Crônicas

Vítimas da Inocência e da Malandragem

Igreja em Munique Eu não sou uma beata, no entanto acredito em Deus.

Eu não sou uma santa, mas tento pelo menos não atrapalhar ninguém.

Eu também não freqüento igreja alguma só pelo fato de acreditar que Deus está em todo lugar.

Eu tenho pena das vítimas de violência psicológica, física e dentre essa modalidade principalmente a sexual. E lidando de crianças então, me dá desgosto e até vontade de chorar.

De algumas semanas para cá temos acompanhado nos noticiários os vários casos de abusos ocorridos dentro de instituições educacionais e religiosas no decorrer dos anos 70. O que o mundo tem se perguntado é por que essas vítimas demoraram tanto tempo para se queixarem.

Tomando a Alemanha como exemplo, a geração dos jovens dos anos 70 era constituída por gente com vontade, senão com o dever de botar a boca no mundo, já que sentiam sobre os seus ombros o peso do silêncio que seus pais e avós exercitaram durante o Holocausto. Então por que?

É claro que muitos devem ter sido os tais motivos: medo, vergonha, ou simplesmente a vontade de virar a página de uma capítulo nada florido da vida. Mas quando anos mais tarde sem mais ou menos um ou dois ex-alunos resolvem encarar o passado ativamente, três, quatro e cinco seguem, mas desses cinco viram cem, dos cem viram duzentos e dos duzentos viram quinhentos.

Não estou dizendo que a grande maioria dessas pessoas que dizem ter passado por maus bocados em tais instituições religiosas tenha deliberadamente mentido, mas o que acontece é que quando se fala em dinheiro muitas perguntas surgem no ar.

Dinheiro sim, porque é isso que as vítimas estão pedindo: indenização da igreja. Para aquelas que comeram o pão que o diabo amassou nada seria mais justo, quando na verdade nenhum dinheiro do mundo poderá apagar da memória as humilhações pelas quais elas foram obrigadas a passar.

Mas será mesmo que todas as pessoas foram vítimas do mesmo caso para exigirem uma indenização, principalmente quando passadas mais que três décadas não existem mais provas reais? Pergunto-me isso porque uma coisa é levar bronca, outra coisa é levar um tapa, outra coisa é ficar de castigo no quarto e uma outra coisa bem diferente é ser forçado a favores sexuais com homens da fé, educadores que deveriam estar substituindo a imagem de pai e mãe quando esses estão ausentes.

Acusado de também estar envolvido no escândalo, Georg Ratzinger, o irmão do atual Papa, garantiu que os maus tratos em questão não passaram de alguns tapas na orelha de estudantes mal educados, coisa que era normal na época e continua sendo em escolas na Coréia do Sul, por exemplo.

E então? Em quem acreditar?

Que houveram abusos sexuais vindos de clérigos e educadores não é a questão porque sempre onde há fumaça há fogo, mas daí dizer que todas as vítimas tenham sido molestadas sexualmente seria um pouco exagerado. Ou será que sou eu quem se recusa a acreditar em tamanha monstruosidade?

Estaria eu protegendo a igreja? De jeito algum! Acho a igreja católica fora de moda e inadequada e isso não tem nada a ver com a minha fé, mas em tempos de crise financeira seria um pouco ingênuo acreditar em toda palavra que soa por aí, quando pessoas afogadas com números vermelhos em suas contas correntes vêem na rica e poderosa igreja uma maneira de ganhar uma caixinha extra, colocando sem constrangimentos a vergonha de ter que passar pelo papel de coitadinho/a de lado.

Como mencionei antes, difícil no caso dos alunos dos colégios internos que foram abusados nos anos 60, 70 e até 80 é provar a veracidade dos relatos. Quem sabe um detetive experiente e expert em casos frios tenha mais sorte.

É claro que existem fatos absolutamente verdadeiros e por isso dolorosos, mas todos nós sabemos que com a idade avançada alguns idosos tendem a esquecer coisas. Contam histórias que já contaram um milhão de vezes e confundem as datas dos aniversários (senão até os nomes) dos próprios filhos. É por isso que estou espantada com os detalhes dos abusos que as vítimas, todas acima de 50 anos, vem entregando para quem quiser saber.

Não sou psicóloga mas imagino que momentos marcantes, positivos ou negativos, são difíceis de esquecer, mas às vezes tenho dúvida se aquilo que os idosos tem contado por aí não seria uma mistura do fruto da imaginação, com a experiência do colega mais o medo de que a mesma experiência viesse a acontecer com eles mesmo.

Eu tenho 33 anos e há mais ou menos cinco anos fiz uma terapia de regressão. Apesar da emoção vivida, cheguei a me perguntar mais tarde se tudo aquilo que “vi” se tratou de uma lembrança real de uma vida passada ou de uma estória bem bolada, onde tudo fez sentido. Bom, acho que nunca saberei ao certo, apesar de estar mais inclinada a acreditar na lembrança real.

Alguns devem estar pensando: A igreja é rica, então vamos esfolá-la! Quem se importa?

Que tal a moral? Se parte da instituição “igreja” esqueceu no meio da caminho o que a palavra significa, ou se ela não verdade nunca aprendeu isso mandando os padres falarem de vida quando não podem viver a vida plena por conta do celibato, nós não precisamos agir da mesma forma.

Criminosos e pecadores devem sim ser punidos, mas a justiça e a integridade devem prevalecer.

Talvez essas não passem de hipóteses baratas minhas, mas talvez não. Sempre existirão duas possibilidades. E a quem cabe de ir em frente com elas? As verdadeiras vítimas que merecem muito mais do que um pedido oficial de perdão, uma gorda indenização e uma cadeira de camarote para verem os culpados serem castrados.

