Férias no Sudeste Asiático. Oba!

Malaysia, Tioman As começam bem antes delas começarem literalmente, pelo menos na cabeça.

Para aqueles que detestam grupos e fazem parte da turma dos viajantes independentes, mochileiros ou “resort-eiros”, o barato já começa na escolha do destino e falando do então, oba!

São muitas e muitas horas na internet em fóruns e fotos de quem já foi, dicas preciosas ou descartáveis, comparação de preços de hotéis e esquemas de transporte.

Depois é a hora do guia, não aquele que fala tanto até a boca secar (muitas vezes até sem noção alguma, como é a maioria dos casos no Egito), mas o bom e velho livrinho. É claro que muita informação prática estará desatualizada por conta da velocidade dos updates na internet, mas no que diz respeito a história, o povo, a cozinha, os costumes e até um pouco da língua local, o guia impresso não deixa de ser algo essencial. Eu por exemplo gosto de estudá-los bem antes de viajar, porque chegando no destino já estarei um pouco preparada para lidar com as esperadas surpresas que vem com as experiências, deixando ainda muito espaço para descobertas.

Nas férias da Páscoa decidimos voltar para Singapura e de lá visitar alguma ilha na região. Escolhemos Palau Tioman. Famosa por ter sido a locação do musical Bali Hai, Tioman fica a 40 quilômetros da costa da Malásia é uma das ilhas mais virgens e bonitas do mundo, que vai muito além da areia branca (dourada ali) e mar cristalino nos seus 20 quilômetros de norte a sul. Fora os córregos de água fria e limpa que vem da montanha e termina nas águas mornas do mar, Tioman oferece quedas d’água, macacos atrevidos e lagartos de até 2 metros de cumprimento andando soltos para todos verem, 25 espécies de serpentes venenosas, vegetação rica e variada e uma barreira de corais para deixar qualquer um babando. Sem contar que lá só existe um único resort (já que os outros pequenos hotéis não passam de pousadas), uma única rua pavimentada e um gracioso mini aeroporto.

De Singapura resolvemos pegar um ônibus que nos levaria até Mersing, de onde o barco partiria. Olhando no mapa do guia tudo parecida estar logo ali na esquina, por isso não esquentei, mas a confusão já começou para comprar os bilhetes, o que não poderia ser feito online. Em Singapura existe diversas rodoviárias e elas se dividem de acordo para onde o ônibus partirá. Fácil? Pesadelo. Descemos em quatro locais diferentes e somente o quinto e último estaria correto.

No dia e hora marcados estávamos na parada certa. O público era mais colorido do que havia esperado por conta da metade dos passageiros serem estrangeiros. Já os assentos de veludo vermelhos fediam muito menos do que na minha fértil imaginação, com exceção dos rastros de cabeças oleosas nas janelas que eram mais do que reais.

Na fronteira com a Malásia, passado o Estreito de Johor mais ou menos 40 minutos do centro da cidade-estado, tivemos que descer do ônibus duas vezes para o controle de passaportes carregando as malas grandes, pesadas, duras e coloridas debaixo do braço. Um sufoco para quem está acostumada a check-in de linhas aéreas. Sem contar que em Johor Bahru fomos obrigados a trocar de ônibus – coisa que não estava programado e que só viemos a descobrir quando o motorista nos viu acomodados e disse: – E então, vão pegar o próximo ônibus ou fazer turismo por aqui, em J.B.?

A viagem até Mersing que deveria durar três horas no máximo durou mais do que quatro horas (sem banheiro), mas pelo menos parecia que chegaríamos a tempo de pegar a balsa às 13.30 hrs que nos levaria ao nosso destino paradisíaco. Acontece que em Mersing existia dois jetties – coisa que saberíamos bem, mas bem mais tarde. O barco das 13.30 hrs foi cancelado do jetty de onde estávamos e o próximo só sairia às 15.00 hrs. Nem achamos tão ruim assim, porque tínhamos a chance de almoçar e ver a cidadezinha – muito sem graça, aqui entre nós. Paramos num local simpático, uma cabana de madeira que oferecia lanches simples e internet de graça, algo de chamava a atenção de e de mochileiros estrangeiros, desses na faixa dos 20 anos com rastafári no cabelo, laptop à mão e pele de couro, típico de quem já está há algum tempo na estrada.

Depois do almoço nos colocamos de prontidão para a balsa e na mesma comportada posição ficamos até finalmente a chamada para o embarque, o que se deu com uma hora e meia de atraso. Enfim na ferry de alta velocidade abafadíssima – também sem banheiro – procuramos forçar nossas mentes a curtir o momento e lembrar que o que valia era a jornada e não necessariamente o destino.

