Coincidências

Corredor, PortasO que um executivo aposentado de 60 anos, uma advogada de 40 anos, um adolescente viciado em de 17 anos e uma criança que não se acha amada de 7 anos tem em comum? Analisemos:

O executivo assim que se aposentou soltou um berro e disse:

– Finalmente posso curtir a minha agora.

Ele então comprou uma casa na praia e até fez algumas viagens internacionais. Viu os filhos se formarem e se casarem e ao completar 58 anos disse aos seus colegas que ele havia praticamente alcançado tudo que havia almejado na vida. Mas daí a alegria-alegria passou a ficar monótona. Seus filhos continuaram a viver cada vez mais as suas realidades e visitar os pais em cada sagrado fim de semana passou a ser secundário. O executivo não entende o que está acontecendo com ele, o porquê de sua infelicidade que de momentânea, passou a ser cotidiana. Tem isso a ver com o ilusório desapego dos filhos, ou dos sonhos que deixei de correr atrás na juventude, ou talvez ainda do fato que muito provavelmente não viverei mais que 30 anos a partir de agora?

Agora a advogada sempre foi uma mulher de princípios, alguém que jurou já na infância que lutaria pelos direitos do homem e contra todo tipo de injustiça. Ela se deu bem. Se formou numa faculdade de elite e fez seu nome no mercado. Colocou muita gente na cadeia e salvou muitas outras dela. Chegava em casa à noite exausta, mas sempre com o coração leve, tendo a certeza de que marginalizar sua vida pessoal em nome de uma causa maior valia a pena e que mais cedo ou mais tarde ela eventualmente encontraria sua outra cara-metade. Mas então os anos foram se passando e ela passou a descobrir linhas indesejáveis no rosto e no corpo. Seu empenho no trabalho começou a deixar a desejar e ela começou a filosofar sobre o motivo de ser tão capaz em tantas coisas e tão incapaz em outras. Um certo dia, avisou no escritório que não mais compareceria. Seu chefe indagou o tempo em que estaria ausente e essa foi a primeira pergunta que em muitos anos ela não soube responder com excelência. A verdade é que ela estava farta de viver para os outros, só que passou a achar que ninguém estaria disposto a viver por ela.

O adolescente fumou seu primeiro baseado aos 13 anos de idade. De simples, ele nunca sonhou com grandes feitos e soube desde muito cedo que acabaria vivendo um dia após o outro. Acontece que do baseado passou para o crack, do crack para a coca e da coca para a heroína, sem contar os diversos outros coquetéis. Sem dinheiro e sem moral ele fugiu de casa com alguns aparelhos domésticos dos pais para trocar por mais drogas e ao chegar no abrigo daqueles de sua mesma “espécie”, levou uma rasteira quando o chefe da tribo decidiu de repente que ali não havia mais lugar para ninguém, só para assim poder dar conta daquela princesinha que achava ser a namorada do rejeitado. Sem fazer parte de uma tribo de rua, o menino logo pereceria e ele naquele momento ele não conseguiu ver o outro caminho que também tinha pela frente.

Já a menininha não tem só os cachos de seu cabelo de ouro. Sua mãe é a socialite bem sucedida em pessoa, e seu pai um empreendedor conhecido. Desde que nasceu a garotinha já possuía um exército de babás, de médicos, de professores de Francês e Japonês, de psicólogos e de coleguinhas, filhas de amigas compradas pela mãe. Mas aquilo que ela não tinha era a coisa mais preciosa de todas e que mais lhe faltava no coração: o tempo indeterminado (nem que fosse aos fins de semana) dos seus pais, que sempre pareciam ter algo mais importante a fazer do que ler uma historinha de gibi para a garota. Aos 7 anos a menina se pergunta se quer mesmo virar adulta um dia, porque viver como seus pais vivem ela não desejaria nem mesmo para a vizinha que sempre arranca os cabelos de sua boneca preferida.

Agora voltando à minha pergunta inicial, o que essas pessoas mencionadas acima tem em comum? A desesperança, chegando a até mencionarem direta ou indiretamente que a vida não tem mais sentido.

Sem perceberem elas se deixam levar nessa onda sombria que vai puxando suas vítimas cada vez mais para o fundo do poço. Agora por que fui comparar uma garotinha de 7 anos com um aposentado de 60? Porque a visão de mundo que eles tem no momento é a única que importa por mas que digamos que as coisas não sejam tão assim ou assado.

Dependendo da profundidade do buraco a pessoa ainda conseguirá se salvar, mas como tudo na vida, existem dois lados da moeda. O bom é que ela poderá voltar ou passar a ver o sol sorrindo, os patos conversando e os ventos viajando, mas o difícil é que ela terá que fazer isso sozinha, por mais cruel que isso possa parecer.

Ninguém tira ninguém de nenhum buraco. Ninguém cura a depressão ou a melancolia de ninguém. Ninguém salva a alma de ninguém.

Por isso é imprescindível que a pessoa desiludida encontre uma nova razão para viver, caso aquelas que tinha em mãos antes já se esgotaram. Procurar por atividades inéditas, visitar um lugar que não fazia parte da lista dos sonhos, ou simplesmente construir um muro de vidro que os separa das coisas que tanto os aborrecem podem dar uma nova razão de ser e de estar, e quem sabe aquele pescador que nunca deixou sua prainha no interior do nordeste não revele os sussurros dos peixes que sempre o fizeram voltar para o mar no dia seguinte.

Luciana B. Veit


 

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