Com ou sem a verdade, a vida continua. Se essas pessoas resolveram se pegar no passado até seus últimos suspiros, isso seria uma pena. Não que elas deveriam ter ficado caladas e conformadas com suas tragédias, mas se as ex-vítimas ficarem remoendo tristes lembranças por um longo período, mesmo após as devidas acusações oficiais, irão certamente se arrepender de não ter vivido alguns momentos felizes na última etapa dessa vida.

É preciso saber lavar as mãos e a alma, e acima de tudo tocar a bola para frente quando tudo o que estava ao nosso alcance foi feito.

Espero que os culpados dos abusos sejam punidos, que as vítimas tenham uma noite, ou melhor várias noites tranqüilas de sono. E principalmente espero que as crianças de hoje jamais percam sua inocência por conta de jogos sujos, imorais, perversos e macabros que pessoas fantasiadas de homens de fé e de sabedoria tem a audácia de negar o mais forte de todos os apetites humanos.

Luciana B. Veit

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Escola de Esposas

School for Woman “École des Femmes” do machão (ou brincalhão) Jean Baptiste Poquelin, mais conhecido por Molière, teve sua première datada em 1662. De acordo com a peça, a noiva perfeita é aquela que passa alguma parte da infância e a maioria parte da adolescência no convento. Ela sairá de lá virgem e boazinha e principalmente pronta para obedecer o marido assim que se casar. Será?

Na ópera “Cosi fan Tutti” de 1790, Wolfgang Amadeus Mozart e Lorenzo da Ponte acreditavam que todas as mulheres (principalmente as casadas) eram igualmente infiéis de corpo ou mente, caso oportunidades irrecusáveis lhe cruzassem o caminho.

Já no Quênia hoje, uma mulher resolveu abrir uma espécie de escola para ensinar as mulheres nativas a se tornarem melhores esposas, no caso, melhores amantes, porque de acordo com a diretora do programa “fazer amor é uma cerimônia”. E por que tal escola? Porque para a maioria dos quenianos as mulheres não tem necessidade de aprender nada sobre sexualidade, já que o prazer não foi criado para elas mesmo.

No Reino Unido uma escola de futuras esposas oferece cursos atuais com a duração de um mês onde diversos tópicos relacionados à função da “rainha do lar” serão discutidos. Esses tópicos vão da importância sobre o cuidado pessoal (saúde, higiene e vaidade), da etiqueta social (andar, sentar, falar, cumprimentar e receber convidados corretamente), danças de salão até a técnicas avançadas na cozinha.

Mas os britânicos não estão sozinhos nessa, porque o Instituto de Etiqueta e Sabedoria (conhecido localmente por Yejiwon) em Seul, Coréia do Sul, ensina que uma mulher só pode colocar a mão direita sobre a esquerda e não o contrário, e que ela tampouco pode deixar o futuro marido segurar sua mão logo de cara, mas sim somente após a terceira tentativa. Elas também aprendem em quais ocasiões podem servir o macarrão comprido e que jamais podem dizer aos maridos o que eles tem que fazer, nem mesmo se isso for do tipo: “Alô? Querido? Antes de chegar em casa do trabalho, poderia trazer pão e leite?”

As jovens sul-coreanas apesar da modernidade, acreditam que exista a necessidade de mais proteção a tradição, e é por isso que escolas como a Yejiwon não precisam contar as moscas. Agora as estrangeiras casadas com sul-coreanos que não agüentarem a barra de regra para isso e para aquilo, podem correr para Myeongrak Village, um abrigo que cuida de estrangeiras que resolveram largar dos maridos coreanos.

E para quem ainda não leu o “guia da boa esposa” que tem sido espalhado pela internet, aqui um tira-gosto:

“Dê um jeito para que o jantar esteja pronto, é uma forma de lhe dizer que você pensou nele e que você se preocupa com as necessidades dele.

(…) Reduza todos os barulhos ao mínimo. No momento que ele chegar, elimine o barulho da máquina de lavar ou do aspirador. Tente fazer as crianças ficarem calmas.

Escute-o. Deixe ele falar antes, lembre-se que os assuntos dele são mais importantes que os seus.

(…) Deixe-se guiar pelos desejos dele e não faça nada para pressionar, provocar ou estimular uma relação íntima. Se seu marido sugerir o acasalamento, aceite com humildade não esquecendo que o prazer de um homem é mais importante que o da mulher.”

Casada há mais de 10 anos eu posso dizer que tive mais dias agradáveis com meu marido do que desagradáveis, mas será que eles teriam sido 100% agradáveis se eu tivesse me matriculado numa escola de esposas ou seguido à risca o infame guia? Lembro-me que fui obrigada pelo padre da igreja onde me casei a participar de um curso pré-nupcial, mas para falar a verdade, o conteúdo sumiu da minha mente ao longo dos anos. Será que ele era óbvio demais ou completamente passado e absurdo, levando em conta a sociedade em que vivemos entre mulheres que aprenderam a se dar valor?

Não se trata de uma visão feminista, longe disso, mesmo porque às vezes me pergunto se uma mulher consegue mesmo ser uma heroína quando equilibra carreira, família, vaidade e ainda hobbies, sem que nada sofra nessa situação multi-tasking.

Mas como ia dizendo, será que o homem não teria uma companheira muito mais interessante justamente por conta das suas surpresas, das mancadas históricas, da falta de conhecimento de algumas regras e principalmente por conta da sua liberdade de pensamento? Afinal, as regras não foram feitas para serem quebradas?

Luciana B. Veit

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Tudo sob controle!

Temple Guard Voltemos àquela história de controle. Ele é bom ou ruim? Necessário ou desnecessário?

