Observando meu filho fazer um pirâmide com peças de Lego, colocando a pequena escultura de Nefertari ao lado dela, me lembrei de uma pequena aventura.
Em 2001, enquanto ainda residia em Dubai, consegui convencer meu marido de irmos passar três semanas no Egito. De natureza tranqüila, ele é alguém que, em suas merecidas férias, prefere ficar lagarteando em alguma praia deserta do Oceano Índico ao ter que esperar em filas de museus, por isso vê-lo fazendo perguntas sobre o roteiro, já era uma vitória para mim.
O Cairo foi muito pior do que tinha imaginado que seria. A cidade em si é bonita, principalmente às margens do Nilo, mas ainda é uma cidade abandonada, sem retoques, sem vaidade. Muita buzina, muita poluição e todos os carros, sem exceção, foram, são ou certamente serão vitimas de batidinhas laterais ou traseiras, pelo fato dos motoristas triplicarem as faixas de trânsito e ignorarem as básicas regras. Mas para que se preocupar? Uma batidinha aqui ou lá não mata ninguém! Maa fiy mushkilá! Sem problemas…
Quando me aventuro pelo mundo, a última coisa que faço é comparações, porque cada lugar possui sua própria identidade, mas ao invés disso, procuro estudar nem que seja um pouquinho o povo local.
Os egípcios são indiscretos e inconvenientes, mas são cientes da importância da história de suas terras para a humanidade. Por isso, graças ao talento para sobrevivência, os egípcios conseguem tirar qualquer turista de seu estado de graça, mesmo aos pés das colossais e enigmáticas pirâmides, tanto de Gizeh, quanto de Dashur ou Saqqara, vendendo passeios em camelos, souvenires, bonés, entre outros. Como turista, dizer que deseja ficar sozinho e em silêncio são palavras ao vento.
Como estava com meu Árabe na ponta da língua, meu marido concordou que ao invés de ignorar, eu deveria me comunicar com o povo, lhe poupando assim o esforço. Só que esta tática não estava sendo muito bem recebida pelos egípcios.
Enfim, após termos visitado tudo que Cairo tem para oferecer aos forasteiros durante uma semana inteira, incluído o Museu egípcio, o bazar Khan el Khalili, a Citadela, entre outros, passamos a noite no trem, sentido Luxor.
Chegando lá, fomos levados ao hotel, que ficava em uma ilha no próprio rio Nilo. Majestoso. A música Saidi do hall de entrada encheu meu peito de orgulho e de gratidão por ter a imensa sorte de estar desfrutando deste instante mágico.
Nosso primeiro dia foi intenso. Visitamos o templo de Karnak, além de inúmeras tumbas dos faraós e suas esposas, tanto no vale dos reis, quanto no vale das rainhas. Andar curvado, com uma lâmpada na mão, observando as inscrições hieroglíficas nas paredes e nos tetos, imaginado a rotina de cinco mil anos atrás, e às vezes prestar atenção não só no livro em mãos, mas também na fala atropelada de um nativo desdentado se passando por egiptólogo, aguardando ansiosamente pela sua recompensa, o Bakhshish, ainda consegui sentir a emoção dos arqueólogos que haviam trazido à luz toda essa fortuna.
Pouco antes do sol se pôr, atravessamos o Nilo de feluca e foi aí que abusei da boa vontade do meu marido.
— O quê? Acordar às quatro horas da manhã só para visitar uma tumba? Você enlouqueceu de vez! — ele disse.
— He, bom, na verdade, teríamos que já estar com os tickets em mãos às quatro horas. Sabe como é, a tumba de Nefertari é a mais bonita de todas, e somente cem tickets são vendidos por dia.
— Isso significa ter que perder o café da manhã! — ele comentou desacreditado.
Foi um suplício convencer meu marido, mas certamente nem ele e nem eu jamais iríamos nos esquecer desse episódio.
Como combinado, ainda no escuro, fechamos a porta do táxi após termos combinado o preço antes, e já estávamos a caminho. Pouco antes de atravessarmos a ponte sobre o rio Nilo, não podíamos acreditar no que estávamos vendo.
— Trânsito, aqui, agora? — meu marido perguntou ao motorista.
— Ah. É por causa da Nefertari. Se puder dar-lhes um conselho, assim que chegarmos, um de vocês deveria sair correndo para garantir um lugar na fila.
Sem saber se deveríamos voltar para o hotel ou encarar essa loucura, meu marido e eu resolvemos continuar.
