Problema técnico de menor importância

luz na florestaVoltando para Moscou na companhia do meu filho em um vôo da Lufthansa, tudo corria maravilhosamente bem até dez minutos antes de aterrissarmos. Alguns passageiros já estavam agitados, enquanto outros pensavam numa estratégia de como levantar do assento rápido, vestir a jaqueta e  atropelar até mesmo idosos ou crianças no estreito corredor da aeronave, só para não terem que esperar demasiadamente na fila do burocrático e nada simpático, Controle de Passaportes – como se tal atitude fosse mudar o quadro geral…

De repente, o piloto liga o microfone e todos os passageiros imaginam saber o que ele diria, que a temperatura em Moscou estava agradável, ou que deveríamos permanecer sentados até que o avião parasse por completo, só que seu recado a nós era bem outro.

O piloto avisa, que devido à um problema técnico de menor importância, o avião ficaria parado em plena pista logo após aterrissarmos, por não poder mais manobrar.

Problema técnico de menor importância – pensei? Meu bom Deus, e se ele não conseguir se direcionar para a pista? Será que ouvi direito?

O piloto repete o recado, só que em Inglês dessa vez, só para eu me certificar.

Leiga em assuntos de engenharia aeroespacial, senti um frio na barriga e segurei a mão do meu filhinho, que estava se deliciando com a vista da janela. Estudei a feição das aeromoças em busca de alguma pista, mas elas não demonstraram nenhuma emoção, por talvez terem sido treinadas para tal.

Então notei que o silêncio passou a ser absoluto entre os passageiros.

E se o piloto não conseguir alcançar a pista? E se ele estiver mentindo, quanto ao problema técnico de menor importância?

Olhei para fora da janela e observei as árvores quase negras de fim de inverno nas florestas rodeando a capital russa, e me lembrei de tragédias de aviões que caíram entre as árvores, com os corpos dilacerados e muita fumaça.

Será que a minha hora chegou?

Incomodada por não poder fazer nada, estando completamente nas mãos de Deus, do destino, do piloto, e da tecnologia alemã e francesa do Airbus, procurei respirar fundo e torcer para que pudéssemos sair inteiros dessa.

Meu filhinho de quatro anos, que fala Alemão e Português fluentemente e tem bom conhecimento de Inglês, me perguntou: – O avião está quebrado, mamãe?

Sorri amareladamente e respondi: – Só um pouquinho, meu querido.

Então começamos a perder altitude e os nossos corações entraram em ritmo frenético. Aterrissamos! Ufa! Alguns passageiros até bateram palmas, só que o perigo ainda estava presente. Como anunciado pelo capitão, ficamos parados em plena pista, aguardando a chegada de ajuda, aterrorizados com a vista de três ambulâncias e dois carros de bombeiros parados em nosso redor, chefiando a fila de outros aviões que esperavam o OK para decolarem.

Estavam eles contando com uma tragédia?

Dez minutos se passaram e nada de sermos evacuados ou puxados para fora da pista. Me lembrei então do acidente que há poucos anos atrás matou dezenas de pessoas em plena pista em Milão, na Itália, quando duas aeronaves se chocaram por conta da mais pura incompetência do controlador de tráfego aéreo. Como já tive experiências negativas o suficiente na Rússia, tremi ao me dar conta de que o susto ainda não estava no fim, mesmo com o avião em solo.

Então finalmente, passados quinze longos minutos, pudemos desembarcar próximo ao hangar.

Fomos levados diretamente para o salão do temido Controle de Passaportes, com os campeões nacionais de antipatia na Rússia verificando os documentos. Os passageiros que estavam a um triz da morte, pareceram logo terem esquecido numa questão de minutos, o que tinha acabado de acontecer.

Será que fui a única a me dar conta de que a morte pode chegar a qualquer momento? Acredito que não, porque naquele silêncio absoluto dentro do avião, logo após o anúncio, aposto que a grande maioria também cogitou essa questão.

Será que temos que entrar em coma ou escapar de um tiroteio, assalto ou acidente milagrosamente para nos darmos conta de quanto a vida é valiosa, e ligeira?

E que a cada momento quando deixamos de seguir os nossos sonhos por covardia, estamos de uma forma renegando a nossa existência na Terra, que é de evoluir através de novas experiências?

Quando foi a última vez que fiz algo pela primeira vez é uma pergunta que ocupa muito tanto minha cabeça, quanto meu coração, para quando chegar o meu dia D, não me lamentar de não ter curtida a vida como deveria tê-lo feito. Procuro me lembrar disso.

Luciana B. Veit

Este post foi publicado emCrônicas 2006 e tags , , , , , , . Bookmark o permalink.Este conteúdo está fechado para comentários, mas você pode deixar um trackback:Trackback URL.
  • Língua

  • Categorias

  • Arquivo