Através da telepatia com meus leitores e algumas experiências pessoais, poderia citar tantos exemplos de situações onde o controle que tentamos manter sobre terceiros é prejudicial ou não, mas para a fluência do texto, vou procurar compreender somente algumas delas:

Uma jovem família (pai, mãe e dois filhos) concorda em mudar de país. Acontece que trabalho ali não está garantido e muito menos a fluência do idioma estranho, pelo menos no início. Vantagem: Deixando a vida tomar seu rumo natural, sem regras controladas, eles estarão vivendo um sonho, sem grandes arrependimentos no futuro. Desvantagem: Nem sempre as surpresas são boas e na maioria das vezes as coisas não são mesmo do jeito que a gente imagina, independentemente dessa ser uma visão positiva ou negativa.

Chaffeur de qualquer coisa que tenha rodas, piloto de avião (grande ou pequeno) e de helicóptero, sem esquecer do capitão de navio. Vantagem: Poder relaxar, meditar ou curtir a vista quando existe uma. Desvantagem: Entregar sua vida na mão de uma outra pessoa, que na maioria das vezes é um estranho.

O marido faz questão de se encontrar com os amigos (sem a esposa) para uma bela soirée social uma vez por semana. Vantagem: Ele se sente livre e lhe é grato por isso e a relação a dois até se fortifica na base de tanta confiança. Desvantagem: Sem a esposa por perto algo inesperado pode acontecer quando ele bebe demais e sai dirigindo, ou quando uma linda gata de longas pernas lhe cruza o caminho.

O filho pequeno, digamos 7, 8 ou 9 anos de idade faz questão de ingressar em um curso de ski quando a própria mãe não esquia. Vantagem: Ele irá se divertir, irá aprender apreciar e respeitar a natureza – fora as técnicas do esporte – e voltará para casa se achando o dono do mundo, dizendo: Meu Deus, eu sou bom mesmo! Desvantagem: A ausência do controle detalhado da mãe nos afazeres do filho pode não protegê-lo dos perigos que as pistas apresentam no geral, seja a respeito de outros esquiadores ou a respeito da falta da técnica apurada. Sem contar que nós, pais ou filhos não controlamos o perigo real da mãe-natureza, quando ela resolve relembrar os simples mortais quem é que manda, fazendo o tempo virar repentinamente ou causando uma avalanche que mínima ou colossal trará problemas sérios – físicos ou psicológicos – para qualquer um que consiga viver para contar.

E o bendito (ou será maldito?) cartão de crédito? Vantagem: Sentimento de poder, milhas, praticidade e maior segurança se comparado com dinheiro vivo em termos de criminalidade. Desvantagem: Falta de controle, pelo menos para a maioria da população que não está acostumada a fazer continhas em casa.

Comunidades online tipo Orkut e Facebook. Vantagem: Controle do tempo e do tópico discutido com os amigos (nem que imaginários) e preenchimento de um tempo negro principalmente na vida dos solitários, que dão graças de possuírem um computador nas horas mais escuras e mais vazias dos seus dias. Desvantagem: Comunidades online exterminam a privacidade e te expõem eternamente sabe lá para quem, já que a internet não é anônima e tampouco nada esquece.

Mostrar raiva, alegria, desejo, desconfiança ou vontade de chorar para uma outra pessoa significa tirar a máscara e se deixar levar, sem controle algum de como a outra pessoa irá receber essa “abertura”. Vantagem: Simplificar a relação através de uma comunicação mais direta. Desvantagem: Abrir a porta para a sua mais íntima sensibilidade e vulnerabilidade para alguém que talvez venha a desmerecer tamanha confiança.

Governo mão de ferro. Controle de informação. Vantagem: Ordem. Desvantagem: Prisão interna e prisões externas.

Animais de estimação em casa, digamos um cachorro. Vantagem: Controle sobre a vida de um ser vivo (estranho?), e o companheirismo e amor incondicional vindo dele. Desvantagem: Uh… Desvantagem? Bom… Ah! Falta de controle sobre a selvageria dos animais, quando eles se esfregam na perna da bisavó e soltam fezes no tapete persa.

Ler esse e outros textos do meu Semanal. Vantagem: Aproximação mútua quando vocês descobrem o que tem se passado pela minha cabeça e quando recebo comentários que revelam o que tem passado na cabeça de vocês. Desvantagem (mas só para os mais preguiçosos): Dar de cara com o fato que escrever e ler é tão fácil e fluente como tirar um cochilo numa rede na varanda de um quarto de frente para o mar. E para isso, quem é que não gosta de perder o controle da hora e do espaço?

Luciana B. Veit

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Reações do Inacreditável

Water A onda de frio extremo no hemisfério norte, incluindo a Coréia do Sul, e a minha ausência por algumas semanas levaram ao congelamento do tanque de água em minha casa aqui em Seul.

Primeira reação:
Não pode ser.

Segunda reação:
Iiih, é mesmo! E agora?

Terceira reação:
Como faziam nossos antepassados na época de Mozart, mesmo?

Quarta reação:
Vou saltar da minha sombra é mostrar a mim mesma do que sou capaz sem água corrente!

Quinta reação:
Esses galões de água mineral para escovar os dentes e lavar o rosto, além da máquina de lavar louça para o estoque da sujeira da cozinha tem sido minha salvação.

Sexta reação:
Essa tigelinha de merda e esses pedacinhos de algodão estão começando a me tirar do sério.

Sétima reação:
Já sei! Vou me acampar no clube: assim tenho comida, ducha e o melhor de tudo, toalete ao meu favor!

