Visitando o DMZ semana passada, que é a zona desmilitarizada de aproximadamente 2 quilômetros entre a Coréia do Sul e a Coréia do Norte controlada pelas Nações Unidas, percebi que a dor mais obvia ali não é a vontade de reunificação – tomando a Alemanha como exemplo – mas sim a da separação das famílias.
Todos os anos durante o feriado mais comemorado da Coréia, o Chusok, centenas de sul-coreanos se juntam na Ponte da Liberdade no DMZ para chorarem por seus parentes que certamente não compartilham suas mesmas altas expectativas de vida.
Uma vez no seio da sociedade hierárquica da Coréia do Sul, não é difícil compreender por que seus cidadãos não desejam a reunificação, e o motivo é financeiro. Apesar dos coreanos serem seres ultra-sociais, onde a importância de ter e mostrar a família é tão valiosa como comer o santo kimchi de cada dia, a verdade é que a pressão do (mal)bendito status profissional e social acaba colocando na prática a família em terceiro ou em quarto plano.
Por isso achei cômico sentir na pele o que é estar no DMZ, porque por mais que os sul-coreanos chorem por suas famílias que estão do outro lado da fronteira, não dão tanto valor emocional aos membros que vivem debaixo do mesmo teto.
Há quem diga que não tem como combinar trabalho e família de uma maneira justa, porque alguém vai sair perdendo. Meu comentário a respeito é que a única pessoa que sairá perdendo será aquela que se encontrar em tal encruzilhada. O fato do homem ou mulher de negócios chegar em casa às 09.30 da noite somente para dar boa noite para suas crianças não seria nada trágico, se as poucas palavras trocadas fossem as palavras corretas, palavras de amor e de afeição, e não somente de cobranças e de regras.
O mais engraçado é que as famílias sul-coreanas não levam à mal o fato de ter uma família ausente, no que diz respeito a atenção sentimental, porque mais importante de tudo é o degrau da pirâmide onde se encontram. Então por que tanto drama com os parentes da Coréia do Norte? Se as fronteiras fossem finalmente abertas, haveria um dia ou dois, no máximo uma semana de festas, mas daí eles cairiam no esquecimento de novo por conta das pressões do trabalho.
O que eu quero dizer com isso, é que outras sociedades já estão acostumadas com esse ritmo de escravidão moderna, mas pelo menos não dizem por aí que colocam a família acima de tudo porque não é bem assim.
Mesmo aqueles que estão bem longe das Coréias: quantas famílias vivem juntas debaixo do mesmo teto, mas completamente separadas de alvos e visões em comum, como estranhos no ninho? Quantas pessoas preferem participar de um jantar de negócios sem grande importância para comerem “frio” filé mignon, ao invés de dividirem um simples, mas “quente” arroz com ovo no seio da família?
Às vezes me pergunto: qual é o significado de família? Aquele que se encontra no buraco acha que a família toda deve cair com ele: certo ou errado? Aquele que para poder oferecer mais para seus entes queridos em termos financeiros, ignora os gritos mudos por atenção e calor vindo deles: certo ou errado? Ou aquele que faz questão de se tornar quem ele é em toda a sua complexidade, para vivenciar suas escolhas ao máximo, mas ao mesmo tempo sendo obrigado a ser cruel face os outros membros da família, podendo ser esposa, marido, filhos, mãe, pai ou irmãos: certo ou errado?
Temos que viver para os outros, ou para nós mesmos? Dar e não vender amor em toda a sua abundância comprometeria os planos futuros? Querer ter uma família somente para se sentir confortado em momentos difíceis não é um ato egoísta em si?
Ao meu ver, certo é aquilo que faz uma pessoa dormir bem à noite, sem problemas de consciência. Mas errado é fingir ser alguém bem diferente do seu interior, falar com a língua, e não com o coração, mesmo se este for congelado.
Luciana B. Veit
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Tags: Coréia do Norte, Coréia do Sul, DMZ, família, liberdade, sociedade
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