 2010, mas além de desejar a todos um grande início nesse novo ciclo, gostaria ainda de contar por cima como foi meu fim de ano na Alemanha – que não passei sozinha, claro.

Bom, mais uma vez de passagem por Stuttgart com a aura de Mercedes-Benz por detrás de cada sombra, deixamos o romântico e detalhado de Natal para trás com os termômetros marcando abaixo de zero, empacotados com jaquetas pesadas e coloridas e com nossas bocas e orelhas amortecidas pelo frio, com nossas bochechas e narizes rosados e com os dedos das mãos e dos pés gritando por água quente.

Mas mesmo com a nossa ausência, os tetos dos pequenos e apertados stands continuariam esbranquiçados pela neve – pelo menos até a véspera da véspera do Natal – quando por debaixo deles os bonecos de madeira permaneceriam em seus postos na esperança de ganharem um novo lar; quando seus salsichões, pratos de chucrute ou vinho quente viriam por goela abaixo dos famintos e sedentos clientes, e quando o perfume de canela no ar reinaria por excelência, sem contar a presença dos adolescentes nada miseráveis, que cantando e tocando musiquinhas natalinas ao ar livre, contribuíam de corpo e para um ambiente inesquecível, visando mais o engajamento social do que as moedinhas como aplauso.

A imagem do velho gordo, barbudo e de roupas vermelhas que carrega um saco pesado nas costas acaba virando coisa secundária na alma do Mercado de Natal – destacando o de Stuttgart, que já há alguns anos colocou o famoso de Nürnberg no bolso – porque ali o que conta não é uma imagem, mas sim a mistura de todos os ingredientes ao mesmo tempo, que vão de bolas de vidro à lebkuchen (biscoitos tradicionais que datam do século XIII que lembram os pães de gengibre, mas que são preparados com mel, canela e nozes), com Friedrich Schiller abençoando todos que se divertem aos pés de seu monumento na praça que leva seu nome.

Novamente com o pé na estrada chegamos na cidade de , nos Alpes Alemães, após aproximadamente quatro horas de , maravilhados com a vista que apesar de já termos visto com freqüência, nunca deixava de impressionar, fizesse sol, chuva, neve ou cara feia de nuvem pesada e escura.

Ski de lado, ignoramos as filas nos teleféricos e curtimos o que pudemos de cima das montanhas da cidade, o que nos fez lembrar que não somos nada se comparados à força da natureza. Mas uma vez lá em baixo, observamos os de passagem e os chiques moradores da região com seus casacos de pele, jóias e cachorros bem cuidados à tira-colo. Igrejinhas com cúpulas de cebola, casas com tradicionais e antigos frescos bavários muitas vezes até tridimensionais, restaurantes aconchegantes com música ao vivo e a dança da calça de couro (Schuhplattler), e claro as canecas gigantes de cerveja realçavam a nossa estada (mesmo para aqueles, que como eu, tem certa dificuldade para apreciar a bebida).

Mas para que se dar ao luxo de visitar uma região montanhosa no inverno europeu se a pessoa não tem disposição alguma seja para esquiar ou pelo menos para escorregar de trenó nas pistas tão convidativas? Por mais que alguém não seja tão esportivo assim, tudo é esquecido no ar puro da montanha. Ali subir e descer a montanha vira brincadeira de criança.

Falando em criança, quem é que não fica de queixo caído de frente a um dos lados mais bonitos do mundo, que se situa aos pés da montanha mais alta da Alemanha – o Zugspitze – e que com suas sete ilhas e diversas prainhas a praticamente mil metros de altitude, recheado de águas puras, esverdeadas e geladas com uma profundidade máxima de 35 metros e visão subaquática de 10 metros encanta qualquer mortal?

Pois é! O lago Eibsee, que fica a somente 13 quilômetros da maior cidade alpina do país, é tão lindo que ficar somente parado observando-o não é suficiente. No as pessoas andam de barco, de pedalinho e nadam nas águas cristalinas – sem dizer que até bebem direto da fonte. Já pescar no Eibsee só pode quem possui uma licença especial para tal.

Por isso, com o lago parcialmente congelado, resolvemos andar em volta dele, explorando-o assim ao máximo. Sabíamos que a giro duraria por volta de duas horas e mesmo cientes que o sol se põe bem mais cedo no inverno, ignoramos os sinais e os olhares surpresos daqueles que passavam pela gente, acabando de fazer o tour.

Estressados em filmar, bater fotos, andar e suspirar de contemplação quase ao mesmo tempo, seguimos a trilha à beira do lago automaticamente. O ar frio rosava nossas bochechas e narizes, mas como estávamos bem agasalhados e sempre em movimento, nem mesmo sentimos nossas extremidades gelarem.

