Há anos o governo sul-coreano e principalmente as vítimas vem esperando pelo oficial pedido de desculpas dos japoneses, que durante a ocupação na península, obrigaram mulheres a se prostituírem. As tal chamadas “mulheres de conforto” dispõe hoje não só da pena daqueles que escutam suas histórias, mas do dinheiro que elas recebem dos jornalistas, de instituições de caridade e do governo local. Elas até terão um museu em breve, totalmente dedicado à elas.
Observando o “sucesso” de suas colegas – escravas sexuais em época de guerras e ocupação estrangeira – outras vítimas sexuais resolveram tentar suas sortes; a diferença é que os vilões são os próprios sul-coreanos, de acordo com os testemunhos. Durante a guerra das Coréias no início dos anos 50 e também logo após o tratado de cessar-fogo de 1953, soldados americanos tomaram conta de vários bairros em volta de suas bases. Como qualquer ser-humano, eles procuravam por lazer nas horas-vagas, mas em tempos miseráveis não lhe cabiam tantas opções além de sexo e bebidas.
Com o país quebrado financeiramente muitos coreanos sofreram e a ameaça da situação piorar, caso os americanos resolvessem deixar a Coréia do Sul, era iminente. Os coreanos tinham que convencer Richard Nixon em 1969 a não diminuir o números de tropas aqui estacionadas. Eles achavam que se oferecessem algo para que as vidas dos soldados não fossem tão miseráveis, como mulheres com a garantia de serem limpas de doenças sexualmente transmissíveis, muitos não se importariam de ficar mais tempo. Foi aí que o governo sul-coreano (tolerando a prostituição) se envolveu mais à fundo no tópico, pagando a prostitutas aulas de Inglês e etiqueta e também bancando tratamentos médicos, já que o interesse que essas mulheres ganhassem em dólares americanos era nacional.
Os anos se passaram e as prostitutas coreanas para os soldados americanos foram envelhecendo e caindo na desgraça total, já que elas não seriam integradas na sociedade com o passado que tinham. Hoje muitas delas em torno dos seus 60, 70 e até 80 anos de idade relatam sob anonimato quantas vezes não tiveram que dar os filhos mestiços para adoção no exterior por não terem como sustentá-los. Elas se vêem como vítimas e afirmam que o governo sul-coreano é hipócrita ao exigir um pedido de desculpas dos japoneses quando fizeram a mesma coisa com suas compatriotas.
O governo hoje afirma que essas ex-prostitutas que serviam os americanos não podem ser comparadas com as “mulheres de conforto” dos japoneses, porque essas não tiveram nenhuma opção. Já as ex-prostitutas em miséria jamais foram forçadas a tal destino e escolheram livremente a vender seus corpos. Enquanto outras coreanas passavam fome exatamente como as ex-prostitutas, faziam aquilo que podiam para sobreviver e nunca cogitaram trabalhar de colchão aos arredores das bases americanas. E é por isso que o governo não aceita a culpa de ter forçado ninguém a se prostituir, mesmo porque desde daquela época, a prostituição é proibida, pelo menos por lei.
Da mesma forma que as mulheres que dormiam com soldados nazistas na Europa afora durante e após o fim da Segunda Guerra Mundial eram linchadas pela comunidade local, o destino das ex-prostitutas que provavelmente ajudaram o país a crescer não foi diferente por aqui.
Minha própria professora de Coreano conta como sofreu na infância por nunca ter conhecido o pai e por ter olhos verdes. As outras crianças não acreditavam na história que seu pai havia sido capturado pelos soldados norte-coreanos durante a guerra, chamando a mãe dela de puta de americano. É claro que essas crianças não saberiam dessas histórias se os próprios pais não falassem abertamente sobre tais temas em casa. Minha professora contou emocionada que comeu o pão que o diabo amassou e que hoje continua sendo excluída da sociedade local, e é por isso que trabalha com expatriados como agente imobiliária visando os bairros com o maior número de estrangeiros, e como professora particular de Coreano nas horas vagas. Seu sonho é de casar-se com um estrangeiro e ir embora da Coréia do Sul, porque sabe que por mais que seu país venha a se desenvolver ainda mais financeiramente, o povo ainda tem muito o que aprender em relação à tolerância e em relação ao respeito às tragédias alheias.
Como já havia mencionado em diversos outros textos semanais, não me sinto mal por ser estrangeira aqui, mas hoje sei que isso talvez se dê pelo fato do meu marido também ser estrangeiro, porque se um de nós tivéssemos algum relacionamento amoroso com um nativo ou fossemos mestiços, metade coreano metade outra coisa, saberíamos o que significa marginalização à fundo.
Soldados americanos continuam estacionados na Coréia do Sul e há quem diga que ainda existam prostitutas especializadas só para eles. Hoje essas profissionais – forçadas ou não – são na maioria dos casos filipinas ao invés de coreanas. Com tantos bares e clubes noturnos a somente passos das bases americanas em plena cidade de Seul (onde expatriados de respeito não dão as caras à noite sentido madrugada), me pergunto se a política do governo em relação à tolerância a prostituição que serve os guarda-costas yankees no país mudou…
Luciana B. Veit
Escravas Sexuais -
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Tags: Coréia do Sul, guerra, prostituição
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2 Comentários
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[...] De acordo com o KWAU (Korean Women’s Association United), 40 a 60% das mulheres coreanas casadas são abusadas fisicamente pelos seus maridos (o que vai de desrespeito falado a empurrão, estupro e surra), quando 9% delas chegam a receber cuidados médicos por tamanha brutalidade. 42% dessas mulheres são abusadas mais que uma vez por semana. Sobre as mulheres que no passado foram escravizadas sexualmente pelos japoneses, coreanos e americanos (voluntariamente ou involuntariamente), bom, isso já é uma outra história relatada no texto “Escravas Sexuais”. [...]