DESACONSELHÁVEL PARA MENORES DE 18 ANOS!
Claudia e Ron tinham três sonhos em comum: comprar um apartamento de três dormitórios em um bairro central da capital austríaca (onde moravam atualmente), colocar os futuros filhos nas melhores universidades da Europa e viajar para as ilhas Fiji.
Com o falecimento da avó de Claudia, o dinheiro da herança modesta para a neta única podia ser investida em um carro novo, ou em um dos sonhos do casal ainda em lua-de-mel pendente.
- Fiji aqui vamos nós! – vibra Claudia no fim de uma bela tarde já com as passagens aéreas em mãos.
Como teriam que fazer escala na Coréia do Sul, eles poderiam conhecer Seul, mas resolveram que não. Eles também poderiam dar uma esticada estilo mochileiro tanto na Austrália quanto na Nova Zelândia por também ser tão próximo das ilhas Fiji, sem contar as outras ilhas do Pacífico, como a Polinésia Francesa por exemplo, mas acontece que nenhum desses três países faziam parte do sonho do casal.
- É direto para Fiji ou nada – explicou Ron para um dos seus invejosos amigos do trabalho.
Pois então, a data marcada havia finalmente chegado. A despedida do casal dos amigos e dos familiares no aeroporto foi talvez um pouco exagerada, já que em doze dias eles já estariam vivendo suas respectivas rotinas de novo, no entanto muito mais bronzeados do sol e também com a alma lavada pelas águas mornas e cristalinas do Oceano Pacífico-Sul. A mãe de Claudia até chorou de emoção, porque sabia o quanto essa viagem significava para sua filha.
No avião, as inconveniências corriqueiras mal pareciam incomodar os dois pombinhos no início, só que ao longo das longas horas de Viena para Frankfurt, de Frankfurt para Seul, de Seul para Nadi e finalmente de Nadi para a ilha-resort de barco, sem contar o tempo perdido entre uma escala e outra, estavam de fato colocando à prova a vontade de chegar na pequena ilha onde eles se hospedaríam ainda com um sorriso no rosto.
Crystal Clear Island Resort – dizia o letreiro em madeira no fim da ponte que dava do píer para uma das cinco praias dessa ilha mágica.
O casal foi recebido por um dos funcionários que logo após ter dito uma largo e sorridente “Bulaaaa”, colocou colares de conchas brancas em volta do pescoço de cada um. Depois Claudia e Ron foram levados até a casa principal para fazerem o check-in e beberem um coquetel refrescante de frutas, com direito a guarda-chuvinha no copo e tudo mais. Claudia abriu o folheto com o lay-out do resort e comentou:
- Mal posso esperar para andar em volta da ilha inteira, benhê.
O funcionário de camisa florida, de pele morena clara e corte de cabelo redondo e pixaim em toda a sua essência, fechou seu sorriso e explicou:
- Não creio que conseguirão andar em volta da ilha por conta das rochas e por conta da maré. Mesmo porque uma das cinco praias é particular.
- Sim, mas de acordo com o livro informativo que comprei sobre Fiji, não existem praias particulares aqui, somente propriedades. Portanto, se desejarmos andar ou nadar em volta desta ilha, sem pisar na propriedade particular em questão, assim o faremos – replicou Ron decididamente.
O funcionário do resort deu um passo para trás com uma feição até um pouco alegre demais, como se estivesse dizendo: – Eu avisei, mas façam como quiserem. Na verdade, nós até estamos contando com o vosso espírito aventureiro…
Claudia e Ron se acomodaram no bangalô direto sobre as areias finas e brancas da praia do sul da ilha e ali se espreguiçaram, como fariam até voltarem para casa, no dia primeiro de novembro.
Como o resort em si era super bem estruturado ao longo das quatro das cinco praias, com bares, “bure” ou sala de ginástica (mesmo que vazia!), piscinas, restaurantes, “bure” de recreação infantil, “bure” de equipamento de esporte aquático e até “bure” de aula teórica de mergulho, Ron e Claudia procuraram curtir de tudo pelo menos um pouco, sem encontrarem tempo de sobra para andarem em volta da ilha como haviam se prometido assim que puseram os pés no Crystal Clear Island Resort.