Oitava reação:
O cachorro fez xixi na neve do terraço? Não vou dar nem bronca dele não ter ido no jardim. Na verdade, deveria é tomar isso como exemplo.

Nona reação:
Seus trabalhadores incompetentes! Por que não conseguem dar um jeito no problema, hein?

Décima reação:
Eu quero alguma forma de compensação! Ou melhor, eu quero é áaaaaaaaguuuaaaaaaaa!!! Acho que já aprendi a lição de não esperar perder uma coisa para dar valor, muito valor à ela!

Luciana B. Veit

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Fim de Ano na Alemanha

Eibsee Eu sei. Já estamos em 2010, mas além de desejar a todos um grande início nesse novo ciclo, gostaria ainda de contar por cima como foi meu fim de ano na Alemanha – que não passei sozinha, claro.

Bom, mais uma vez de passagem por Stuttgart com a aura de Mercedes-Benz por detrás de cada sombra, deixamos o romântico e detalhado Mercado de Natal para trás com os termômetros marcando abaixo de zero, empacotados com jaquetas pesadas e coloridas e com nossas bocas e orelhas amortecidas pelo frio, com nossas bochechas e narizes rosados e com os dedos das mãos e dos pés gritando por água quente.

Mas mesmo com a nossa ausência, os tetos dos pequenos e apertados stands continuariam esbranquiçados pela neve – pelo menos até a véspera da véspera do Natal – quando por debaixo deles os bonecos de madeira permaneceriam em seus postos na esperança de ganharem um novo lar; quando seus salsichões, pratos de chucrute ou vinho quente viriam por goela abaixo dos famintos e sedentos clientes, e quando o perfume de canela no ar reinaria por excelência, sem contar a presença dos adolescentes nada miseráveis, que cantando e tocando musiquinhas natalinas ao ar livre, contribuíam de corpo e alma para um ambiente inesquecível, visando mais o engajamento social do que as moedinhas como aplauso.

A imagem do velho gordo, barbudo e de roupas vermelhas que carrega um saco pesado nas costas acaba virando coisa secundária na alma do Mercado de Natal – destacando o de Stuttgart, que já há alguns anos colocou o famoso de Nürnberg no bolso – porque ali o que conta não é uma imagem, mas sim a mistura de todos os ingredientes ao mesmo tempo, que vão de bolas de vidro à lebkuchen (biscoitos tradicionais que datam do século XIII que lembram os pães de gengibre, mas que são preparados com mel, canela e nozes), com Friedrich Schiller abençoando todos que se divertem aos pés de seu monumento na praça que leva seu nome.

Novamente com o pé na estrada chegamos na cidade de Garmisch-Partenkirchen, nos Alpes Alemães, após aproximadamente quatro horas de viagem, maravilhados com a vista que apesar de já termos visto com freqüência, nunca deixava de impressionar, fizesse sol, chuva, neve ou cara feia de nuvem pesada e escura.

Ski de lado, ignoramos as filas nos teleféricos e curtimos o que pudemos de cima das montanhas da cidade, o que nos fez lembrar que não somos nada se comparados à força da natureza. Mas uma vez lá em baixo, observamos os turistas de passagem e os chiques moradores da região com seus casacos de pele, jóias e cachorros bem cuidados à tira-colo. Igrejinhas com cúpulas de cebola, casas com tradicionais e antigos frescos bavários muitas vezes até tridimensionais, restaurantes aconchegantes com música ao vivo e a dança da calça de couro (Schuhplattler), e claro as canecas gigantes de cerveja realçavam a nossa estada (mesmo para aqueles, que como eu, tem certa dificuldade para apreciar a bebida).

Mas para que se dar ao luxo de visitar uma região montanhosa no inverno europeu se a pessoa não tem disposição alguma seja para esquiar ou pelo menos para escorregar de trenó nas pistas tão convidativas? Por mais que alguém não seja tão esportivo assim, tudo é esquecido no ar puro da montanha. Ali subir e descer a montanha vira brincadeira de criança.

Falando em criança, quem é que não fica de queixo caído de frente a um dos lados mais bonitos do mundo, que se situa aos pés da montanha mais alta da Alemanha – o Zugspitze – e que com suas sete ilhas e diversas prainhas a praticamente mil metros de altitude, recheado de águas puras, esverdeadas e geladas com uma profundidade máxima de 35 metros e visão subaquática de 10 metros encanta qualquer mortal?

Pois é! O lago Eibsee, que fica a somente 13 quilômetros da maior cidade alpina do país, é tão lindo que ficar somente parado observando-o não é suficiente. No verão as pessoas andam de barco, de pedalinho e nadam nas águas cristalinas – sem dizer que até bebem direto da fonte. Já pescar no Eibsee só pode quem possui uma licença especial para tal.

Por isso, com o lago parcialmente congelado, resolvemos andar em volta dele, explorando-o assim ao máximo. Sabíamos que a giro duraria por volta de duas horas e mesmo cientes que o sol se põe bem mais cedo no inverno, ignoramos os sinais e os olhares surpresos daqueles que passavam pela gente, acabando de fazer o tour.

Estressados em filmar, bater fotos, andar e suspirar de contemplação quase ao mesmo tempo, seguimos a trilha à beira do lago automaticamente. O ar frio rosava nossas bochechas e narizes, mas como estávamos bem agasalhados e sempre em movimento, nem mesmo sentimos nossas extremidades gelarem.

Com o céu escurecendo vagarosamente, começamos a bater menos fotos e a andar um pouco mais rápido, porque mesmo que a trilha fosse óbvia, nosso plano não era de sermos os únicos no escuro, porque o único prédio do lago inteiro era o hotel de mesmo nome.

