Hair Stylist

curlers, cabeloAli estava eu, mais uma vez prestes a passar por uma das experiências mais aterrorizantes que possam existir: ir ao salão de cabeleleiro sem falar a língua local.

De mini-saia xadrez, meia três quartos preta, botas longas, colete jeans revestido de pele falsa e um adorável sorriso, a cabeleleira, desculpe, Hair Stylist, se curvou e me indicou o meu largo assento em couro branco. Se tratava de um salão de alto padrão no centro financeiro de Seul. Até tinha um pequeno monitor LCD de televisão particular, que mostrava vídeos-clipe. Impressionante!

– Tchan tchin bon mull suriran ieio? – perguntou em Coreano.

Certo! Ela deseja saber qual o meu corte.

– Corte dois centímetros das pontas e pode encurtar essa franja – respondi em Inglês.

Mas ela insistiu um pouco confusa: – Tchan tchin bon mull suriran ieio?

Agora quem ficou confusa fui eu.

– Uóta, copi, ti?

Após alguma reflexão, finalmente entendi o que ela quis dizer. Como pude ser tão grossa? Water, coffee, tea! Foi isso que ela havia dito.

– Chá verde, por favor.

A cabeleleira trouxe em uma questão de segundos minha xícara de chá e… uh? E um pote de iogurte? Não deixa de ser uma idéia original, pensei.

Enquanto me lambuzava com o iogurte, ela chamou seu assistente, um rapaz de cabelos arrepiados, tingidos de ruivo com longas costeletas cortando suas bochechas, vestido de calças, camiseta e avental pretos. Ele não sorriu, mas juntamente com a cabeleleira examinou meu cabelo fio a fio, com a máxima de atenção.

Os dois discutiram sobre algo do qual não partilhavam do mesmo ponto de vista. Ele procurava convencê-la mostrando-a as pontas dos meus cabelos, enquanto ela fazia o mesmo passando os dedos na raiz e na parte de baixo dos meus cabelos. Essa discussão durou no mínimo vinte minutos.

– Buratchil pirom tchan ra? – ela perguntou gentilmente.
Agora ela só pode estar perguntando sobre o corte, pensei.

Expliquei o que queria em palavras, em mímica e na linguagem de surdo e mudo.

Ela então desembestou a falar. Nesse instante seu assistente concordou com cada vírgula e direcionou meu rosto para o espelho iluminado com néon nas bordas. Ele puxou os fios que acompanhavam meu rosto enquanto a cabeleleira explicava e explicava.

– OK? – ela se certificou.

Uh! E agora? O que significa esse OK? Que ela entendeu o corte de cabelo que desejo, ou está pedindo minha permissão para ela fazer o que considera certo?
Um pouco apreensiva, respondi: – OK!

Esse é um salão de renome, está lotado e é por isso terei confiança nos profissionais. No pior dos casos, o cabelo crescerá de novo, disse a mim mesmo, tentando relaxar.

Logo em seguida segui o assistente por um longo corredor em mármore Carrara C e bambus de decoração. Seria ele quem lavaria meu cabelo. Me sentei na cadeira e o assistente pediu para que eu relaxasse.

Já com a toalhinha na minha nuca e por cima dos ombros, me ajeitei enquanto a cadeira inclinava. Na verdade ela não parou de inclinar até ficar na posição horizontal por completa.

O assistente pediu para que eu relaxasse de novo, o que não era tão fácil assim quando se está com a cabeça praticamente pendurada para trás. Não quis ser rude por isso me deixei levar por essa experiência.

Ele colocou uma toalhinha úmida e morna sobre meus olhos e começou lavar meus cabelos. Ele aplicou o xampu com cheiro de melão e o condicionador com cheiro de maçã-verde. Enquanto o creme fazia efeito, fez uma bela massagem no meu couro cabeludo, dessas que até doem. Pena que não estivesse relaxada o suficiente com minha cabeça pendurada para trás para curtir esse momento.

Mas enfim, prestes a voltar para meu luxuoso assento, o assistente perguntou todo orgulhoso se eu havia gostado da massagem. É CLARO QUE NÃO! Pensei. Mas fiz como todos por aqui fazem, sorri e não disse mais nada.

A Nail Stylist já estava a minha espera para começar com a pedicure e manicure. Me acomodei e todos voltaram-se ao seus trabalhos. A cabeleleira tinha longas unhas que me faziam relaxar enquanto a Nail Stylist fazia seu trabalho meticulosamente bem. Nunca havia recebido tamanha atenção, já que por mais caro ou renomado que os salões da Europa ou de São Paulo possam ser, todo mundo sempre tem uma pressa danada, borrando tudo e arrancando filés de sangue ao invés de cutículas.

Uma acariciava os fios dos meus cabelos enquanto a outra massageava minhas mãos. Resultado, fechei os olhos e decidi finalmente aproveitar a visita no salão.

Passado um longo tempo, ainda de olhos fechados, senti o cheiro agradável de óleo para as pontas dos cabelos. No entanto, sem prévio aviso, o assistente inicia uma sessão relâmpago de massagem nos ombros e nuca, só que desta vez estava sentada, e não com a cabeça pendurada para trás.

Glorioso!

Ele então abaixou minha cabeça cuidadosamente para frente e a cabeleleira penteou meus cabelos por baixo, começando pela nuca. Não queria que esse instante acabasse nunca.

Mas acabou. Já com a cabeça em cima do pescoço de novo, e de olhos bem abertos, me vi no espelho. Levei um susto. Não sabia o que dizer. O QUE FOI QUE VOCÊS FIZERAM? SEUS, Seus… (uh!), seus ARTISTAS! Está divino! Nada do que pedi, bem ao contrário, no entanto estou me sentindo como se valesse um milhão de dólares!

Por mais que a Nail Stylist, a cabeleleira, desculpe de novo, Hair Stylist e o assistente não tivessem entendido nenhuma palavra, perceberam que havia aprovado o experimento.

– Tcharan sipo fugi gigo… – disse o assistente, sorrindo.

Como não soube como responder ao que ele havia acabado de dizer, achei que uma boa gorjeta falaria por mim, para ele, e para suas duas colegas.

Barato não foi, mas ainda sim me enriqueceu – em experiência.

Luciana B. Veit

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