No fundo, todo mundo sabe das coisas que devem ser feitas, mas que na maioria das vezes são colocadas de lado, como dar um fim para coisas velhas, pessoas desinteressantes e sentimentos negativos que mais nada trazem às nossas vidas.
Mudança é uma grande oportunidade para tal fim. Ela é cansativa porque necessita não só de energia e paciência, mas principalmente de muita organização. Com a minha oitava mudança programada para daqui poucos dias, posso dizer que aprendi muitos truques ao longo dos anos como cigana, mas também devo admitir que muitas das coisas que deveria já ter feito há anos, só me dei conta delas agora.
Está certo que toda mãe faz questão de guardar o primeiro casaquinho, sapatinho, macacãozinho e todos os outros “inhos” dos filhos, especialmente dos primogênitos (e únicos então…), mas quando ela se dá conta que um único saco de memórias passa a ser dez sacos lotados, bom, aí é hora de esquecer que tem coração e fingir sofrer de Alzheimer, para assim separar as inutilidades (como meias surradas) das outras coisas que realmente possuem um valor emocional muito grande, como um babador com cheiro de vomito de nenê (que gracinha!). Bom, os orfanatos de Seul foram quem saíram ganhando com os “inhos” e “inhas” dispensáveis.
Outra coisa que me custou dois dias inteiros de trabalho foi jogar fora bilhetes velhos de museus e cinemas, a metade (mas só a metade) das pinturas e redações do meu filho e recibos de contas pagas anos atrás, sem contar separar revistas com importância histórica das outras que só fazem volume e estão desatualizadas mesmo. Com a internet reinando, quem se interessa em saber quem George Clooney estava namorando há 15 anos, qual era o melhor restaurante de Nova Iorque antes do 11 de setembro, as tendências do mercado financeiro antes da crise mundial ou ainda quais as dicas astrológicas para o ano de 2004?
Passamos aos filmes. Além de livros, comprar filmes é uma das minhas fraquezas, mesmo não sendo tida como gastona. Mas sinceramente, deixei de ver os mesmos filmes um milhão de vezes há anos. Então, para a alegria de muita gente, presenteei uns 50 deles e de repente a inutilidade passou a ter uma utilidade que é entreter novos espectadores.
E porcelana, então? A Ásia é a Meca da boa porcelana. É um milagre que tenha trazido para a Coréia do Sul os pratinhos mixurucas que havia comprado aqui e lá, mas para a China não os levarei comigo de novo. Minha empregada foi quem vibrou.
Falar em doar roupa velha é como dar uma facada no meu coração. Não é ingênuo eu achar que ainda poderia entrar numa calça jeans apertada da época em que eu tinha 18 anos? Pois então. A esperança é a única que morre, ou melhor, era? Além de muitas roupas não caberem mais, muitas delas viraram cafonas. Custei a tomar a decisão, mas tomei. Arrumei um saco bem grande e coloquei lá dentro parte das minhas memórias. O sapato das baladas. A blusa que estava usando quando conheci meu marido. A meia-calça que estava usando por baixo do meu vestido de noiva. Até a minha inseparável mochila de couro com a alça quebrada que rodou o mundo comigo não foi poupada.
Que todas essas coisas façam nova história! Estou até me sentindo mais leve. Será que é impressão minha, ou até o ar ficou diferente? Adeus, velharias!
Mas nem tudo é um mar de rosas. Existem coisas das quais eu não tenho planos algum de me desfazer delas. Jamais me livraria dos meus tapetes, dos meus perfumes, dos meus livros e dicionários (com exceção dos livros de receitas, mas aí entraria em conflito com os outros membros da minha família), das minhas fotos de viagens, dos meus computadores, das máscaras, enfim, a lista é grande.
O melhor de toda essa história é me dar conta de que no momento velharias e inutilidades são as únicas coisas que tenha que dar um fim nesse momento, porque não me vem nada mais à cabeça. Talvez tenha virado um pouco mais fria, ou quem sabe prática quando procuro ignorar sentimentos e pessoas que não fazem bem nem a mim e nem à minha família.
A única coisa que sou indiretamente obrigada a dar um fim agora, é na minha estada na Coréia do Sul que eu tanto curti. A China que me aguarde. Não estarei chegando lá para dar um fim nas coisas, mas sim para iniciar tantas novas, começando pelo novo conjunto de jantar, as novas cortinas, revistas, bilhetes de museu e cinema, etc…
Luciana B. Veit
Quem poderia esquecer?
Eu não aprendi coreano. Tampouco taekwondo. Nem mesmo fiz um curso de culinária local. Comi muitas vezes kimchi, kimpab e bibimpab, mas recusei-me a chegar perto dos snacks mal-cheirosos de rua, tal como polvo ressecado e sopinha de lagartas, sem contar que procurar por um estabelecimento vendendo cachorro como prato principal sequer passou pela minha cabeça.
Apesar de ter viajado extensamente pela Ásia, pouco conheci as tantas cidades e regiões da Coréia do Sul, tendo passado somente pela ilha de Jeju e por cidadezinhas ao redor de Seul. Comigo é sempre assim: quando moro em um país, penso que terei tempo suficiente para conhecer isso e aquilo e que no momento o vizinho é sempre mais interessante, mas fato é que quando o vento muda, mal sobra tempo para empacotar os pertences.
