– “Hoje todo mundo escreve e ninguém lê” – disse uma porta-voz de uma grande editora norte-americana, fazendo com que essa situação faça os profissionais da área a repensarem sua maneira de ser e agir dentro do mercado editorial e acima de tudo, fora dele.
É claro porém que essa porta-voz exagerou um pouquinho. Sim porque por mais que as vendas de livros e jornais impressos tenha caído consideravelmente nos últimos anos, não significa que o povo ficou mais ignorante – nem mesmo por conta do Twitter.
O que acontece é que muita gente se sente incomodada pelo fato de digamos, “qualquer um” poder atualmente se expressar por meio de recheados web sites pessoais, blogs ou até cartas do leitor (inteligentíssimas às vezes, diga-se de passagem).
Até muito pouco tempo atrás publicar um texto, uma reportagem, uma crônica, um livro era um privilégio dos jornalistas, filósofos e doutores de universidades. Hoje aqueles que não fazem tal coisas é porque não querem e não porque não podem. Acredito até que a honrada profissão de jornalista esteja em perigo em termos de acordos salariais, porque se um artigo é bom vindo ele de um leigo ou não, o editor-chefe de um jornal ou de uma revista pode sim se interessar pelo conteúdo e até dar uma polida para soar um pouco mais impessoal, coisas que somente jornalistas conseguem – escrever sem emoção.
Mesmo a discriminação para contra os escritores independentes abaixou, coisa que custei a acreditar. Lembro-me que quando criança passeava na Avenida Paulista em São Paulo e deparava-me com poetas carregando seus livros auto-editados e publicados com dezenas de cópias debaixo do braço na esperança de vender um exemplar. Eu pensava: Coitadinho. Hoje isso quase não existe mais; já não é mais “vergonhoso” ser um escritor independente. É claro que qualquer escritor amador ou profissional sonha com o sucesso internacional, com a venda dos direitos para Hollywood ou até com o Prêmio Nobel da Literatura, mas esses sonhos mesmo que (ainda) não realizados não impedem ninguém de escrever.
Os que são do contra, dizem que tem muito lixo literário por aí. Isso até pode ser, mas é claro que em primeiro lugar deve-se levar em conta os aspectos que fazem dessas obras um lixo. Seria uma linguagem simples e não elitizada? Seriam assuntos pornográficos e de baixo nível? Seriam auto-biografias de pessoas que ninguém conhece e se importa?
Então se esses são os critérios, por que Paulo Coelho é um dos escritores que mais vende no mundo, apesar de sua linguagem simplória? Por que uma ex-garota de programa fez tanto sucesso (mesmo que passageiro) com suas narrações explícitas de baixo nível? E por que ninguém se interessou pela auto-biografia de Vera Fischer, uma das atrizes mais famosas do Brasil?
Atualmente todo mundo que lê sabe que um livro, desses que são vendidos em livrarias, não é feito sozinho. O escritor só escreve. Seu trabalho termina ali. Depois existe um time de profissionais que apagam e corrigem os errinhos que até eles mesmos estão sujeitos a cometer, de outros que discutem e escolhem o tamanho e estilo da letra e da capa a serem impressos e por fim ainda existe um outro time que se dedica ao marketing e distribuição do “produto” finalizado.
Esse processo todo não é ruim, bem pelo contrário. Mas por ser tão elaborado passa a ser caro. Assim os editores são obrigados a repensarem os títulos que irão publicar não necessariamente por conta da qualidade e estilo daquilo que acabaram de ler, mas tendo na maioria das vezes o lucro em vista. Alguém aqui vai discutir a qualidade e o nível dos escritos de Nilo Peçanha ou de Camões? Mas será que eles venderiam tanto hoje se não fossemos obrigados pelas escolas e universidades a lê-los? Uma linguagem antiga e difícil leva ao desinteresse, por mais que as tramas sejam quase sempre espetaculares.
Tanto no passado quando hoje são unicamente os leitores os responsáveis pelo sucesso de uma obra. Se aprovada, a palavra corre solta e esse tipo de marketing não custa nada. É por esse e outros motivos que está ficando mais fácil para os que gostam de escrever de abrangerem seus espaços. Ferramentas espiãs de “search engines” apresentam com claridade o fluxo de leitores no blog ou no web site X ou Y, o que permite ao escritor se dar conta dos textos ou páginas mais ou menos populares por exemplo, e quem sabe até se aprimorar mais.
Sem dizer que o leitor do século XXI não quer mais se deixar ditar. Ele já não é mais imaturo como uma criancinha que a mãe escolhe o que ela irá vestir. O leitor de hoje escolhe ele mesmo o que lhe agrada, com a tendência de ignorar qual firma está por detrás desse ou daquele texto.
Certamente a internet nos proporciona tamanha variedade literária que às vezes nem sabemos por onde começar, nem mesmo o que procurar, mas quando encontramos aquela obra, aquele texto, aquela palavra que há tanto tempo estávamos procurando, não existe ninguém que nos fará mudar de opinião.
Então por que reprimir aqueles que trocam o psicanalista por uma boa redação? Ou marginalizar aquele que já não se sente tão sozinho tendo com quem dividir seus pensamentos através de seus escritos? Escrever é uma arte, mas também é uma forma de meditação, uma espécie de viagem para fora e para dentro de si.
Se todo mundo resolveu escrever, é bom assim. É muito bom. Seja lá qual for o assunto que tem ocupado os pensamentos, é sempre melhor colocá-lo para fora, lembrando que nem todos sabem fazer isso com a fala. E esse direito é nosso!
Luciana B. Veit
Escrever – Todo mundo escrevendo…
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