- Amanhã será o nosso último dia aqui, Ron, e ainda falta uma praia para visitar! – diz Claudia enquanto se servia do buffet da deliciosa comida local Lovo, ao som dos instrumentos típicos, que seguiriam um show de dança fijiana no bar da casa principal, onde os funcionários do resort se vestiriam com saias de palha e dançariam com lanças, relembrando a época nada longínqua do canibalismo praticado na região dos moradores de cabelo pixaim.
- Certo! – respondeu Ron. – Mas antes disso não podemos deixar de participar de uma cerimônia da Kava.
Na manhã seguinte, o casal acordou cedo, tomou café da varanda na praia do norte, fez snorkelling, relaxou na piscina e depois do suculento almoço, ainda participou no “bure” tradicional (casinha redonda de teto de palha, sem portas e sem janelas no meio do jardim) da cerimônia da Kava.
Kava é uma bebida verde escura feita da raiz da planta de mesmo nome e seus efeitos vão de narcótico a curador, no caso de tosse, stress e dores no geral. Claudia e Ron sentiram seus lábios amortecerem logo após terem provado do líquido amargo e levemente apimentado, servido em uma casca de côco. Mas por conta da quase mínima quantidade de Kava que tomaram, não puderam dizer que estavam “viajando”.
- Vináka, vináka… E Happy Halloween!
- Não deixem de reservar mesas no restaurante da praia do sul para esta noite, porque o buffet terá como tema o 31 de outubro! – sugeriu o mestre de cerimônias, um sujeito gordo mas extremamente simpático.
Assim que se despediram dele com um obrigado, Claudia comentou:
- É difícil para mim diferenciar uns dos outros aqui. Até o andar arrastado deles é idêntico!
- Não lembra o que aquele motorista indiano de táxi falou, que os fijianos usam o mesmo corte redondo no cabelo por conta dos fios crespos? Mas eu acho que não tem nada a ver, porque mesmo na África os nativos usam cortes diferentes.
- Verdade! – concorda Claudia. – Mas e agora? Vamos dar a volta na ilha ou não?
Ron espia no seu relógio de pulso e avisa:
- O sol se põe daqui a menos de duas horas. Até lá já deveremos estar de volta, porque não quero me aventurar no escuro.
Claudia sorriu de excitação, vestiu sua sandália, amarrou firmemente sua saída de banho em volta dos quadris, segurou a mão de Ron e por fim eles começaram a caminhada pela praia do norte.
Pelas quatro praias pelas quais eles passaram, avistaram famílias na beira do mar escuro de fim de tarde torcendo para avistarem pelo menos um tubarão, outros casais dividindo coquetéis coloridos, crianças juntando seus brinquedos da areia, esportistas correndo de uma ponta da praia para a outra e menos esportistas jogando bingo.
No fim da última fronteira para a quinta praia, Claudia e Ron assistiram sentados em cima de uma rocha vulcânica com os pés na água do mar o espetáculo do pôr do sol que foi abruptamente interrompido por um grupo de morcegos que começou a rodeá-los.
- Vamos sair daqui, Ron. Não quero ter que me preocupar com esses aí presos no meu cabelo – diz Claudia, se referindo aos roedores voadores.
Ron riu, mas logo seu sorriso murcharia.
- O funcionário da recepção tinha razão quando disse que era praticamente impossível chegar na quinta praia. Veja você mesmo…
Claudia espiou com cuidado enquanto segurava a mão de Ron e concordou que seria impossível atravessar as rochas molhadas e altas para chegarem na quinta praia.
- Temos três opções – ele diz. – Poderíamos voltar pelo caminho que viemos, mas isso duraria muito tempo. Poderíamos pular na água, mas não acho uma boa idéia por conta da correnteza e dos tubarões que devem estar acordando do jejum. Ou ainda poderíamos tentar chegar na quinta praia por dentro, no meio do mato mesmo.
Claudia avaliou as três opções com todos seus prós e contras e chegou a mesma conclusão que seu marido:
- Vamos voltar por dentro.
Após terem passado por matos altos com o coração palpitando para não pisarem sem querer em nenhuma cobra, o casal finalmente se dá de frente a uma cerca de arame, que tinha o seguinte letreiro enferrujado como aviso: Lako Tani.
- Lako Tani? Será que essa propriedade particular vai se transformar em algum resort de luxo, concorrente do nosso? – pergunta Claudia ainda parada.
- Pode ser. Talvez tenha sido por isso que o funcionário pediu para que não viéssemos até aqui. Sabe como é, eles querem que na nossa próxima visita em Fiji escolhamos o mesmo resort.