Com o céu escurecendo vagarosamente, começamos a bater menos fotos e a andar um pouco mais rápido, porque mesmo que a trilha fosse óbvia, nosso plano não era de sermos os únicos no escuro, porque o único prédio do lago inteiro era o hotel de mesmo nome.

A cada dez minutos nossos sentimentos mudavam: de fascinação pela estranheza em si do lago vazio, frio e iluminado unicamente pela lua cheia (sorte nossa!), a um medo inexplicável. Medo de gente louca escondida por detrás de alguma árvore. Medo de fantasma. Medo da escuridão. Medo de avalanche. Medo de sentir medo. Medo de não podermos escutar à fundo todos os ruídos ao nosso redor porque nosso coração palpitava alto demais e nossos próprios passos abafavam qualquer outra coisa que deveríamos ou não estar ouvindo. Só que medo de animal selvagem, principalmente de urso, não precisávamos ter, já que naquele instante imaginávamos que não existiam mais nenhum deles por ali.

Acontece que quando estava um poucos metros na frente do meu marido e filhinho, gelei em uma das curvas do lago quando avistei um animal marrom e grande, que curvado saia dos meio dos pinheiros em direção à trilha principal. Parei automaticamente e me voltei para minha família, avisando para que ficassem quietos sem mover um músculo sequer. No passado já havia encontrado um touro solto aos pés da montanha Jenner, na região bavária de Berchtesgarden, que levemente me tocou com seu chifre avisando que deveria sair de lá. Por isso dessa vez não tive dúvidas quanto ao que acabara de avistar. É claro que ninguém conta com uma situação dessa, mas quando ela se desenrola, o que fazer?

Primeiramente meu marido não acreditou e até riu, mas quando sentiu minha seriedade, aconselhou que voltássemos vagarosamente. Acontece que voltar agora não seria nada ideal, porque já havíamos percorrido mais do que a metade do trajeto, mas fazer o que? Enfrentar um urso solto na escuridão da beira do Eibsee? Nein, vielen Dank! Nesse instante que pareceu ser eterno, olhei em volta à procura de um esconderijo caso necessário, e temi principalmente pelo meu filho. No entanto, antes que pudéssemos chegar à conclusão ideal, relaxei ao ver a feição risonha do meu marido, que olhando em direção do suposto urso, se deu conta de que se tratava de um grande, ou melhor, de um enorme cachorro solto, com seus donos a somente alguns passos atrás dele.

- Grüß Gott – salutaram os donos do animal quando passaram por nós em passo de jogging e isso simplesmente nos fez rir, de alívio.

Me dei conta que a inconsistência da minha mente naquele instante que oscilava entre felicidade por estar me sentindo privilegiada, ao medo de estar sozinha com minha família de noite no meio da amedrontadora natureza pudesse ter plantado uma visão irreal na minha mente, dessas imagens que os beduínos tem de um oásis no deserto.

Fato é, que apesar dessa ter sido uma experiência inesquecível (se tratando de gente da cidade, como nós somos), ficamos mais do que aliviados de podermos voltar para nosso hotel, entrar na ducha quentinha e saborear um jantar divino à base de um ótimo vinho (e suco de maçã para o pequeno grande), e um buffet mais do que rico com as especialidades da cozinha local. Nossa cama fofinha nunca nos acolheu tão bem.

No dia seguinte, rimos da situação da noite anterior e resolvemos perguntar ao senhor se ele conhecia alguma história de ursos selvagens na região do Zugspitze. Para a nossa surpresa e choque, lemos em diversos artigos locais que até 2006 não se via um urso por ali há mais ou menos 150 anos, mas que há três anos, um urso (dos trinta que ainda habitavam a região alpina do Tirol) havia prestado uma visita aos arredores de Garmisch-Partenkirchen, e que inclusive havia sido avistado no próprio Eibsee à noite. Ele chegou a matar ovelhas, galinhas e inclusive a atravessar a rua principal do vilarejo de Grainau, o mais próximo do lago.

Nosso riso sumiu do rosto e seguimos viagem. Num dos campos de concentração do Terceiro Reich em Dachau, próximo a Munique, introduzimos os tristes fatos por debaixo da lupa ao nosso filho e deixamos o local nos sentindo pesados.

Já os fogos de artifício da virada do ano do alto do vale da capital da Suábia nos trouxe de volta a excitação e a gratidão por estarmos vivos e praticamente já de mala feita para em poucos dias retomarmos nossa rotina no coração da Ásia, já de olho na próxima viagem.

Luciana B. Veit

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