A cada dez minutos nossos sentimentos mudavam: de fascinação pela estranheza em si do lago vazio, frio e iluminado unicamente pela lua cheia (sorte nossa!), a um medo inexplicável. Medo de gente louca escondida por detrás de alguma árvore. Medo de fantasma. Medo da escuridão. Medo de avalanche. Medo de sentir medo. Medo de não podermos escutar à fundo todos os ruídos ao nosso redor porque nosso coração palpitava alto demais e nossos próprios passos abafavam qualquer outra coisa que deveríamos ou não estar ouvindo. Só que medo de animal selvagem, principalmente de urso, não precisávamos ter, já que naquele instante imaginávamos que não existiam mais nenhum deles por ali.

Acontece que quando estava um poucos metros na frente do meu marido e filhinho, gelei em uma das curvas do lago quando avistei um animal marrom e grande, que curvado saia dos meio dos pinheiros em direção à trilha principal. Parei automaticamente e me voltei para minha família, avisando para que ficassem quietos sem mover um músculo sequer. No passado já havia encontrado um touro solto aos pés da montanha Jenner, na região bavária de Berchtesgarden, que levemente me tocou com seu chifre avisando que deveria sair de lá. Por isso dessa vez não tive dúvidas quanto ao que acabara de avistar. É claro que ninguém conta com uma situação dessa, mas quando ela se desenrola, o que fazer?

Primeiramente meu marido não acreditou e até riu, mas quando sentiu minha seriedade, aconselhou que voltássemos vagarosamente. Acontece que voltar agora não seria nada ideal, porque já havíamos percorrido mais do que a metade do trajeto, mas fazer o que? Enfrentar um urso solto na escuridão da beira do Eibsee? Nein, vielen Dank! Nesse instante que pareceu ser eterno, olhei em volta à procura de um esconderijo caso necessário, e temi principalmente pelo meu filho. No entanto, antes que pudéssemos chegar à conclusão ideal, relaxei ao ver a feição risonha do meu marido, que olhando em direção do suposto urso, se deu conta de que se tratava de um grande, ou melhor, de um enorme cachorro solto, com seus donos a somente alguns passos atrás dele.

- Grüß Gott – salutaram os donos do animal quando passaram por nós em passo de jogging e isso simplesmente nos fez rir, de alívio.

Me dei conta que a inconsistência da minha mente naquele instante que oscilava entre felicidade por estar me sentindo privilegiada, ao medo de estar sozinha com minha família de noite no meio da amedrontadora natureza pudesse ter plantado uma visão irreal na minha mente, dessas imagens que os beduínos tem de um oásis no deserto.

Fato é, que apesar dessa ter sido uma experiência inesquecível (se tratando de gente da cidade, como nós somos), ficamos mais do que aliviados de podermos voltar para nosso hotel, entrar na ducha quentinha e saborear um jantar divino à base de um ótimo vinho (e suco de maçã para o pequeno grande), e um buffet mais do que rico com as especialidades da cozinha local. Nossa cama fofinha nunca nos acolheu tão bem.

No dia seguinte, rimos da situação da noite anterior e resolvemos perguntar ao senhor Google se ele conhecia de fato alguma história de ursos selvagens na região do Zugspitze. Para a nossa surpresa e choque, lemos em diversos artigos locais que até 2006 não se via um urso por ali há mais ou menos 150 anos, mas que há três anos, um urso (dos trinta que ainda habitavam a região alpina do Tirol) havia prestado uma visita aos arredores de Garmisch-Partenkirchen, e que inclusive havia sido avistado no próprio Eibsee à noite. Ele chegou a matar ovelhas, galinhas e inclusive a atravessar a rua principal do vilarejo de Grainau, o mais próximo do lago.

Nosso riso sumiu do rosto e seguimos viagem. Num dos campos de concentração do Terceiro Reich em Dachau, próximo a Munique, introduzimos os tristes fatos por debaixo da lupa ao nosso filho e deixamos o local nos sentindo pesados.

Já os fogos de artifício da virada do ano do alto do vale da capital da Suábia nos trouxe de volta a excitação e a gratidão por estarmos vivos e praticamente já de mala feita para em poucos dias retomarmos nossa rotina no coração da Ásia, já de olho na próxima viagem.

Luciana B. Veit

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2010, o Passado e o Futuro

Firework Lendo o jornal há poucos dias me deparei com algo mais do que óbvio: estamos para entrar em 2010!

Um dígito a mais nesse novo milênio me faz lembrar dos filmes de ficção-científica que assistia na década de 80. Naquela época quando se pensava em como o dia-a-dia em 2010 seria, as pessoas imaginavam carros voadores, robôs por tudo que é lado, tecidos multifuncionais, chips dentro dos cães e gatos que traduzem no nosso idioma aquilo que tanto querem dizer, diversos prédios com mais de cem andares e quem sabe até vizinhos como extra-terrestres.

Quem se importava com o meio-ambiente? Somente os malucos de alguma organização hippie. Aquela ainda era a época quando bibliotecas ainda eram visitadas, quando viajar de avião de lá para cá era coisa de rico, quando pagar uma ligação para o exterior era uma facada no coração, quando as crianças ainda brincavam de amarelinha ou de pular elástico.

Após ter observado diversos fatos históricos por conta da pesquisa para meu livro Mozart e Catarina, afirmei que a humanidade pouco havia se desenvolvido ao longo dos séculos. Houve protesto. Como eu poderia dizer tal coisa? Sou tão cega a ponto de não enxergar as coisas ao meu redor? Acontece que estava mencionando a raiz do ser humano, e não seus feitos materiais.

Homens continuam matando em nome da religião, e independentemente daquilo que venham dizer, as mulheres continuam sendo suas inspirações. Sentimentos como egoísmo, alegria ao ver o outro sofrer, orgulho desmesurado e preguiça continuam os mesmos.