Depois de todas as coisas que não fiz aqui, vocês me perguntam o que foi que eu fiz? Fora a minha dedicação à literatura (e especialmente ao teatro nos últimos 3 anos), servi de “escrava” do meu filho, de boa esposa para o meu marido e de companheira para meu cachorro, papéis que espero poder ter cumprido com grande honra, porque de mal vontade não foi.
Fora isso, posso dizer sem a mínima vergonha que curti cada momento na capital, mesmo quando xingava os descuidados motoristas de táxi no trânsito intenso, mesmo com a minha espinha gelada por conta das ameaças de um certo líder invejoso e meio maluco de um país vizinho de transformar Seul num mar de chamas, mesmo tendo que falar com os pés e mãos nas inúmeras vezes quando ninguém na rua entendia o que estava tentando dizer.
Sempre me senti especial em Seul, não só pelo fato de ser estrangeira aqui, mas pelo fato de ser bem tratada por ser uma. Que existe racismo, coreanos de duas caras, ou ainda nativos que me xingam sorrindo sabendo que nada entenderei mesmo, não procuro negar, mas posso contar nos dedos as vezes que percebi tais situações.
Após algumas experiências na minha vida em outros países onde já residi, aprendi ignorar certas situações para não me sobrecarregar com preocupações. Tal praticidade estudada e praticada (e nada natural da minha pessoa) salvou-me de grandes enxaquecas e de conversas fúteis.
Por que os coreanos agem assim e não assado? Porque sim! Se quiser, vá ler sobre o Confúcio e sobre as ocupações na península para fazer uma análise psicológica do povo (coisa que também já fiz), mas acredite que às vezes é mais fácil aceitar as coisas como elas são. É como a banana: ela é amarela com pontinhos marrons. Por que? Certamente algum expert poderá responder, mas a resposta não irá facilitar a minha vida em nada. A banana continuará do mesmo jeito.
Já que estamos falando em análise, como poderia descrever um sul-coreano hoje? Trabalhador, magro e esbelto, vaidoso, sorridente e ainda sim engolidor de tristezas (apesar de ser conhecido por ser temperamental – o italiano do Ásia), até o dia que não mais agüenta o drama e as superficialidades e se afoga no álcool ou se mata. Pode ser clichê e estar longe de ser a verdade absoluta, mas essa é a idéia geral que ficará em minha mente, o quadro que jamais poderia esquecer.
E quem poderia esquecer das ruas, lojas, restaurantes, museus e tudo mais que se possa imaginar, todos lotados em todos os dias da semana, em todos os minutos do dia? Luzes brilhantes e coloridas trazem mais vida às ruas nada mortas de uma cidade de mais de 12 milhões de habitantes. Palácios e monumentos que são um deleite para os olhos e para as lentes fotográficas. Quem poderia esquecer?
Inesquecível também é a vista da capital, por conta dos seus altos e espelhados arranha-céus em meio de construções tradicionais e de colinas coloridas, dependendo da época do ano.
O rio Han, que divide o novo centro da cidade do velho, poderia ser de maior uso recreativo e até um pouco mais romântico, mas ainda sim ele não deixa de ser um marco de Seul. A palavra Han também é prefixo de seis outros Hans que caracterizam o país: Hangeul (língua coreana), Hanbok (vestimenta coreana), Hanok (casa coreana), Hansik (comida coreana), Hanji (papel coreano) e Hanguk Eumak (música coreana). Quem poderia esquecer tantos Hans?
Já a paz e a tranqüilidade dos templos da Coréia do Sul reforçam ainda mais a estupidez da “guerra” das outras religiões. Sim, das outras, porque quem medita não precisar se dizer melhor que o outro. Não existe melhor e pior, só existe uma única paz interior.
Eletro-domésticos, smart-phones e câmeras de última geração. Carros elegantes e novos por todos os lados. Tantas linhas de metrô para deixar qualquer novato tonto. Uma mentalidade desenvolvida que não joga sujeira na rua, mesmo com a absoluta ausência de cestos de lixo. Propagandas coloridas e muitas vezes cafonas, mas sempre muito, mas muito divertidas. Cinemas, teatros e museus com excelentes programações (mas nem sempre em Inglês). O sabor apimentado da comida. As fortes tempestades do monsoon, porém como contrapartida o céu azul e o sol raiando durante o longo e gelado inverno. Quem poderia esquecer dessas e de tantas outras coisas?
Agora eu encerro o capítulo chamado “Coréia do Sul” e inicio um novo intitulado de “China”, mas esquecer da “Terra das Manhãs Calmas” seria impossível.
Dos países onde já morei fora o Brasil, da Alemanha trouxe um marido e uma nova visão de mundo. Dos Emirados Árabes Unidos um filho, um cachorro, tapetes, um livro escrito e um pouco de areia do deserto. Da Rússia dois livros escritos e várias bonecas matriushkas. E da Coréia do Sul levo comigo várias peças de teatro escritas, móveis trabalhados e coloridos, e principalmente o amor que desenvolvi pelo todo continente asiático que começou em Seul.
Vou, mas não vou, pois meu coração fica aqui. Mas mesmo não indo, indo, acho que vale dizer:
- Adeus, Coréia do Sul! E obrigada.
Luciana B. Veit