Duas inseparáveis amigas de adolescência se encontram dez anos mais tarde no meio de uma avenida movimentada.
– Ju?
– Bi? Meu Deus! Eu não acredito!
As duas mulheres se secam dos pés à cabeça e sorriem verdadeiramente.
– Você tem tempo para um café?
A Bi dá uma espiada no relógio e um tanto hesitante, concorda.
– Tenho uma reunião daqui meia hora, mas como meu escritório é aqui na esquina, dá tempo sim.
Acomodadas com seus respectivos cafés, Bi diz, olhando o pão de queijo que Ju enfiava na boca de uma forma desaprovadora (porque uma mulher de 30 anos tem que vigiar o peso):
– E então? Como foi que a vida te tratou nesse tempão? Depois do seu casamento, você se mudou e logo teve filho, não foi?
– Sim, nos mudamos para Paris onde moramos cinco anos e depois passamos os próximos três anos em Tóquio. Hoje estamos morando em Boston. E não, só engravidei no quarto ano de casamento. Sabe como é, curtimos uma longa lua-de-mel.
Bi não pôde negar que não se alegrou com isso.
– Mas e você? Conseguiu se formar?
Bi sorri orgulhosa:
– Se consegui me formar? Ha! Com méritos, querida! E já fazem dois anos que abri a meu próprio consultório de psicologia. Sempre viajo para o exterior para participar de conferências.
Ju também não pôde dizer que havia se alegrado verdadeiramente pela amiga.
– Mas você não se casou, nem nada? – ela pergunta, querendo já pisar em uma ferida aberta que imaginou que a amiga tivesse.
– Na verdade juntei. Mas só queremos ter filhos depois que terminar meu mestrado.
Bi estava se sentindo no topo do seu jogo.
– Mas você estudou alguma coisa, Ju?
Ju sabia onde ela queria chegar.
– Que me diz de Japonês, Francês e de ter publicado quatro livros em Inglês? Com tudo isso não diria que preciso de um diploma universitário…
– Bom, se fosse presa hoje, ainda dividiria uma cela com um marginal…
– Sim, mas para isso acontecer, teria que me meter com marginais ou loucos, não é? Aquele tipo de gente que deve estar acostumada a receber no seu consultório de psicologia.
Bi e Ju já não mais conseguiam fingir o falso e tremido sorriso.
– Bom, como o tempo voa, não! – comenta Bi olhando para seu relógio suíço. – Deixe-me pagar pelo café.
– De jeito nenhum! – protesta Ju. – A honra é toda minha, doutora… – ela diz, com um tom cínico.
Ju abre sua carteira e mostra a foto de sua filhinha linda.
– Que gracinha! – responde Bi, precisando urgentemente se igualar a Ju de alguma forma.
– Na minha carteira só carrego a foto do meu maridão. Olha só…
Bi aproveitou para mostrar a foto onde seu marido estava parado de frente à piscina do casarão onde moravam.
Ju arregala os olhos e se pergunta: Onde foi que ela foi arrumar um gato desse?
– Sua casa é linda e seu marido parece ser uma boa pessoa.. Também tenho uma foto do meu marido. Você lembra dele, né?
Bi olha a foto onde o marido de Ju estava sem camisa exibindo seu peito e barriga sarados e másculos enquanto pescava de um yacht.
– Onde vocês alugaram esse barco? – pergunta Bi.
– Ah, ele é nosso. Só usamos às vezes quando descemos em Mônaco. Hoje temos residências tanto em Barcelona quanto em Zurique, e um pequeno loft no coração de Manhattan!
– Mas não disse que morava em Boston? E o que está fazendo aqui em São Paulo?
– Estamos aqui de férias, a caminho do Tahiti. E quanto a Boston, é passageiro.
Bi espiou em seu relógio de novo. Ela poderia continuar sentada ali e colocar todas as cartas na mesa das coisas que ela havia conseguido ao longo desses dez anos, como: Minha casa, meu “marido”, minhas roupas e minhas jóias, mas também teria que esperar por uma resposta à altura de Ju como: Minhas casas, minhas viagens, minha família e meu yacht.
Nesse instante, Ju reparou na perfeita pele e no macio cabelo de Bi, enquanto Bi reparou nos quadris em forma e na barriga lisa de Ju.
Por mais que as duas amigas não pudessem deixar de se mostrarem de alguma forma superiores, talvez teriam tido mais proveito desse café se logo no início, assim que se encontraram na rua, se tivessem dito:
– Vamos tomar um café. Mas eu não quero saber o que fez nos últimos dez anos…
Luciana B. Veit
No related Chronicles.
Tags: amigos, seres humanos, vida
enviando...