E o toalete?

gota de líquido amareloUns dizem que tabu é falar de sexo. Outros afirmam que tabu hoje seja falar de dinheiro, mas aí eu me pergunto: e o toalete? Essa sim é uma realidade que todo mundo evita mencionar.

Está certo que falar sobre as necessidades biológicas não enaltece ninguém, mas nem tudo na vida tem como obrigação transmitir uma mensagem filosófica.

Nós todos usamos e abusamos do toalete e muitos de nós enchemos o carrinho no supermercado para o melhor desempenho no banheiro. Para que as fezes sejam da melhor cor, textura e cheiro, coma mais fibras! Não é assim?

Ao lado de pequenos prazeres da vida, a sedução claramente faz parte do Top 10. Mas e então: quando a iluminação é mínima, quando os olhares estão fixados nuns dos outros, quando tudo é sorrisos, quando a temperatura do corpo sobe e o rosto avermelha, quem no momento da sedução imagina o eventual futuro parceiro se aliviando? Há quem faça isso, certamente, mas não é regra.

Então o recém formado casal está prestes a descobrir a intimidade do outro, mas momentos antes da conquista, é para o toalete que correm. Já no dia seguinte, a menina adolescente, ainda pouco segura sobre seu desempenho adulto e seu hálito matinal, corre para o banheiro – logo ao lado do quarto – e esfrega as gengivas com a pasta do parceiro. Dá graças que ele ainda esteja dormindo, porque ela já não agüenta mais segurar o que tem que sair. De repente, ela se dá conta do movimento no quarto. Fica apavorada, já sentada na privada.

- Meu Deus! Ele vai ouvir o tchibum!

Suando frio, pensa numa saída. Resolve se esticar toda, na esperança de alcançar a pia e poder abrir a torneira, para assim deixar a água correr. “Isso vai despista-lo!”, ela pensa.

Mas aí seu coração dispara quando seu amante bate à porta, perguntando gentilmente: – O que está fazendo aí? Precisa de ajuda?

“Muito engraçado!”, ela pensa mas diz: – Está tudo bem.

Minutos mais tarde, a menina não tem mais como fugir da realidade e está certa de que a partir do instante que seu amante entrasse pela porta da qual ela havia acabado de sair, não haveria mais romance. O cheiro abafado e nada sexy a incriminaria para os restos dos seus dias. Num ato desesperador, a moça resolve fazer uso do desodorante spray do amante, mas ela não poderia estar mais embaraçada com o resultado do seu experimento. De ruim o cheiro ficou insuportável.

Mas ainda assim, o rapaz e a moça encontram um no outro aquilo que procuraram a vida toda e resolvem se casar. No início do casamento as necessidades biológicas ainda são feitas com as portas fechadas, no terceiro ano a rápida aliviada é feita com a porta semi-aberta e virando o sétimo aniversário de casamento, nada mais é segredo.

- Traz o papel higiênico! – grita a moça presa a privada.

Seria essa a prova dos sete?

E finalmente no tão esperado aniversário de dez anos de casamento, a mulher presenteia seu marido uma tampa de bacia acolchoada.

O marido retira a fita de seda e o papel de presente cuidadosamente e estuda o objeto por alguns instantes. Depois, um pouco desapontado, diz: – Mas achei que fôssemos nos presentear aquela tampa de bacia high-tech, com vários botões.

- Besteira, meu amor. Para que você quer gastar 400 dólares em uma tampa importada que tem aquecimento, secadora, jatos d`água e até música?

(Bem que ela poderia ter usufruído da música naquela primeira manhã junto do futuro marido).

- Esse é um luxo que merecemos! – retrucou. E para finalizar a conversa, ele diz: – Esse será meu presente para você no Natal querida, para demonstrar o quanto você significa para mim.

Essas tampas de bacias de última geração já não são novidades no Japão e Coréia do Sul há muito tempo. Os japoneses e sul-coreanos fazem questão de passarem esse tempo tão valioso, que talvez seja o único momento onde eles possam gozar de alguma paz e liberdade incondicional, em alto estilo.

De volta ao tema principal, poderia citar ainda o desespero daqueles que sofrem de prisão de ventre e que por isso tomam remédios. Eles raramente conseguem segurar a vontade repentina e carregam consigo inúmeros relatos das frias pelas quais já passaram, como se borrar todo de frente a escola dos filhos, ou ser convidado para um churrasco na casa do chefe, que tem uma filhinha deusa, mas um toalete sem papel higiênico e nem toalha. Nesse caso, é a mão molhada mesmo que tem que dar conta do recado. Expor o problema para terceiros e pedir ajuda a estranhos? Jamais.

No entanto, o assunto toalete ainda pode ser considerado como um tópico cultural.

Na maioria dos países asiáticos quando um convidado pede para usar o toalete na casa do anfitrião, ele não poderia estar ofendendo-o mais. “Trazer tamanha podridão para dentro da minha casa?”, reflete o anfitrião. “Essa pessoa não merece minha confiança!”

No entanto, esses mesmos cidadãos não parecem ter um problema social em soltar gazes não só fedorentos, mas também sonoros. Realmente curioso.

E como fazem os mais velhos, mulheres grávidas e crianças sem “alvo”, que tem que utilizar os toaletes altos, daqueles que tem buracos no chão, onde a pessoa é obrigada a ficar de cócoras? Claramente este sistema não funciona direito visto seu estado, quando não só a urina, mas também pedacinhos de fezes estão coladas até nas paredes dos cubículos!

Fora isso, um exemplo que ninguém espera é que a ilha Phuket, na Tailândia, é um colossal toalete público. Aqueles que necessitam, nem se dão ao trabalho de ao menos se informar onde poderiam encontrar o toalete mais próximo, mas vão deixando tudo pelo caminho mesmo, despreocupadíssimos.

Já em grande parte da Europa Central os homens são educados a fazerem xixi sentados quando estiverem na sua própria casa ou na casa de pessoas mais chegadas. Isso não tem relação alguma com homossexualidade, mas sim com o respeito para com as mulheres da casa.

O design das bacias européias, principalmente alemães, suíças e austríacas demonstram que muita gente já quebrou a cabeça procurando uma solução para acabar de uma vez por todas com o efeito tchibum. Existem privadas com degrau, onde as fezes não caem diretamente na água, mas sim somente quando a descarga for acionada. O problema aí é que dependendo da quantidade, as fezes terão contato com o próprio bumbum e o cheiro se torna muito mais agudo.

Agora chiques são considerados os mictórios regados à gelo, mas menos chique é quando as mulheres lavam as mãos em um banheiro público, como no aeroporto Charles de Gaulle em Paris (precisamente de frente a esteira de bagagens das chegadas internacionais), ou em algum toalete da maioria de locais públicos na Coréia do Sul, exatamente de frente ao mictório do toalete masculino. Alguma lógica aí?

A grande verdade é que se instigadas, as pessoas sempre terão vários relatos, alguns engraçados e outros mais dramáticos com relação ao toalete, mas temo que independentemente de como o homem venha a se evoluir espiritualmente e intelectualmente, o tabu do toalete continuará valendo.

Luciana B. Veit

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