A Promessa da Felicidade

Felicidade, Girassol AmareloSemana passada visitei uma exposição de Renoir aqui em Seul intitulada de “A Promessa da Felicidade”. Por mais que Renoir seja hoje conhecido como o pintor que jamais retratou sobre tragédias, achei esse tema generalizado demais.

Generalizado e exagerado porque falar sobre as causas da felicidade são sempre muito pessoais. Tenhamos uma festa como exemplo – festas que Renoir tanto gostava de pintar. Para muitos esse é um motivo de alegria, onde eles comem, bebem, paqueram, conhecem gente nova e jogam conversa fora. Já para outros uma festa pode ser sinônimo de um ambiente fútil, recheado de pessoas superficiais querendo se mostrar, onde os menos festeiros são praticamente obrigados a acharem graça em tudo e a falarem com indivíduos que não engolem em nome da “normalidade civil”. Alguns ainda sofrem com crises de ciúmes, de deslocação e até de timidez crônica, quando simplesmente dançar na pista torna-se a tarefa mais impossível do mundo.

É claro que muito podemos discutir sobre o que causa a felicidade, mas o que concordamos é que não existe ninguém o tempo todo.

Um crítico de arte local levantou a questão se Renoir era rico, pelo fato de só querer mostrar o lado bonito da . Mas ele logo se descreditou, dizendo que Renoir, como tantos outros colegas impressionistas da época, passava por tamanhas dificuldades financeiras que às vezes nem dinheiro para tintas sobrava.

Pergunto-me, no papel de leiga nesse campo de telas, tintas e pincéis: Será que Renoir através de suas pinturas expressava uma vontade muito íntima e até desesperadora de participar dessas festas, ou do deleite das serenas manhãs no campo observando os efeitos do sol na pele? Ou será que essas telas tratavam-se apenas de meras memórias de tempos mais fartos?

Se não sei as respostas para as perguntas acima, pelo menos de uma coisa eu sei: Por mais que certos trabalhos tenham sido encomendados, nenhum seja ele pintor, escritor, ator ou cantor consegue ser 100% impessoal. Tudo o que ele vier fazer na vida terá uma relação com a sua própria história, direta ou indiretamente, no qual ele fala em terceira pessoa sobre algo que aconteceu consigo mesmo ou viu acontecer com outros. O raramente cria algo completamente novo: ele transforma aquilo que já existe em algo inesperado.

Sendo assim, o que é que se passava na cabeça de Renoir? Sua arte proporcionava-o com satisfação ou com o sentimento que tudo o que fazia não era o suficiente, visto que pintou mais de 5 mil quadros à óleo? Será que após sua longa vida ele morreu feliz?

Engraçado que hoje existem culturas e religiões que culpam os felizardos, achando que somente através do sofrimento é possível crescer. Quer dizer então que toda vez que lagartear numa praia paradisíaca nas férias, degustar um prato refinado e dar graças pela saúde do meu filho deverei me sentir mal e culpada pelas outras pessoas que não podem desfrutar das mesmas alegrias que eu?

Ser feliz é motivo de orgulho e de festa e não de vergonha: – “Ai sabe como é, minha vida não é tão maravilhosa assim…” – diz o fulano com medo de atrair maus fluídos, inveja ou ainda pedidos de empréstimo.

Vejam a minha situação: deveria me sentir mal por ter sido rejeitada por uma meia-dúzia de editoras renomadas ou deveria me sentir no topo por ter virado o jogo, publicando meus livros independentemente? Deveria sentir medo do próximo país onde irei habitar ou excitação do novo? Deveria chorar de saudades pelas pessoas do meu coração que deixei na terra mãe ou me alegrar pelo próximo encontro? E enfim, deveria eu me segurar nas feridas abertas ou ignorar as cicatrizes?

Quem define o caminho da felicidade não somos nós mesmos? Por isso a felicidade imaginária também conta já que aquela fantasia sexual, aquele amor platônico e aquele sonho tão real também são momentos de qualidade na vida.

Quem sabe não era isso que Renoir estava tentando nos mostrar? Ou talvez até algo completamente diferente, já que a felicidade vem em tantas formas e cores…

Luciana B. Veit

A Promessa da Felicidade –
Se você gostou desta crônica, por favor considere compartilhá-la!


 

No related Chronicles.


Tags: , , , ,
Este post foi publicado emCrônicas 2009 e tags , , , , . Bookmark o permalink. Comentar ou deixar um trackback:Trackback URL.

Comentar

Seu email nunca será publicado ou distribuído. Campos obrigatórios estão marcados com *

*
*

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Notify me of followup comments via e-mail. You can also subscribe without commenting.

  • Língua

  • Categorias

  • Arquivos