- Lako Tani Resort… O nome promete. Mas e agora, Ron? Como nós iremos atravessar essa cerca de arame?
Ron espiou dentro da propriedade para ver se avistava alguém, mas nada. Não havia ninguém e nenhum barulho sequer.
- Vamos pular por aqui.
Ron se segura na haste de uma árvore e dá conta do recado. Claudia faz o mesmo, só que ela acabou se cortando um pouco na coxa com um canto do arame que estava à mercê dos intrusos.
De repente, eles escutam cachorros latindo desesperadamente correndo em suas direções. Só que para a sorte deles, os cachorros raivosos estavam do outro lado da cerca, se batendo contra ela.
- Viu isso, Ron? Como é que eles permitem que cachorros assim corram soltos pela ilha?
- Acho que eles só correm soltos à noite. Devem pertencer ao dono daqui. Aposto que aquele casarão pelo qual passamos é dele.
- Só sei que o que eu mais desejo agora é chegar o mais rápido possível no nosso aconchegante bangalô.
Poucos passos adiante, o casal colocou os pés na areia da quinta praia.
- Olha só, Ron. Vê aqueles “bures” amarelos de teto de palha ao longo da praia, praticamente escondidos por detrás dos coqueiros? Que graça! A gente tinha razão mesmo: com certeza isso aqui vai virar um pequeno resort de muito bom gosto.
Ron não estava gostando do clima dali, principalmente após ter avistado um longo tronco de madeira ereto de frente a um dos “bures” rodeado por cinzas, como se algo muito grande tivesse sido grelhado ali.
- Claudia, fale mais baixo. E vamos atravessar essa praia com passo de gato, porque logo atrás daquela colina, do lado oposto daquelas rochas, está a praia do norte.
E assim eles fizeram, ou pelo menos tentaram fazer. A dois passos do tal tronco rodeado por cinzas, algo chama a atenção de Claudia.
- O que foi, querida? Por que parou e por que está tão pálida?
Claudia começou a tremer incontrolavelmente quando apontou para o que tinha acabado de ver: o resto do que era uma mão de mulher, ainda com os últimos três dedos com unhas pintadas de vermelho jogado em meio das cinzas.
Apavorada, Claudia gritou e gritou, sem saber se deveria confiar na sua visão ou se deveria aceitar que alguém ali estava sem a mão (ou seria a mão que já estava sem sua dona?).
Ron se certificou mais de perto que o objeto realmente se tratava de um resto de uma mão de mulher e desta vez também sentiu sua espinha gelar.
O casal estava ainda parado de costas para os “bures” e de frente para o mar. O machucado de Claudia começou a pingar gotas de sangue, quando de repente alguém que vinha na ponta dos pés por detrás passa o dedo no sangue escorrendo na cocha dela e diz para os outros que observavam-no:
- O sangue é bom. Pode levar!
No momento em que Claudia e Ron se viraram, os nativos seguraram suas mãos por detrás e amarraram-nas com cordas. Depois Claudia foi levada para dentro de um “bure” e Ron para dentro de um outro.
- Socorro! Socorro! Me tirem daqui! – gritava Claudia histérica.
No “bure” escuro e cheirando mal de uma mistura de mofo com areia úmida, Claudia olhou ao redor quando percebeu que se remexer toda não iria tira-la dali. Haviam duas mulheres com ela ali dentro, de cabelos iguais, corpos iguais e vestidos compridos floridos iguais.
Elas me são tão familiares – pensou Claudia, mas logo apagou seu pensamento da cabeça porque todos se pareciam mesmo em Fiji, com exceção dos indianos.
No outro “bure”, o que Ron percebeu era que os olhos dos homens vestidos somente com saias de palha e colares de conchas brancas estavam todos avermelhados.
Ao som de um tambor, as poucas peças de roupa de Ron e de Claudia são arrancados à força e seus corpos, inclusive o rosto, são pintados com tintas preta e branca, lembrando um pouco o desenho dos órgãos do corpo.
Preparados para o que estava para vir, eles são levados para fora. O visível chefe desse ritual era sem dúvida o mesmo mestre da cerimônia da Kava. Ele estava vestido com a mesma saia de palha que seus seguidores, mas o arranjo de penas na cabeça era muito mais imponente.
A lua estava alta e espelhava nas calmas ondas do mar. Claudia e Ron não demoraram para serem levados para o tronco, sendo amarrados um de costas para o outro.