Tragédias pessoais se desenrolam por conta de sexo e também por mais que saibamos qual caminho certo tomar, acabamos por vezes tomando o errado por fé na sorte ou uma falsa ignorância.

O passado nos ensinou que a guerra só traz tragédia, mas hoje mesmo líderes afirmam que só se pode acabar com violência com mais violência ainda. Por mais que até acreditemos essa ser a solução, onde é que isso vai parar?

O passado causou danos à natureza, no entanto nem mesmo a metade dos habitantes do planeta atualmente compreende o que cuidar do meio-ambiente significa.

Há quem diga que a escravidão foi abolida, mas que outro nome dar então para trabalho infantil, para horas-mal pagas, para a total e completa exploração da mão-de-obra mais simples, principalmente quando esses trabalhadores vivem ilegalmente em algum outro país?

E os direitos das mulheres? Vale destacar que as mulheres no Egito Antigo já tinham muito o que dizer, mas ainda sim circuncisões femininas hoje são forçadas em diversos países muçulmanos.

O complexo de inferioridade de muitos causam conflitos, da mesma maneira que o complexo de superioridade promove a violência sob todos os aspectos.

Complexos e mais complexos! Por que não podemos viver em paz?

Computadores de velocidades supersônicas, viagens turísticas ao espaço, fontes naturais de energia, considerável progresso da biologia, carros possantes com combustíveis alternativos, reconhecimento em massa de si mesmo. Saúde, novas idéias combinadas com uma força de vontade inabalável, ótimas surpresas, momentos inesquecíveis. Amor, amor e mais amor, para si mesmo, para aqueles do círculo mais íntimo e para a humanidade. Algo mais?

Mesmo aqueles que não comemorarão o Natal sob o ponto de vista religioso, quem é que vai discutir que o amor universal tem o poder de terminar com todas as desgraças?

E quanto a 2010, deixe o futuro chegar! Vamos embarcar nessa viagem com entusiasmo e disposição, com alegria e satisfação e fazer acontecer, por mais que ainda não possamos ler a mente dos nossos queridos animais de estimação ou dar um pulinho em Marte só para mudar de ares…

Boas Festas!

Luciana B. Veit

Publicado em Crônicas 2009 | Tagged , , | Fechado para comentários

Crime e Tempo

Hand in Chains Roman Polanski, o diretor de filmes como o Pianista, Chinatown e Rosemary’s Baby (e um dos meus favoritos, senão o meu favorito) está em prisão domiciliar em Gstaad, Suíça, aguardando o seu destino por ter drogado e estuprado uma adolescente norte americana de 13 anos em 1977. Mas todo o mundo já sabe disso.

Uma velhinha de 98 anos que sofria de demência matou sua vizinha do asilo de 100 anos nos Estados Unidos por conta de diversas discussões sobre bobagens, e por último sobre a posição de uma mesa, o que seria fatal para uma delas. Mas você também já deve ter ouvido falar do crime.

E aquela garota de 22 anos de rosto de anjo e olhos de gelo, Amanda Knox, que foi condenada a 26 anos de prisão por ter, juntamente com seu namorado e um outro sujeito, supostamente assassinado sua colega de quarto na Itália há dois anos? Esse tampouco é um furo jornalístico.

O que esses três crimes de alta audiência tem em comum? A discussão sobre o tempo em geral.

Quando Roman Polanski fugiu dos E.U.A. para a França, ele soube gozar a sua vida. Apesar de sua primeira esposa ter sido brutalmente assassinada e de seus pais terem morrido no campo de concentração nazista, durante os 32 anos a partir de 1977 ele casou-se novamente, teve filhos, rodou filmes, produziu um musical e até ganhou um Oscar, sem contar que sua vítima o perdoou em público e até pediu para as autoridades largarem o caso. Em vão.

A pergunta que fica no ar é: apesar desse crime ter ocorrido há mais de três décadas, será que ele deveria ser perdoado e esquecido pela justiça? A lei continuará tendo mais poder do que os sentimentos? Por mais que o nobre diretor não tenha cometido o mesmo erro uma segunda vez, os anos que passaram apagaram seu passado?

Por mais que a vítima diga: “Não tem problema porque eu já esqueci esse assunto”; criminosos copycat só continuam observando. Eles vão achar genial ter essa possibilidade de se safarem de seus crimes só porque as vítimas o perdoaram.

Jesus nos ensinou o perdão, mas também a conseqüência. Nosso mundo já está longe de ser perfeito, mas quando o significado da conseqüência não valer mais nada, aí estaremos perdidos de vez.

Agora o que fazer com a velhinha assassina? Leiga nos assuntos da lei, passo a pergunta para os entendidos. Será que é fácil condenar alguém e mandar o assassino para o hospício quando for provado que trata-se de fato de problemas mentais?

Tem muito idoso por aí só aguardando, senão torcendo para que algo o tire da chatice da rotina. Eles estão fartos de contar os dias para morrerem. Eles se sentem inúteis e bastante fracos para começarem um novo negócio, para aprenderem um novo idioma, ou para cantarem no coro de uma igreja qualquer. Sabendo que estão com o pé na cova, aqueles que não temem Deus devem estar articulando idéias macabras nesse mesmo instante, tomando a “heroína” americana como exemplo.

Talvez o caso dela tenha realmente sido um ato demente, mas também poderia ter sido algo do tipo: “Quando foi a última vez que fiz uma coisa pela primeira vez? Já que estou velha mesmo, não vou para a cadeia, e mesmo se for, não me resta muito tempo mesmo”.