Finalmente chegamos em Tekek duas horas mais tarde. Por se tratar de um resort mais refinado, o público do Berjaya Resort mudou: de bag-packers a famílias com crianças e grandes malas como as nossas (nada do que se envergonhar ali), nos sentimos logo em casa. Só achamos uma pena termos perdido o dia todo, quando podíamos ter pego o vôo de meia hora que Berjaya Air oferece. Apesar da experiência, resolvemos voar para Singapura de volta, coisa que gente com criança pequena faz… Está certo que há alguns anos quando meu filho tinha 2 anos de idade fizemos uma viagem de Moscou a Bali com cinco trechos no caminho via Alemanha, Áustria, Tailândia e Brunei, o que mostra que ele não é tão frágil assim.

Mas enfim, a ilha! Ah Tioman! Voando baixo os morcegos no cair da noite nos deram as boas vindas enquanto os macacos jogavam frutos das árvores quase sobre nossas cabeças, também como saudação. Só bastava olhar para o céu estrelado e cheirar o ar para saber que estávamos mesmo num paraíso tropical – e não me venham falar que ar não tem cheiro. Tem sim: a brisa traz as notas misturadas da mata, da areia, do mar, do cloro da piscina. Sem esquecer que me encontrava em um resort, não tive como deixar de sentir o cheiro dos corpos brilhantes de creme solar ou pós-sol, de repelente, de comida do restaurante que acabava de abrir para o jantar, dos cabelos úmidos lavados por shampoo e da roupa de praia pendurada nos balcões para secarem ao ar livre ao invés do varalzinho do banheiro. Agora qual é o melhor cheiro de todos? De férias no geral, claro!

Em um cantinho desses, não necessariamente a Ásia mas sim em um resort qualquer, é fácil taxar as pessoas: existem os branquelos que acabaram de colocar as malas no quarto, os super queimados que chegaram no dia anterior e exageraram debaixo do sol, os morenos que já estão de saída e os pele-de-couro que não são vistos num resort desse, com exceção dos nativos obviamente. Mas o que todos são é mortos de fome. Viajantes com pinta de magnatas caem em cima do buffet do café e do jantar como não houvesse um amanhã, mas é claro que isso não se dá só na Malásia. Mas não me entendam mal: comer muito e com prazer e calma é uma coisa, mas comer desesperadamente rápido é feio.

Uma atitude parecida se dá logo cedo com a demarcação de lugar. Não! Não estou falando de briga territorial de animal selvagem, mas de uma prática bastante exercitada pela macacada tipo eu e você. Existe gente que acorda às 5 horas da manhã para bloquear com a toalha (do dia anterior) o lugar que deseja se apossar. Coisa de resort que não oferece conforto suficiente? Não necessariamente. Coisa de gentinha? Não, mas infelizmente coisa normal de turista por mais que tentamos fingir não ser verdade, já que não é todo mundo que pode bancar um bangalô sobre o mar como é normal nas Ilhas Maldivas ou em Bora-Bora.

Mas voltando aos protótipos, tem aqueles que não saem da água, aqueles que não saem da areia, uns que ignoram completamente os familiares com livros ou revistas, ou aqueles chatos que só querem ficar fazendo jogos sociais o tempo-todo. Fazer castelo de areia já não é mais tão hip como na minha infância e no joguinho de “me mostra o que você paga que eu te digo quem e quão rico você é”, os passeios extras deixam de ser simplesmente uma diversão entre os hóspedes, principalmente aqueles que adoram fazer novas amizades. Mas nem tudo é novidade porque os chorões emotivos do pôr-do-sol armados com suas máquinas fotográficas sempre existirão.

O dia do check-out é o mais melodramático. Quando falei sobre os mortos de fome do buffet do restaurante, esqueci o quão muito mais desesperada eu sou sabendo que os minutos para a próxima estação estão batendo, mesmo se tratando de Singapura que depois de Sydney é a minha cidade preferida. Nado e curto a praia até o último minuto e sofro em ter que dizer adeus. Imagino se voltarei ali um dia e me despeço de verdade, agradecendo os espíritos locais pela hospitalidade. Olho em minha volta, pago a conta e procuro dizer a mim mesma: é preciso dizer adeus para poder dizer oi de novo – nas próximas férias, num outro destino.

Quarto barato ou quarto caro. Vista para o jardim ou vista para o mar. Ônibus, trem, avião ou carro. O que vale é poder viajar e falando do sudeste asiático então, topo tudo, ou quase tudo, inclusive fazer snorkel em águas profundas durante a menstruação. Os tubarões não se importaram, pelo menos comigo não… Ih! Falei demais?

Luciana B. Veit


 

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2 Comentários

  1. rubens facundo
    Publicado abril 11, 2010 em 11:39 AM | Permalink

    Puxa!
    Adorei esse post, Luciana! Até porque tenho a maior curiosidade por conhecer a Ásia em férias.
    Além do mais suas considerações sobre os turistas, em geral são muito divertidas.
    Vou ficar aguardando novas matérias sobre lugares exóticos da Ásia.
    Parabéns!

  2. Carmen
    Publicado abril 19, 2010 em 10:22 AM | Permalink

    Gosto muito de ler suas cronicas, vc tem uma maneira muito especial de relatar fatos e descrever situações.
    De certa forma “viajo” junto. Parabens pela dedicação.

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