- O que nós vamos fazer agora? – cochicha Ron.
- Está difícil, mas eu estou pensando em alguma coisa.
O grupo recitava algum poema em coro enquanto Claudia e Ron quebravam a cabeça.
- Aposto que eles vão comer a gente, órgão por órgão.
- O que está dizendo, Ron?
- Eu não me vi no espelho ainda, mas vi a pintura do seu corpo.
Claudia abaixou a cabeça para tentar ver seu umbigo e quando se deu conta da verdade dita pelo seu marido, entrou em pânico. Ela gritou e pediu por socorro, mas ninguém do outro lado da colina na praia do norte podia imaginar o que estava se desenrolando ali. Nem mesmo Claudia e Ron puderam saber quando a dona da mão dilacerada havia passado pelo mesmo terror.
O chefe do ritual se aproximou do casal, seguido pela sua manada e finalmente parou de frente a Claudia. Ele olhou para a lua, falou algo em Fijiano com o tom de voz bem baixo e profundo e depois…
- Vocês são todos funcionários do resort, não? Tenho certeza disso – diz Ron, tentando tirar a atenção do chefe de sua esposa.
Ninguém respondeu. Isso poderia ser verdade ou não, pelo fato de todos serem muito parecidos.
A tentativa de Ron foi em vão, porque o próximo som que ouviria seria de sua esposa gritando ao ver as unhas do dedão e do dedo indicador da mão serem arrancadas por um alicate gigante. O sangue começou a pingar sobre os pés dela e o chefe do ritual teve a honra de comer a primeira unha.
- O canibalismo ainda está presente aqui! Mais cedo ou mais tarde o mundo saberá… – grita Ron, poucos antes de ter três das cinco unhas do pé direito arrancadas pelo mesmo alicate.
Os participantes do ritual gritaram de alegria. Pouco depois, duas senhoras de idade avançada se aproximaram de Claudia e cuspiram nos dois bicos dos seios pintados dela, o que significava que eles estavam agora purificados para serem cortados fora e servidos mais tarde como a cereja que vem em cima do sundae de chocolate.
Ron e Claudia estavam tão desesperados que nem mais sentiam a dor das unhas arrancadas.
- De acordo com meu livro, os canibais de Fiji só comiam seus inimigos, para mostrarem para as famílias deles que realmente não havia nenhum respeito. Mas nós não somos seus inimigos. Deixem-nos sair daqui – implorava Ron, enquanto Claudia gritava:
– Socorro! Não é possível uma coisa dessa! Ali, do outro lado da colina reina a paz e a tranqüilidade, e aqui é a porta do inferno…
- Na falta de inimigos, comemos nossos amigos – responde o chefe. – O importante é não deixar a tradição morrer.
Certa que se não fizesse algo, por mais ridículo e absurdo que pudesse ser, Claudia sabia que esse seria o fim. Quando notou que o chefe do ritual havia entregado um facão na mão do seu braço direito, um sujeito com menos penas que ele na cabeça, ela tentou se safar. Com a cabeça virada para a lua, pálpebras dos olhos tremendo semi-abertos e falando um língua inventada, Claudia direciona seu olhar para o chefe de cerimônias, chupa o próprio dedo ensangüentado, depois passa o outro dedo pingando sangue sobre seus mamilos e pelo resto do corpo que ainda conseguia alcançar, e de repente, joga as duas mãos para frente com um olhar diabólico, sempre recitando os versos desse idioma inexistente.
Os nativos ficaram em silêncio. Nunca haviam presenciado algo do gênero, pelo menos não de uma européia. Como não sabiam o que ela estava falando e o que o gesto que fizera significava, prudentemente deram um passo para trás.
Claudia começou a gargalhar vulgarmente (para não chorar) e o volume de sua voz foi aumentando. Ron até achou que deveria se juntar a ela, mas como não haviam ensaiado antes, ele achou melhor ficar calado para ver aonde isso iria dar.
O chefe de cerimônias arrancou o facão da mão do seu ajudante petrificado e se aproximou de Claudia.
- O que está tentando alcançar com isso? Ninguém vai te tirar daqui esta noite, nesta maldita noite de Halloween.
Claudia forçou seu olhar maquiavélico e disse:
- Quem está tentando se livrar de alguma coisa? Eu estou é invocando meus ancestrais da Floresta Negra para levarem a sua alma e amaldiçoarem a vida dos seus seguidores assim que eu e meu marido deixarmos esse nível espiritual.