Já com a Amanda Knox a situação é diferente. Ela não está com o pé na cova e nem possui excepcionais atributos artísticos para protegê-la. Senhorita Knox já está cumprindo pena em uma penitenciária italiana. A questão referente ao tempo aqui é a seguinte: se realmente foi ela que assassinou sua colega simplesmente por ela ter se negado a participar de uma orgia, o tempo na prisão irá curar a ruindade de seu coração? Diferente dos casos acima, Amanha Knox será libertada da prisão na faixa dos 40 anos, senão antes por conta de bom comportamento – ou sei lá eu. De novo, repasso a questão para os experts.

Uma das poucas coisas que sei da vida, é que as pessoas dificilmente se modificam. Elas até podem mudar um pouco aqui e ali, fazer um “face-lifting” afim de se reintegrarem na comunidade, mas a essência geralmente continuará para sempre a mesma. Imagino que existam exceções, mas eu pessoalmente não conheço ninguém que tenha se transformado 100%, independentemente das peças que a vida já tenha pregado.

Isso significa então que Polanski continua sendo um tarado safado? Que a velhinha sempre teve vontade de matar alguém? E que a jovem estudante curtia viver a vida à beira do abismo, achando que tirar a vida de uma nerd nunca passou de uma experiência de laboratório?

Calma! Não vão me processar por isso! Foram só três perguntas que talvez o mundo nunca virá a conhecer as suas respectivas respostas. E se ainda tivermos a sorte de conhecer a verdade um dia, só o tempo dirá quando.

Luciana B. Veit

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Mortais e Celebridades

Gerhard Schroeder “Sleeveface” é uma espécie de fotografia quando a pessoa fotografada pega a capa de um antigo LP onde o artista só aparece com a cabeça e dá continuidade com o seu corpo, usando as mesmas cores da roupa e fazendo provavelmente as mesmas poses do cantor ou da cantora.

E para que? Para que o mortal se sinta na pele de uma celebridade do dia para noite.

É claro que nesse contexto estar no papel de uma celebridade não é muito levada a sério, e sim na brincadeira (e na maioria das vezes até na gozação).

Mas é fato que muitas pessoas sonham com a fama, imaginando-se distribuindo autógrafos, ou se escondendo dos paparazzi nas ruas. A fama traz consigo um círculo de gente bonita, sem dizer rica. Injusto é que quanto mais influente e rica a pessoa é, menos ela gasta.

É convidada para festas e jantares, viagens ao exterior e passeios nacionais de helicóptero ou yacht. Essa famosa até ganha cachês de vez em quando para fazer aparições com os minutos contados em eventos públicos e ainda usa jóias emprestadas dos próprios joalheiros. Como se fosse pouco, torna-se musa de grandes estilistas e recebe alguns milhões de Euros só para endossar campanhas publicitárias.

Como anda o coração? Ora, quem se importa? O importante é sempre ter uma senhora companhia a tira-colo para qualquer saída. Os fotógrafos se encarregarão de escrever o relatório.

O famoso tem essa áurea especial em volta de si, como um ímã. Atrai pessoas mesmo nos momentos que ele tanto gostaria de poder ser normal de novo; poder ir ao cinema sem disfarce, comer em uma pizzaria no sábado à noite sem histeria, passear no calçadão da praia ou na 5th Avenue sem literalmente parar o transito.

Quando era adolescente também sonhava em ser famosa como a Cindy Lauper ou como a Brooke Shields, mas hoje sei o quanto prezo a minha liberdade. Amo viver em cidade grande por conta da anonimidade. Encontro-me com amigos quando sinto vontade e não tenho obrigação de ir ao super-mercado 100% produzida só para o paparazzo não bater uma foto feia minha.

O mais engraçado é que já tive tantas oportunidades de encontrar muita gente famosa na minha vida e toda vez que encarei com eles, foram raríssimas as vezes que vi alguma graça. Não sei se é porque sou mais alta do que a maioria, mas que a verdade seja dita: esses famosos não passam de seres-humanos com forças e fraquezas, com mudança de humor, com cheiro natural de pele (ou camuflada por perfumes caros), com certezas e incertezas, com medo e bravura, com sede e fome e também com necessidades biológicas.

Antes de você imaginar a perfeição do endeusado ator X, do talentoso cantor Y ou daquele carismático político de enorme peso internacional, lembre-se que todos eles cortam as unhas dos pés e se aliviam nos toaletes diversas vezes ao dia.

Mozart já dizia algo parecido na segunda metade do século XVIII: “Conhecer o Papa pessoalmente na Itália foi legal, mas no fim ele não passa de uma pessoa de carne e osso”.

Acho que o que mais nos fascina nos famosos é o mistério de como eles nos fascinam.

De mortal a celebridade. De celebridade a imortal. Será?

Bom, a história diz que nem sempre é assim…

Luciana B. Veit

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O Pior Inimigo

Blue Eye Sempre achei a palavra inimigo muito forte. Até cogito o fato dela ter um outro significado para mim do que para os demais. E por que?

Porque no fundo do peito custo a acreditar que alguém possa ser tão cruel a fim de querer de fato acabar com a vida de um terceiro. Isso é muito grave.

Soldados na guerra matam para não morrerem. Isso já é grave o suficiente, principalmente para o subconsciente, mas olhando a situação friamente, não houve nada pessoal ali. Na maioria das vezes, esses soldados nem mesmo sabem o nome da pessoa que acabaram de mandar para o outro lado da vida.

