Não! Esse texto não é sobre aquilo que muitos de vocês devem estar pensando… Sabem como é, pequeno e grande… Mas sim sobre algo que notei nessa semana que passou.
Entre outras centenas de pessoas sortudas que tiveram a chance de irem assistir o grande tenor José Carreras cantar ao vivo em um teatro (e não auditório) de Seul, contei os dias regressivamente para o dia, ou melhor, para a tal noite chegar. Chamei a babá para ficar com meu filho durante algumas horas, me produzi elegantemente e me encontrei com meu marido, que vinha direto do escritório, no local combinado.
Já nos nossos assentos a somente alguns poucos metros do palco onde Carreras se apresentaria, meu marido, eu e o restante do público mal podiam esperar para que o concerto desse início. A orquestra então toma seus lugares, o maestro espanhol David Gimenez conduz a primeira passagem com excelência e finalmente ele traz o grande, o legendário, um dos 3 Tenores (agora um dos 2 tenores, dada a morte de Pavarotti), o portador de vários prêmios internacionais, o distinto, o magnífico, o envelhecido e o pequeno (?) José Carreras para o palco.
– Meu Deus! Que cabeça mais grisalha! – comenta um sujeito logo atrás de mim, dizendo entre linhas: um sujeito desse não tem o direito de envelhecer.
– E ele é muito menor do que imaginava! É até menor que o primeiro violinista! – diz um segundo absolutamente espantado. Como pode? Pela sua voz ele deveria ser o maior de todos aqui, pensa esse mesmo sujeito, como se uma coisa tivesse a menor relação com a outra.
– Olha só! Ele está enxugando o nariz com seu lenço antes de começar a cantar. Ninguém nunca explicou para ele que isso é uma ofensa na Coréia? Limpar o nariz em público, ainda por cima para o público? – solta uma língua venenosa.
Finalmente ele começa a cantar “Marechiare” e anima o povo. Mas esperem um pouco! Sua voz me parece um pouco… baixa? Não, não! Não pode ser, afinal de contas ele é José Carreras!
Ele então canta “Ti voglio bene assai” e depois faz um dueto com a primeira dama dos palcos sul-coreanos, Mi Hae Park, e minha primeira impressão volta a martelar minha mente.
“Quem sou eu para julgar Carreras? O que eu entendo de música? Está certo que estudei um pouco de violino e escrevi um romance histórico sobre Mozart, mas não estou e talvez jamais estarei apta a julgar uma lenda da música clássica contemporânea como Carreras.”
Devo admitir que pensei que sua voz alcançaria todos os cantos daquela sala de concertos com o mesmo volume, que ela entraria por debaixo da pele querendo rasga-la por dentro e que enfim a orquestra inteira não seria párea para somente um único instrumento: o da voz desse tenor espanhol de imenso sucesso internacional. Mas não foi bem assim. Tendo já assistido diversas óperas e concertos, pude avaliar a qualidade do espetáculo, mas então me dei conta que eu também achei que a lenda “Carreras” apagaria tudo em sua volta. Como pode ele ser mortal?
José Carreras cantou com paixão, conquistou o público pelo seu talento extraordinário, pelo seu carisma de palco e também pela sua fama mundial, mas desapontou por ser somente um homem de carne e osso, que anda e não flutua e que enxuga seu suor do rosto com o mesmo lenço que enxugou seu nariz escorrendo.
Sim, foi um golpe duro encarar a realidade que também ele tem excrementos, que envelhece, que é baixinho e que sua voz não é mais alta que a orquestra inteira junta porque um José Carreras não é uma celebridade qualquer, como Paris Hilton ou Beyoncé que também estavam de passagem pela capital coreana na mesma semana que ele.
Por isso imagino que as desilusões de um público que tem a chance de se deparar com um grande artista deve ser o lado inverso da moeda. Sim, sua alma não vive dos milhões de euros em sua conta, mas sim do fervoroso aplauso do público, mas o banho de água fria vem quando mesmo que indiretamente o artista tem que explicar de onde vem seu talento.
Como escritora, entendo perfeitamente o motivo dos meus colegas não gostarem de dar entrevistas: simplesmente porque nem sempre é possível explicar algo que nem mesmo nós sabemos. Como iremos colocar em palavras o porque do personagem ter se desenvolvido assim ou assado, quando somente alguns compreendem que eles tem vida própria e que nós, escritores, somos só seus instrumentos?
