Facada pelas costas

Pai e filho andam sobre pedras de frente ao marO tema sobre adoção é quente aqui na Coréia do Sul, porque sendo o quinto maior país de “exportação” de crianças do mundo, existem muitas questões no ar.

Por exemplo, acredita-se que a maioria das mães que doam os filhos são obrigadas a assim fazê-lo por motivos financeiros, por pressão familiar ou simplesmente por pura ignorância, quando não sabem como poderiam cuidar de si e da criança em caso de produção “independente”.

Vale mencionar que o número de abortos por aqui é altíssimo, onde na regra essa é uma prática proibida até ser provada como um motivo “justo” para tal. De acordo com o jornal Joong Ang Daily de 450.000 bebês que nascem, 350.000 abortos ilegais foram feitos no mesmo período.

E o que leva a esses números é o desespero do que fazer com o bebê, o que nem sempre é tão óbvio assim. Devo dizer que por mais que uma gravidez seja algo inesperado e que as soluções na Coréia não sejam ideais e até um pouco desumanas, o quadro geral aqui ainda é melhor do que muitos outros lugares, quando mães sem alguma condição financeira com três, quatro, cinco filhos ou até mais sobrevivem Deus sabe como – pedindo esmolas, forçando as crianças sub-nutridas a trabalharem cedo ao invés de estudarem, vivendo muitas vezes até nas ruas, passando por experiências que não deveriam estar passando.

Claro, quem é que não deseja uma família ideal? Aquela onde o pai tem um trabalho estável, a mãe pode se ocupar da educação dos filhos e até se desenvolver intelectualmente nas horas vagas, onde todos tem um teto sobre a cabeça e comida na mesa nunca falta, sem contar brinquedos no Natal e festinhas de aniversário?

Como é que eu não poderia ser a favor de adoção (inclusive feita por solteiros ou por casais homossexuais que podem bancar tal decisão) e de aborto até o segundo mês de gravidez? Egoísmo é colocar criança no mundo para fazê-la sofrer.

É triste e ao mesmo tempo emocionante acompanhar reencontros de pais biológicos com seus filhos adotados, mas será que é justo para com os pais adotivos?

Para mim, não existe maior prova de amor à humanidade do que a adoção, principalmente vindo de pais que já tem filhos biológicos. Sendo mãe, bem sei o quanto meu filho significa para mim. Sei o quanto me emociono quando vejo características dele que por vez são do pai ou minhas. E também sei que se resolvesse ter um segundo filho, teria que vir do meu ventre. Por isso honro todos os pais adotivos, com ou sem filhos próprios, porque tirar uma criança da rua e oferecer melhores condições de vida à ela, é um ato nobre e de respeito.

Acontece que nem todos pensam assim. O que me deixa boquiaberta, são relatos de crianças adotadas por famílias bem estruturadas financeiramente, psicologicamente e emocionalmente que resolvem depois de vários anos irem atrás das raízes. Não as culpo por isso, mas culpo-as de assim repentinamente culpar os pais adotivos de terem incentivado-as a acreditarem numa mentira. Que mentira? Quando elas sabem desde pequenas que foram adotadas, o único sentimento presente ali deveria ser o de amor e de gratidão e não o de revolta, como se os pais adotivos tivessem arrancado-as à força dos braços da mãe.

Está certo que em muitos casos é exatamente isso o que acontece na Coréia do Sul, quando as mães são forçadas a assinarem documentos de permissão para adoção ainda da maternidade, mas isso não é regra geral.

Digo e assino em baixo, como tantas outras mães, que faria tudo pelo bem-estar do meu filho. Até morreria por ele se necessário, e esse sentimento profundo, esse elo entre nós é mais forte do que nada.

Conheço de perto histórias de famílias européias que mandaram os filhos para longe, para morarem com parentes de outros-mares somente para protegê-los dos terrores da guerra. Muitos deles jamais se viram de novo. Agora eu chamo isso de amor absoluto e incondicional ou de egoísmo?

É por isso que não acho justo a facada nas costas que tantos pais adotivos recebem, quando são obrigados a aturarem freqüentes e emocionais reencontros dos filhos adotivos com os pobrezinhos pais biológicos.

Existe aqui na Coréia ainda muita crítica contra as próprias agências de adoção, que muitas vezes se negam a dar informações sobre a identidade e paradeiro dos pais biológicos. Pode até parecer frio e desumano, mas é prático. Não se diz por aí que nem toda mentira é ruim?

Imagino que para um criança negra ou de feições asiáticas seja mais difícil se sentir como um todo num família de brancos, mas chegar a cogitar que os pais adotivos sejam os vilões da história, é um absurdo!

Nada me toca mais quando viajo para países mais pobres do que ver crianças de rua, quando ao mesmo tempo ofereço uma vida digna para meu filho, sem luxo, mas digna. Amor é bom, mas ele vai muito além do que o egoísmo.

Assim, tiro meu chapéu para todos os pais adotivos e torço para que os adotados e os pais biológicos façam o mesmo.

Luciana B. Veit

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