Lendo as mais novas atrocidades contra o ser humano nos jornais diários, me pergunto: quando é que finalmente entenderemos que quem faz um país somos nós? Que quem é responsável pelo aumento de racismo e xenofobia, por exemplo, também somos nós?
No momento em que viramos o rosto ou pensamos que esse ou aquele problema não nos afeta diretamente, estamos contribuindo para que a situação só piore. O governo tem obrigações, sem dúvida, mas o povo é quem deveria mostrar um pouco mais de coragem civil.
Agora o que é isso? Seria se meter entre um assaltante armado e uma velhinha de 80 anos? Ajudar um estrangeiro sozinho que está sendo surrado por uma gangue extremista? Avisar uma desconhecida na rua que sua calça manchou de sangue por conta de sua menstruação inesperada? Chamar a atenção do bastardo que não sai do parquinho do bairro com prováveis e sórdidas terceiras intenções com crianças?
Pedir para que o adolescente jogue o lixo no lixo, e não do lado dele? Mostrar ao mundo que tem uma opinião formada sobre um assunto sem medo de deixar de fazer parte de um grupo de peixes que só nadam em um cardume?
Existem milhões de exemplos de coragem civil, mas somente pouquíssimas pessoas que tem a coragem de nadar contra a corrente. A coragem civil pode ser expressada direta ou indiretamente, mas ela deve ser expressada. Podemos tentar impedir a surra que o estrangeiro está levando dos skinheads em pessoa ou ligar imediatamente para a polícia. Podemos dar um discurso não autorizado na rua ou publicar um texto. Podemos brigar com o vizinho ou denunciar seus abusos contra seus filhos, parceiros ou até animais domésticos, mesmo que no anonimato.
Independentemente de você ter religião ou não, lutar por uma sociedade melhor não é um ato para os outros, mas para nós mesmos. Coragem civil pode ser subentendida por bondade civil, mas independentemente do título que leva, esse ato deveria ser exercitado.
Isso quer dizer se meter na vida dos outros? – deve estar se perguntando. E a resposta é não. Existe uma frágil diferença entre coragem civil e intromissão na vida particular dos outros, da mesma forma que existe uma grande diferença entre sensualidade e vulgaridade.
Mas a moral da história é que não podemos esperar que os outros façam aquilo que já deveríamos estar fazendo, porque um governo não é nada mais que o espelho do seu povo.
Luciana B. Veit
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