Como resido em Seul, onde as tropas americanas estão estacionadas há décadas e não tem previsão de despedida, deparo quase que diariamente com os militares do Tio Sam. Escuto a rádio deles e tenho até a impressão que a vida deles aqui é boa demais. Mas então me pergunto: independentemente dos benefícios que o governo norte-americano possa oferecer para aqueles que colocam seus sangues e almas à disposição, será que esses jovens aspirantes já se perguntaram se estariam preparados psicologicamente a matar alguém no caso de necessidade?

E o que é necessidade? Imagino que a maioria de nós estaria sim disposta a matar um marginal – mesmo que automaticamente, sem grandes estratégias por detrás – quando esse colocasse a nossa vida ou a vida daqueles que amamos em perigo. Mas esse “acidente” seria mais um reflexo do que um plano.

Já os soldados não. Eles sabem que quando treinam com armas, é para um dia utilizá-las. E tal disposição para matar seria coragem, frieza ou pura alienação?

Sem precisar explicar a frieza e a alienação à fundo, exalto pelo menos a coragem nesse contexto, porque aqui na Ásia suicídio nem sempre é visto como algo terrível. Tratando-se de homens e mulheres de responsabilidade, a ato de tirar a própria vida é visto com a última prova de bravura – e de honra.

E o que o suicídio tem a ver com esse texto? Tudo!

Deixando os hediondos crimes dolosos e atos de guerra de lado (aqui guerra mesmo, e não disputas entre chefes de organizações criminosas e a polícia), sempre esteve claro como a água que o nosso pior inimigo somos nós mesmos.

Poucas coisas não temos como influenciar, bem diferente da maioria das coisas. “Tudo está na cabeça”, digo quase que diariamente ao meu filho quando ele se queixa de coisinhas minúsculas. Mas quando ele se esforça para entender a frase, se dá conta de que realmente isso se trata de uma grande verdade, a verdade que infelizmente poucos se dão o trabalho de refletir.

Se os problemas do trabalho não dependem perpetuamente do seu positivismo, pelo menos os pessoais contam desesperadamente com ele.

Aqui voltamos ao livre-arbítrio e talvez até a maior pergunta de todas: por que estamos aqui? Para nos deixar levar como peixinhos numa correnteza?

Observando a vida com objetividade, como é que poderia deixar de achar que todos os viciados são fracos e suicidas, por exemplo, já que a escolha dos caminhos sempre foi e sempre será nossa?

Quem nunca tomou um porre ou fumou um baseado na vida (ou que ainda os faça com enormes intervalos) que atire a primeira pedra. Porém por mais que esses instantes de êxtase – que não são melhores que sexo quando praticado com amor – sejam intensos e atenuadores das dores da alma, eles passam com rapidez deixando um buraco ainda maior no peito, uma vontade e uma certeza ilusória de que ele pode ser preenchido de novo.

A única coisa que pode preencher nossos abismos de dor são atos positivos com nós mesmos e/ou com os outros. Por mais que às vezes a dor nos proporcione até um irracional prazer momentâneo, sabemos muito bem que nós temos o poder de virar o jogo mas aí a preguiça – outro grande inimigo – acaba falando mais alto.

Quando uma coisa ruim acontece, será essa uma piada sem graça do destino, ou um belo tapa na cara do tipo “Acorda para vida, cara”?

Estar bem consigo é essencial para poder estar bem com tudo e todos ao redor.

Quando jovens decidem virar soldados é por falta de inspiração. Quando criminosos decidem acabar com aqueles que cruzam seu caminho é por falta de solução. E quando tomamos uma carona na vida sem controle algum daquilo que acontece conosco é por falta de auto-conhecimento.

Não é à toa que os antigos já diziam: “Conheça teu inimigo”.

Luciana B. Veit

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Quando planos furam

Onions Duas das maiores virtudes do homem são sem dúvida a espontaneidade e a flexibilidade porque elas são primas da criatividade.

De um jeito ou de outro saímos de situações que acabaram se tornando incômodas, mas a que preço?

Quando aquele reencontro familiar de grande importância emocional é finalmente marcado, mas os participantes principais dão para trás por um motivo ou outro, é fácil dizer que a vida continua? Pelo lado lógico, é claro que sim, mas o coração precisa de mais tempo para se acostumar com a novidade.

Acredito que a vida não é cruel, porque ela sempre apresenta dois caminhos que cabem à nós mesmos escolher qual seguir: chorar pelo leite derramado ou chutar a bola para frente.

Já percebi que o caminho da liberdade é um caminho um tanto solitário, porque quando fazemos questão de fazer as coisas do nosso jeito, acabamos fazendo-as sozinhos. E também sei, ah como sei, que não é possível ter tudo na vida – aqui tudo é tudo mesmo:

saúde, beleza, liberdade, dinheiro, parceiro/a ideal, família por perto, amigos verdadeiros…

Por conta da nossa flexibilidade aprendemos a jogar com as situações, o que eventualmente nos traz de volta a paz interior. Mas mesmo assim sentimentos são sentimentos.

E aquela expectativa quando manda convites de alguma festa mesmo sabendo que vocês não é a mais popular das pessoas? Será que alguém vai dar as caras? Bom, se ninguém aparecer, como o bolo todo sozinha e congelo os salgados?

Se a tão esperada viagem não rolar, fico na minha cidade mesmo e vou às compras?

Se eu for um fracasso no esporte X, passo a praticar o Y?

A vida é isso: perspectiva e criatividade, apesar de termos tantas vezes que lidar com os efeitos colaterais dos inesperados acontecimentos com certa dificuldade.

Com o tempo a maioria dos sentimentos que acabaram magoando passam voluntariamente, ou acabam se perdendo na nossa memória involuntariamente. Mas que sentimos muito no fundo da alma quando os planos furam, ah, isso sentimos, nem que momentaneamente, porque ser é sentir.

Luciana B. Veit

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