Como combinado, o táxi chegou, e mesmo antes de parar por completo, meu marido voou para a fila, mas não passou despercebido pela multidão que tentava fazer o mesmo: pessoas tropeçavam umas nas outras, umas riam do tamanho absurdo caídas no chão, outras gritavam e xingavam de raiva. Essa realmente foi uma cena inesquecível. E tudo por causa da Nefertari.
Passada uma hora e quarenta e cinco minutos, vibramos por termos conseguido nossos tickets. Mas ainda estava escuro, com algumas pinceladas lilás e cor-de-rosa no céu, anunciando o nascer do sol.
Nos colocamos a caminho do vale das rainhas e uma vez lá, ainda deveríamos esperar duas horas, até a tumba abrir para visitação. Caminhamos sem rumo, em meio dessas montanhas de médio porte, nuas e silenciosas. Assistimos o nascer do sol mais magnífico de nossas vidas, com nada menos do que a própria história como testemunha.
Chegada a tão esperada hora, descemos os degraus para a recém-renovada tumba de Nefertari, que de fato tinha sido a mais bonita de todas – claramente uma declaração de amor de Ramsés II à sua sensual e poderosa esposa. Ninguém podia permanecer lá dentro mais que dez minutos, pelo menos não sem pagar Bakhshish extra, então admiramos o que podia ser admirado e, de frente a tumba, recolhi do chão algumas pedrinhas para levar como souvenir.
Reatravessando o Nilo de feluca, chegamos à conclusão que não havíamos ido ao Egito para ver as pirâmides, nem para visitar os museus, nem para visitar Nefertari, nem para mergulhar nas águas mornas de Sharm el Sheikh, nem mesmo para fazermos um tour de motocicleta nas montanhas do Sinai, nem para treinar Árabe, mas sim para jamais esquecer do nascer do sol daquela manhã no vale das rainhas, em Luxor.
Este momento de intensa magia nos obrigou a relembrar de uma forma bastante óbvia de que não estamos, jamais estivemos e nunca estaremos sozinhos e, ao contrário do que a ciência prova, o homem é de fato imortal. É por causa da Nefertari que acordamos cedo e tivemos a chance de abrirmos nossos peitos para o sentimento de eternidade que cada um carrega em si.
Em 2001, enquanto ainda residia em Dubai, consegui convencer meu marido de irmos passar três semanas no Egito. De natureza tranqüila, ele é alguém que, em suas merecidas férias, prefere ficar lagarteando em alguma praia deserta do Oceano Índico ao ter que esperar em filas de museus, por isso vê-lo fazendo perguntas sobre o roteiro, já era uma vitória para mim.
O Cairo foi muito pior do que tinha imaginado que seria. A cidade em si é bonita, principalmente às margens do Nilo, mas ainda é uma cidade abandonada, sem retoques, sem vaidade. Muita buzina, muita poluição e todos os carros, sem exceção, foram, são ou certamente serão vitimas de batidinhas laterais ou traseiras, pelo fato dos motoristas triplicarem as faixas de trânsito e ignorarem as básicas regras. Mas para que se preocupar? Uma batidinha aqui ou lá não mata ninguém! Maa fiy mushkilá! Sem problemas…
Quando me aventuro pelo mundo, a última coisa que faço é comparações, porque cada lugar possui sua própria identidade, mas ao invés disso, procuro estudar nem que seja um pouquinho o povo local.
Os egípcios são indiscretos e inconvenientes, mas são cientes da importância da história de suas terras para a humanidade. Por isso, graças ao talento para sobrevivência, os egípcios conseguem tirar qualquer turista de seu estado de graça, mesmo aos pés das colossais e enigmáticas pirâmides, tanto de Gizeh, quanto de Dashur ou Saqqara, vendendo passeios em camelos, souvenires, bonés, entre outros. Como turista, dizer que deseja ficar sozinho e em silêncio são palavras ao vento.
Como estava com meu Árabe na ponta da língua, meu marido concordou que ao invés de ignorar, eu deveria me comunicar com o povo, lhe poupando assim o esforço. Só que esta tática não estava sendo muito bem recebida pelos egípcios.
Enfim, após termos visitado tudo que Cairo tem para oferecer aos forasteiros durante uma semana inteira, incluído o Museu egípcio, o bazar Khan el Khalili, a Citadela, entre outros, passamos a noite no trem, sentido Luxor.
