Eu não sou uma beata, no entanto acredito em Deus.
Eu não sou uma santa, mas tento pelo menos não atrapalhar ninguém.
Eu também não freqüento igreja alguma só pelo fato de acreditar que Deus está em todo lugar.
Eu tenho pena das vítimas de violência psicológica, física e dentre essa modalidade principalmente a sexual. E lidando de crianças então, me dá desgosto e até vontade de chorar.
De algumas semanas para cá temos acompanhado nos noticiários os vários casos de abusos ocorridos dentro de instituições educacionais e religiosas no decorrer dos anos 70. O que o mundo tem se perguntado é por que essas vítimas demoraram tanto tempo para se queixarem.
Tomando a Alemanha como exemplo, a geração dos jovens dos anos 70 era constituída por gente com vontade, senão com o dever de botar a boca no mundo, já que sentiam sobre os seus ombros o peso do silêncio que seus pais e avós exercitaram durante o Holocausto. Então por que?
É claro que muitos devem ter sido os tais motivos: medo, vergonha, ou simplesmente a vontade de virar a página de uma capítulo nada florido da vida. Mas quando anos mais tarde sem mais ou menos um ou dois ex-alunos resolvem encarar o passado ativamente, três, quatro e cinco seguem, mas desses cinco viram cem, dos cem viram duzentos e dos duzentos viram quinhentos.
Não estou dizendo que a grande maioria dessas pessoas que dizem ter passado por maus bocados em tais instituições religiosas tenha deliberadamente mentido, mas o que acontece é que quando se fala em dinheiro muitas perguntas surgem no ar.
Dinheiro sim, porque é isso que as vítimas estão pedindo: indenização da igreja. Para aquelas que comeram o pão que o diabo amassou nada seria mais justo, quando na verdade nenhum dinheiro do mundo poderá apagar da memória as humilhações pelas quais elas foram obrigadas a passar.
Mas será mesmo que todas as pessoas foram vítimas do mesmo caso para exigirem uma indenização, principalmente quando passadas mais que três décadas não existem mais provas reais? Pergunto-me isso porque uma coisa é levar bronca, outra coisa é levar um tapa, outra coisa é ficar de castigo no quarto e uma outra coisa bem diferente é ser forçado a favores sexuais com homens da fé, educadores que deveriam estar substituindo a imagem de pai e mãe quando esses estão ausentes.
Acusado de também estar envolvido no escândalo, Georg Ratzinger, o irmão do atual Papa, garantiu que os maus tratos em questão não passaram de alguns tapas na orelha de estudantes mal educados, coisa que era normal na época e continua sendo em escolas na Coréia do Sul, por exemplo.
E então? Em quem acreditar?
Que houveram abusos sexuais vindos de clérigos e educadores não é a questão porque sempre onde há fumaça há fogo, mas daí dizer que todas as vítimas tenham sido molestadas sexualmente seria um pouco exagerado. Ou será que sou eu quem se recusa a acreditar em tamanha monstruosidade?
Estaria eu protegendo a igreja? De jeito algum! Acho a igreja católica fora de moda e inadequada e isso não tem nada a ver com a minha fé, mas em tempos de crise financeira seria um pouco ingênuo acreditar em toda palavra que soa por aí, quando pessoas afogadas com números vermelhos em suas contas correntes vêem na rica e poderosa igreja uma maneira de ganhar uma caixinha extra, colocando sem constrangimentos a vergonha de ter que passar pelo papel de coitadinho/a de lado.
Como mencionei antes, difícil no caso dos alunos dos colégios internos que foram abusados nos anos 60, 70 e até 80 é provar a veracidade dos relatos. Quem sabe um detetive experiente e expert em casos frios tenha mais sorte.
É claro que existem fatos absolutamente verdadeiros e por isso dolorosos, mas todos nós sabemos que com a idade avançada alguns idosos tendem a esquecer coisas. Contam histórias que já contaram um milhão de vezes e confundem as datas dos aniversários (senão até os nomes) dos próprios filhos. É por isso que estou espantada com os detalhes dos abusos que as vítimas, todas acima de 50 anos, vem entregando para quem quiser saber.
Não sou psicóloga mas imagino que momentos marcantes, positivos ou negativos, são difíceis de esquecer, mas às vezes tenho dúvida se aquilo que os idosos tem contado por aí não seria uma mistura do fruto da imaginação, com a experiência do colega mais o medo de que a mesma experiência viesse a acontecer com eles mesmo.
Eu tenho 33 anos e há mais ou menos cinco anos fiz uma terapia de regressão. Apesar da emoção vivida, cheguei a me perguntar mais tarde se tudo aquilo que “vi” se tratou de uma lembrança real de uma vida passada ou de uma estória bem bolada, onde tudo fez sentido. Bom, acho que nunca saberei ao certo, apesar de estar mais inclinada a acreditar na lembrança real.
Alguns devem estar pensando: A igreja é rica, então vamos esfolá-la! Quem se importa?
Que tal a moral? Se parte da instituição “igreja” esqueceu no meio da caminho o que a palavra significa, ou se ela não verdade nunca aprendeu isso mandando os padres falarem de vida quando não podem viver a vida plena por conta do celibato, nós não precisamos agir da mesma forma.
Criminosos e pecadores devem sim ser punidos, mas a justiça e a integridade devem prevalecer.
Talvez essas não passem de hipóteses baratas minhas, mas talvez não. Sempre existirão duas possibilidades. E a quem cabe de ir em frente com elas? As verdadeiras vítimas que merecem muito mais do que um pedido oficial de perdão, uma gorda indenização e uma cadeira de camarote para verem os culpados serem castrados.
Com ou sem a verdade, a vida continua. Se essas pessoas resolveram se pegar no passado até seus últimos suspiros, isso seria uma pena. Não que elas deveriam ter ficado caladas e conformadas com suas tragédias, mas se as ex-vítimas ficarem remoendo tristes lembranças por um longo período, mesmo após as devidas acusações oficiais, irão certamente se arrepender de não ter vivido alguns momentos felizes na última etapa dessa vida.
É preciso saber lavar as mãos e a alma, e acima de tudo tocar a bola para frente quando tudo o que estava ao nosso alcance foi feito.
Espero que os culpados dos abusos sejam punidos, que as vítimas tenham uma noite, ou melhor várias noites tranqüilas de sono. E principalmente espero que as crianças de hoje jamais percam sua inocência por conta de jogos sujos, imorais, perversos e macabros que pessoas fantasiadas de homens de fé e de sabedoria tem a audácia de negar o mais forte de todos os apetites humanos.
Um Comentário
É de pasmar tanta notícia sobre abusos nas instituições da igreja. Fico a me perguntar se não seria o momento de uma reflexão séria sobre o instituto do celibato! Até quando vamos ficar fingindo que é possível homens e mulheres serem forçados a abdicar de sua sexualidade em detrimento de um suposto dogma. E essa bandalheira toda acaba por espirrar nos clérigos sérios e comprometidos com o trabalho de catequese e assistência tão-bem exercitado pela instituição igreja católica! Esperemos que nossos dirigentes maiores da instituição tirem a venda dos olhos, enquanto é tempo e reavaliem tudo que aconteceu. Mudar, muitas vezes, é a única maneira de permanecer fiel aos dogmas mais caros da instituição!