Expatriado Mirim

Anjo- ? É triste que algumas crianças já nasçam com tal destino – comentou a educadora da escolinha do meu filho, aqui em Moscou.

Fiquei perplexa. De qual triste destino ela estava se referindo? Não sendo a única “cigana” do meu círculo de conhecidos, ouvir da boca de um ou de outro que estavam com as malas prontas para partir para o desconhecido, nunca tive a impressão que viver assim fosse algo negativo, até ouvir o comentário da educadora. Será que ela achou a virada da no meu filho triste por ele ter que deixar a ? Mal ela sabe o quanto estamos ansiosos para a tão esperada mudança. Mas então me lembrei que os russos, por serem exageradamente patriotas, consideram deixar o seu berço glorioso a maior das tragédias.

De qualquer forma, essa questão encheu minha cabeça e resolvi anotar os prós e os contras da vida de expatriado, pelo ponto de vista de uma criança.

Para as crianças que nasceram no mesmo país que os pais e só vieram a se expatriar mais tarde, o fator raízes não é tão problemático. Mas as crianças do mundo, que é o caso do meu filho, tendem a ter dificuldades de compreender e de sentir genuinamente o que é pertencer a algum lugar, nem que seja de coração.

As crianças expatriadas de sangue tendem a ser mais inseguras e até superficiais no que diz respeito a amizades. Entendem rapidamente que nessa que vai-e-vem, as amizades só são boas enquanto durarem.

Algumas passam a carregar secretamente no peito uma grande tristeza, por conta das freqüentes rupturas de amizades e rotina, e também por causa da ausência de outros familiares. Outras poucas se sentem perdidas com a realidade.

No entanto, os benefícios de se levar uma vida nômade são maiores que as desvantagens.

Crianças expatriadas dominam várias línguas estrangeiras e aprendem naturalmente que nenhuma é melhor ou pior que uma outra, mas sim diferente, o que leva ao sentimento de e tolerância universal.

Suas habilidades inter-culturais são vastas e curiosidade é a palavra-chave do seu dia-a-dia. Muito cedo as crianças do mundo aprendem a conhecer e a apreciar a cozinha de cada país e a respeitar os costumes que não são os seus.

Flexibilidade e claridade de idéias fazem parte da rotina e do jeito de ser, o que viabiliza a adaptação ligeira em um local novo.

A visão do mundo na cabeça de um expatriado mirim é uma só, apesar das diferenças de credo e estilos de vida. Essa visão tri-dimensional do mundo providencia um grande potencial para papéis de liderança no futuro.

Ainda sobre profissão, crianças expatriadas tendem no futuro a escolher um campo que tenha relação com viagens, ou ainda com alguma conexão internacional.

Os laços da direta são extremamente fortes, devido a ausência dos avós, tios, primos e amigos de longa data. É com os pais e irmãos que os mirins dividem todas as novas experiências, sem serem mal-compreendidos.

Geografia e história não são mencionadas teoricamente só nas salas de aula, mas se tornam vivas toda vez que as crianças colocam os pés fora de .

Os pequenos viajantes não têm medo do desconhecido, mas se sentem atraídos por ele.

Além disso, as crianças de sangue cigano são visivelmente mais maduras em comparação com as outras que nascem e crescem no mesmo país. Elas lidam com viagens internacionais e diferentes moedas brincando, e mantêm o mapa do mundo na palma das mãos.

Como tudo na vida, vida de expatriado mirim apresenta lados positivos e negativos, mas cabe aos pais apresentarem o lado florido da vida cigana.

Enfim, é como o ditado alemão diz: “O lar é onde o coração se encontra.”

Luciana B. Veit

 

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