No caso do Carreras, como é que ele vai explicar o fato de ser humano? Se eu fosse ele, não me incomodaria com isso. Mas ainda assim eu exijo uma explicação…
Luciana B. Veit
Entre outras centenas de pessoas sortudas que tiveram a chance de irem assistir o grande tenor José Carreras cantar ao vivo em um teatro (e não auditório) de Seul, contei os dias regressivamente para o dia, ou melhor, para a tal noite chegar. Chamei a babá para ficar com meu filho durante algumas horas, me produzi elegantemente e me encontrei com meu marido, que vinha direto do escritório, no local combinado.
Já nos nossos assentos a somente alguns poucos metros do palco onde Carreras se apresentaria, meu marido, eu e o restante do público mal podiam esperar para que o concerto desse início. A orquestra então toma seus lugares, o maestro espanhol David Gimenez conduz a primeira passagem com excelência e finalmente ele traz o grande, o legendário, um dos 3 Tenores (agora um dos 2 tenores, dada a morte de Pavarotti), o portador de vários prêmios internacionais, o distinto, o magnífico, o envelhecido e o pequeno (?) José Carreras para o palco.
– Meu Deus! Que cabeça mais grisalha! – comenta um sujeito logo atrás de mim, dizendo entre linhas: um sujeito desse não tem o direito de envelhecer.
– E ele é muito menor do que imaginava! É até menor que o primeiro violinista! – diz um segundo absolutamente espantado. Como pode? Pela sua voz ele deveria ser o maior de todos aqui, pensa esse mesmo sujeito, como se uma coisa tivesse a menor relação com a outra.
– Olha só! Ele está enxugando o nariz com seu lenço antes de começar a cantar. Ninguém nunca explicou para ele que isso é uma ofensa na Coréia? Limpar o nariz em público, ainda por cima para o público? – solta uma língua venenosa.
Finalmente ele começa a cantar “Marechiare” e anima o povo. Mas esperem um pouco! Sua voz me parece um pouco… baixa? Não, não! Não pode ser, afinal de contas ele é José Carreras!
Ele então canta “Ti voglio bene assai” e depois faz um dueto com a primeira dama dos palcos sul-coreanos, Mi Hae Park, e minha primeira impressão volta a martelar minha mente.
“Quem sou eu para julgar Carreras? O que eu entendo de música? Está certo que estudei um pouco de violino e escrevi um romance histórico sobre Mozart, mas não estou e talvez jamais estarei apta a julgar uma lenda da música clássica contemporânea como Carreras.”
Devo admitir que pensei que sua voz alcançaria todos os cantos daquela sala de concertos com o mesmo volume, que ela entraria por debaixo da pele querendo rasga-la por dentro e que enfim a orquestra inteira não seria párea para somente um único instrumento: o da voz desse tenor espanhol de imenso sucesso internacional. Mas não foi bem assim. Tendo já assistido diversas óperas e concertos, pude avaliar a qualidade do espetáculo, mas então me dei conta que eu também achei que a lenda “Carreras” apagaria tudo em sua volta. Como pode ele ser mortal?
José Carreras cantou com paixão, conquistou o público pelo seu talento extraordinário, pelo seu carisma de palco e também pela sua fama mundial, mas desapontou por ser somente um homem de carne e osso, que anda e não flutua e que enxuga seu suor do rosto com o mesmo lenço que enxugou seu nariz escorrendo.
Sim, foi um golpe duro encarar a realidade que também ele tem excrementos, que envelhece, que é baixinho e que sua voz não é mais alta que a orquestra inteira junta porque um José Carreras não é uma celebridade qualquer, como Paris Hilton ou Beyoncé que também estavam de passagem pela capital coreana na mesma semana que ele.
Por isso imagino que as desilusões de um público que tem a chance de se deparar com um grande artista deve ser o lado inverso da moeda. Sim, sua alma não vive dos milhões de euros em sua conta, mas sim do fervoroso aplauso do público, mas o banho de água fria vem quando mesmo que indiretamente o artista tem que explicar de onde vem seu talento.
Como escritora, entendo perfeitamente o motivo dos meus colegas não gostarem de dar entrevistas: simplesmente porque nem sempre é possível explicar algo que nem mesmo nós sabemos. Como iremos colocar em palavras o porque do personagem ter se desenvolvido assim ou assado, quando somente alguns compreendem que eles tem vida própria e que nós, escritores, somos só seus instrumentos?
No caso do Carreras, como é que ele vai explicar o fato de ser humano? Se eu fosse ele, não me incomodaria com isso. Mas ainda assim eu exijo uma explicação…
Luciana B. Veit