O silêncio foi absoluto.
Ron resolveu abrir a boca:
- Me parece que foi o gato que comeu a sua língua agora.
O chefe do ritual começou a gargalhar, mas sozinho. Seus seguidores eram supersticiosos o suficiente para não brincarem com o desconhecido.
- Vocês realmente não acham que são os únicos que mexem com bruxaria, não é? Lembrem-se que nós europeus temos tradição nisso – explica Claudia tremendo por dentro, mas fria por fora.
As duas senhoras que haviam cuspido nos seios de Claudia deram-se as mãos e se afastaram andando de costas, fazendo movimentos de saudação em direção a Claudia.
Está funcionando, está funcionando… – vibra o casal em pensamento.
Com medo que seus seguidores fizessem o mesmo que as duas senhoras, o chefe de cerimônias resume:
- Vamos acabar logo com isso.
Ele diz algo em Fijiano em um tom alucinado, e Claudia faz o mesmo com os olhos tremendo em direção a lua, recitando seus versos na língua inventada. O chefe então levanta o facão e é surpreendido pelo ajudante, seu braço direito.
- Como ousa me interromper?
- Isso não é sábio. Não sabemos qual magia ela está usando.
- Eu sei que o poder da minha esposa é colossal. Foi através da magia negra que ela usou que eu me tornei seu marido.
- Oh! – diz o coro de olhos vermelhos e bocas amortecidas de Kava, se afastando cada vez mais da notável bruxa.
Essa foi boa. Você me paga, Ron – pensa Claudia rindo em pensamento.
O braço direito arranca o facão da mão do chefe em um momento de distração sua e corta a corda que prendia o pescoço e os pés do casal no tronco.
- Saiam daqui agora mesmo e que seus ancestrais não nos amaldiçoem!
O chefe ainda não estava convencido dos poderes de Claudia, mas soube que sem o apoio de seus seguidores, ele não poderia prosseguir o ritual desta noite.
Claudia apoiou o braço de Ron sobre seus ombros e eles olharam em volta. Eles poderiam voltar pelo mesmo caminho que vieram, mas dessa vez seriam os raivosos cachorros soltos que lhe receberiam. Eles poderiam subir a colina à pé, ou ainda poderiam tentar a sorte pelo mar, nadando em volta da pequena falésia que separava a quinta praia da praia do norte.
Como eles não queriam perguntar para os canibais qual seria o caminho ideal, resolveram pular na água e rezar para que os tubarões não sentissem o cheiro do sangue deles na água.
Com a ajuda de Claudia e muita sorte, o casal conseguiu chegar na areia com suas pernas e braços ainda presos aos seus corpos molhados, pelados e manchados de tinta preta, para o horror dos hóspedes do resort que jantavam à meia-luz no restaurante menos familiar e mais fino de todo o Crystal Clear Island Resort. Os funcionários arregalaram os olhos e no primeiro instante não mexeram um dedo, sabendo exatamente de onde Claudia e Ron estavam vindo. Somente quando um hóspede puxou a toalha da mesa deixando os pratos e as taças de vinho caírem no chão para embrulhar Claudia, é o que maître correu para oferecer uma outra toalha de mesa para Ron.
- Evitem a quinta praia à todo custo! Evitem a quinta praia… – gritava Claudia para os pasmos hóspedes.
No bangalô, a enfermeira de plantão cuidou dos curativos e disse que o sal da água do mar ajudaria para que os ferimentos não inflamassem, ignorando a narrativa de terror do casal. Ron logo se deu conta que todos os nativos (pelo menos desta ilha) faziam parte direta ou indiretamente do ritual de canibalismo, por isso achou melhor não exigir justiça por enquanto e somente confirmar seu vôo de volta para a civilização na manhã seguinte.
Mas ainda tinha uma coisa que Claudia precisava saber:
- Me diga, enfermeira: vocês realmente tem planos de seguir em frente com a construção do Lako Tani Resort? Depois que tudo que aconteceu e vem acontecendo?
A enfermeira colocou os curativos de lado e riu.
- Lako Tani Resort? De onde você tirou essa idéia?
- Ora, Lako Tani era o que estava escrito na plaquinha na cerca de arame – explica Claudia.
A enfermeira respondeu:
- Lako Tani significa em Fijiano: Vão embora!
Luciana B. Veit
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