Confortos de Mulher

Mulher de bobEstacionamento exclusivo para mulheres está virando moda. A primeira vez que me dei conta disso foi na Alemanha já há alguns anos. Como reação automática, ri mas depois quase que imediatamente me senti um pouco desmoralizada.

Falando a respeito com conhecidos alemães, eles me explicaram que essas vagas para mulheres são geralmente mais largas do que as demais e que elas também se situam mais próximas de câmeras de vigilância, de escadas e de elevadores. Claro, mulher sozinha no estacionamento sempre foi perigoso, sem contar quando ela chega sobrecarregada com sacolas de compras mais filho no braço!

Minha revolta passou, mas as piadas em relação às mulheres ao volante não passaram. Há quem diga que mulheres são os melhores motoristas porque são cuidadosas ao dirigir, mas ao mesmo tempo atrevidas e charmosas, enquanto os homens são só agressivos. Mas acho melhor deixar essa história para lá, pelo menos por enquanto.

Aqui na Coréia do Sul vagas exclusivas para mulheres tem saído dos estacionamentos cobertos (principalmente de supermercados) para as ruas, onde tais vagas são marcadas por tinta cor-de-rosa. Estranho, mas cômodo ver isso nas ruas de uma cidade onde o machismo é tão onipresente como em qualquer sociedade árabe ou latina.

Quando residia em Dubai entre os anos de 2000 e 2004, me sentia como uma rainha por ter uma fila só para mulheres em diversos estabelecimentos como rede de lanches fast-food, cinema ou até em bancos. E na falta da tal fila preferencial, toda a mulher, coberta ou exposta, muçulmana ou não, tinha o direito de passar na frente de qualquer homem.

Pelo o que conheço no Brasil só existem privilégios com mulheres grávidas ou com aquelas com crianças de colo, ao lado de pessoas idosas. Será que a moda do estacionamento exclusivo e a fila preferencial vai chegar aí?

Marginalização, você diz? Cadê os direitos iguais? De um lado as mulheres exigem ganhar o mesmo salário que os homens nas mesmas posições profissionais, mas por outro lado não torceriam o nariz para alguns benefícios a mais em relação à toda complexidade da vida moderna como dar o sangue na empresa, fazer compras, cuidar dos filhos e do marido e ainda se preocupar com a própria imagem.

Sei que posso ser crucificada por isso, mas será que não tem muita mulher por aí exagerando nas suas funções? Tirando os casos onde o salário da mulher é essencial na cesta básica, nos cursos extra-curriculares dos filhos ou até nas férias anuais (ou semestrais), tem gente demais fantasiada de super-heroína quando a verdade é outra.

Sim, mas então o que fazer do tempo livre? Onde fica a satisfação consigo mesma? E o reconhecimento alheio?

Nem tudo na vida é trabalho remunerado. Como expatriada escolada, venho observando isso há anos. A maioria das esposas de executivos que não tem a permissão de trabalhar no país onde residem durante 2, 3 ou 4 anos não ficam em casa chorando as mágoas, comendo, engordando e se emburrecendo. Elas fazem cursos de idiomas, aprendem artes, os costumes e pratos típicos do país, e ainda se envolvem com trabalhos caritativos e voluntários. Mas o melhor de tudo, é que estão pelo menos 90% presentes nas vidas dos filhos.

Sempre me perguntei o motivo de tantas mães quererem colocar tantos filhos no mundo se eles serão educados pela babá. Ser mãe não é só observar no que os filhos vão se tornar mais tarde, mas sim acompanhar esse processo todo desde o primeiro dia (mais uma vez aqui deixo de fora as mães que trabalham no sentido de sobrevivência).

Dá até a impressão que muitas mulheres tem vergonha de admitir uma vida privilegiada, e não automaticamente fútil. Por que?

Aliás, é fácil perceber que muitas mulheres estão em cima do muro. Sexo forte? Sem dúvida alguma, mas invencíveis? Nem sempre.

Ninguém consegue ser bom em tudo. Essa foi uma das primeiras lições de vida que aprendi. Então por que dar murro em ponta de faca? Por que deixar o tempo passar para se lamentar depois?

Homens também merecem seus confortos, mais eu jamais abdicaria os que nós mulheres temos hoje, como o estacionamento exclusivo, as filas preferenciais ou a prioridade de salvamento em momentos extremos em nome da igualdade de sexos.

O que faz uma mulher ser respeitada não é somente o dinheiro que ela traz para casa, mas sua contínua educação, seus interesses, seus feitos rotineiros e também seu orgulho de ser tudo aquilo o que ela sempre quis ser, ou pelo menos aprendeu ser face às surpresas da vida.

Luciana B. Veit

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