Escolas Coreanas: O Direito ao Castigo Físico

Petróleo Pintura, Batalha, EspadaDuas questões estão pegando fogo aqui na – pelo menos sob o ponto de vista dos expatriados:

Uma é a questão da prisão de 5 meses a até 2 anos para aquele que cometer adultério. A outra – da qual falarei hoje – é a nova lei que proíbe que os professores nativos batam em seus alunos. Não, não estamos no século passado e nem em nenhum vilarejo perdido no tempo, mas falo da capital Seul em pleno século XXI.

Pela tradição recém perdida, os professores coreanos agora estão desesperados por não saberem como devem se comportar face ao mal comportamento dos alunos, que começam a mostrar as garras na fase dos 12, 13 anos. Vale mencionar que para eles mostrar as garras significa falar durante a aula, cochilar ou responder para um professor, mas jamais ameaçá-los fisicamente, como é o caso em várias escolas nos EUA, em partes da Europa e inclusive no Brasil.

A primeira vez que ouvi isso, há mais ou menos um ano da boca de uma amiga canadense professora de Inglês, fiquei chocada, mas os recentes artigos nos jornais comprovam o que ela já havia me revelado.

Como meu filho pequeno não freqüenta uma coreana e suas atividades extra-curriculares são ministradas por professores coreanos em instituições digamos, internacionais, nunca percebi nada de errado até que algo aconteceu.

Um belo dia, meu filho brincava de pega-pega com um coleguinha pouco antes da aula de taekwondo começar. Acontece que ele escorregou no salão e caiu de boca no chão, esfolando seus lábios, rasgando a gengiva e amolecendo dois dentes de leite que não estavam para cair. Resultado, sua cara ficou manchada de sangue. É claro que minha reação automática (que graças a Deus estava na academia e vi o que se deu ali) foi de correr e socorrer meu filho imediatamente, mas no dia seguinte a ficha caiu. Os professores viram o sangue todo e nem se interessaram em ver ou pelo menos perguntar o que tinha acontecido. Isso me deixou tão profundamente irritada e abalada pela falta de humanidade para contra uma criança pequena, que resolvi mudar meu filho de estabelecimento. Não culpei-os pelo incidente em si, mas sim pela falta de compaixão.

Na verdade eu continuo abalada, mas lendo os recentes artigos e inclusive protestos em forma de livros e blogs dos professores nativos apelando para que possam bater nos alunos de novo, ligo um ponto no outro. O mais incrível de tudo, é que existem muitos pais que concordam!

Como pode um povo ser tão gentil e tão bruto ao mesmo tempo? Fosse na Rússia, eu diria: bom, já era de se esperar. Mas na Coréia?

A importância do respeito à hierarquia nessas bandas é tão vital como respirar. Acontece que infelizmente a maioria dos seres humanos se sentem como deuses, como super-heróis quando desfrutam de alguma forma de poder e na maioria das vezes é o lado mais perverso que toma conta do mais frágil. Quando se é pai ou mãe, o amor é o sentimento mais absoluto que nos faz pesar nossas ações mesmo quando o tempo fecha, mas quando não existe amor verdadeiro e sim obrigação, no caso dos professores, é muito fácil apelar pela .

É claro que a violência física não reina absoluta, quando constatamos que tantas pessoas sofrem e já sofreram de “bullying” – algo que só virou moda nos tópicos de conversação hoje mas que já rola há muito tempo. Na verdade são os próprios professores que criam situações para que os alunos possam se pegar para iniciar assim o tormento contra colegas de classe, dentro e fora da sala de aula.

Não que essa forma de violência – “bullying” – seja aceitável, é claro que não, já que ela talvez humilhe mais e deixe mais traumas na vida de um adolescente do que uma sova, mas em comparação a surras e tapas vindos dos próprios professores dentro das salas como era até ontem na Coréia do Sul (ou talvez ainda seja), devo admitir que não encontro outra palavra para expressar a minha opinião sobre o assunto: isso é simplesmente inadmissível!

Sendo mãe, sei o quão difícil é para se educar uma criança, mas por mais que tenha muitos defeitos – e sei que os tenho – aprendi que pelo menos com meu filho, que é teimoso por natureza, a maneira mais adequada de educá-lo e fazer com que ele se compreenda a situação, o porquê dele ter que fazer isso ou aquilo e as conseqüências que terá que arcar caso não as faça. Exemplo, se não comer legumes vai ficar com fome, vai ficar fraco, vai adoecer e assim não poderá fazer esportes e nem brincar com seus amigos. Se não estudar, não vai se formar e assim não vai arranjar um bom emprego e não vai poder fazer as coisas que gosta, como viajar e ir ao cinema.

O partido comunista soviético, dentre outros vilões, já provou que a política do medo não apresenta balanços positivos, mas sim revoltas, ódio e mais anarquia ainda, de um jeito ou de outro, visível ou invisível a olhos nus. Por isso começo a acreditar que nós não damos mesmo a mínima para aprender seja lá o que for através dos erros dos outros.

Por mais que os coreanos defendam os castigos físicos e se gabem por terem sido educados aos tapas no passado – o que levou a Coréia a ser o que é hoje, moderna e desenvolvida pelo menos em termos de civilização geral e infra-estrutura – precisam urgentemente se separar dessa tradição pré-histórica e se dar conta que a humanidade se desenvolve sim, por mais lentamente e quase que imperceptivelmente que isso se dê.

Luciana B. Veit

 

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  1. [...] tapas na orelha de estudantes mal educados, coisa que era normal na época e continua sendo em escolas na Coréia do Sul, por [...]

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