Chegando lá, fomos levados ao hotel, que ficava em uma ilha no próprio rio Nilo. Majestoso. A música Saidi do hall de entrada encheu meu peito de orgulho e de gratidão por ter a imensa sorte de estar desfrutando deste instante mágico.
Nosso primeiro dia foi intenso. Visitamos o templo de Karnak, além de inúmeras tumbas dos faraós e suas esposas, tanto no vale dos reis, quanto no vale das rainhas. Andar curvado, com uma lâmpada na mão, observando as inscrições hieroglíficas nas paredes e nos tetos, imaginado a rotina de cinco mil anos atrás, e às vezes prestar atenção não só no livro em mãos, mas também na fala atropelada de um nativo desdentado se passando por egiptólogo, aguardando ansiosamente pela sua recompensa, o Bakhshish, ainda consegui sentir a emoção dos arqueólogos que haviam trazido à luz toda essa fortuna.
Pouco antes do sol se pôr, atravessamos o Nilo de feluca e foi aí que abusei da boa vontade do meu marido.
— O quê? Acordar às quatro horas da manhã só para visitar uma tumba? Você enlouqueceu de vez! — ele disse.
— He, bom, na verdade, teríamos que já estar com os tickets em mãos às quatro horas. Sabe como é, a tumba de Nefertari é a mais bonita de todas, e somente cem tickets são vendidos por dia.
— Isso significa ter que perder o café da manhã! — ele comentou desacreditado.
Foi um suplício convencer meu marido, mas certamente nem ele e nem eu jamais iríamos nos esquecer desse episódio.
Como combinado, ainda no escuro, fechamos a porta do táxi após termos combinado o preço antes, e já estávamos a caminho. Pouco antes de atravessarmos a ponte sobre o rio Nilo, não podíamos acreditar no que estávamos vendo.
— Trânsito, aqui, agora? — meu marido perguntou ao motorista.
— Ah. É por causa da Nefertari. Se puder dar-lhes um conselho, assim que chegarmos, um de vocês deveria sair correndo para garantir um lugar na fila.
Sem saber se deveríamos voltar para o hotel ou encarar essa loucura, meu marido e eu resolvemos continuar.
Como combinado, o táxi chegou, e mesmo antes de parar por completo, meu marido voou para a fila, mas não passou despercebido pela multidão que tentava fazer o mesmo: pessoas tropeçavam umas nas outras, umas riam do tamanho absurdo caídas no chão, outras gritavam e xingavam de raiva. Essa realmente foi uma cena inesquecível. E tudo por causa da Nefertari.
Passada uma hora e quarenta e cinco minutos, vibramos por termos conseguido nossos tickets. Mas ainda estava escuro, com algumas pinceladas lilás e cor-de-rosa no céu, anunciando o nascer do sol.
Nos colocamos a caminho do vale das rainhas e uma vez lá, ainda deveríamos esperar duas horas, até a tumba abrir para visitação. Caminhamos sem rumo, em meio dessas montanhas de médio porte, nuas e silenciosas. Assistimos o nascer do sol mais magnífico de nossas vidas, com nada menos do que a própria história como testemunha.
Chegada a tão esperada hora, descemos os degraus para a recém-renovada tumba de Nefertari, que de fato tinha sido a mais bonita de todas – claramente uma declaração de amor de Ramsés II à sua sensual e poderosa esposa. Ninguém podia permanecer lá dentro mais que dez minutos, pelo menos não sem pagar Bakhshish extra, então admiramos o que podia ser admirado e, de frente a tumba, recolhi do chão algumas pedrinhas para levar como souvenir.
Reatravessando o Nilo de feluca, chegamos à conclusão que não havíamos ido ao Egito para ver as pirâmides, nem para visitar os museus, nem para visitar Nefertari, nem para mergulhar nas águas mornas de Sharm el Sheikh, nem mesmo para fazermos um tour de motocicleta nas montanhas do Sinai, nem para treinar Árabe, mas sim para jamais esquecer do nascer do sol daquela manhã no vale das rainhas, em Luxor.
Este momento de intensa magia nos obrigou a relembrar de uma forma bastante óbvia de que não estamos, jamais estivemos e nunca estaremos sozinhos e, ao contrário do que a ciência prova, o homem é de fato imortal. É por causa da Nefertari que acordamos cedo e tivemos a chance de abrirmos nossos peitos para o sentimento de eternidade que cada um carrega em si.
Luciana B. Veit