Procurando por um destino exótico e pouco explorado no sudeste asiático, resolvi ir com minha família para o Camboja.
A primeira idéia que vem à cabeça seria guerra, a segunda seria comunismo, a terceira seria o templo de Angkor Wat que ficou de finalista das novas sete maravilhas do mundo e para finalizar, a quarta idéia seria selva e malária.
Hoje o Camboja é um país muito frágil, à mercê dos turistas estrangeiros e talvez do silêncio de alguns membros do Khmer Rouge que aguardam à espreita para o momento ideal de retomar as rédeas. O que mais acabou com o país não foi a colonização francesa na Indochina e nem necessariamente a guerra contra o Vietnã, mas sim o terror do Khmer Rouge que durou quase trinta anos.
Em 1976, Pol Pot, então o Primeiro Ministro, anunciou que o “Ano Zero” na Campuchéia Democrática e não mais Camboja, iniciaria com a campanha de coletividade agrária, o que escravizou seus cidadãos mais simples e matou intelectuais, em torno de 26% dos cambojanos da época. Essa política não duraria mais que três anos, quando Pol Pot teve que fugir para a selva após a invasão do Vietnã, o que levou à queda do governo comunista. Mesmo com a recém-tomada da autonomia cambojana em 1989, Pol Pot recusou-se a cooperar com o novo governo e continuou liderando freqüentes campanhas de sangue e terror até 1997, quando finalmente foi preso por outros membros do Khmer Rouge. Ele faleceu em prisão domiciliar em 1998.
A herança desses conflitos hoje é a pobreza quase geral e um povo até acomodado demais para ajudar a levantar a própria terra, esgotado ou talvez um povo que continua acreditando que o progresso ande lado a lado com um exército destemido.
De frente aos recentes conflitos com a Tailândia por conta de um templo recém declarado por ser um dos tesouros da humanidade pela UNESCO ao longo da fronteira – Preah Vihear – muitos jovens cambojanos se alistaram e muitos sobreviventes do terror vermelho voltaram a se alistar, ignorando os maus karmas que essa decisão poderia gerar, de acordo com a crença local.
Há quem diga que apesar de algumas instituições estarem dando seus sangues para retirarem minas do território, destacando o “Cambodian Landmine Museum and Relief Centre”, no qual falarei mais a respeito num próximo semanal*, soldados tailandeses que se feriram há poucos dias afirmam que apesar de saberem que estavam em território vizinho, esse mesmo já havia sido liberado em termos de perigo de minas… O governo cambojano negou as acusações de ter plantado novas minas.
Se isso é verdade ou não talvez nunca venhamos saber, no entanto o que já sabemos hoje é que existe sim um grande apoio governamental à educação e aos cuidados médicos dos pequenos, inclusive em regiões mais remotas. Os únicos fatores que impedem aqui que uma criança vá à escola são os próprios pais que como sobrevivem (sobrevivem e não vivem) sem jamais terem pisado numa sala de aula, acham normal que seus filhos aprendam uma outra lição desde cedo: de trabalhar. A falta de dinheiro para material escolar seria um outro fator, por isso instituições de caridades locais pedem aos turistas que ao invés de derem dinheiro para a criança entregar nas mãos dos pais, comprem uma refeição já pronta para elas, ou melhor ainda, comprem um caderno ou lápis, porque ao contrário do que possamos imaginar, muitas crianças conseguem se alimentar nem que seja com um mingau de arroz por dia na pior das ocasiões.
Viajando no interior, nos demos de frente com muitos campos de arroz que certamente possuem memórias dos massacres cometidos, moradores de casas de palha que pouco se importam com o fato de que as únicas casas mais bonitas feitas de madeira e tijolos pertençam aos partidos políticos, principalmente o Partido Popular Cambojano (o mesmo do rei). Nós também vimos tuc-tucs indo e vindo (motocicletas que possuem um compartimento traseiro coberto que leva até quatro pessoas), búfalos e vacas à beira-estrada, turistas passeando sobre elefantes, estabelecimentos sérios e duvidosos de massagens, crianças semi-nuas sofrendo de doenças de pele e muitas delas ainda vítimas de crimes e acordos sexuais abafados, vendedores de xales de seda, de água-de-côco e de refrigerante à preços incompreensivelmente exorbitantes em comparação ao preço de uma bela refeição local, e claro muita, mas muita poeira.
Como exemplo, a cena em Siem Reap (a cidade mais próxima de Angkor) não é tão diferente. A poeira é a mesma, senão até pior pelo fato de ser misturada com os gazes das motocicletas que compram seus combustíveis em garrafas usadas de refrigerantes das mesmas tias que vendem frango assado na hora e ao ar livre, com direito a uma casquinha crocante de poeira e poluição.
Famílias de até quatro ou às vezes até cinco cabeças se ajeitam por cima de uma única motocicleta já caindo aos pedaços, e trabalhadores rurais se acomodam até nos tetos das caminhonetes que os levam até os campos.
As crianças que tem o privilégio de poderem ir à escola, vão de bicicleta, com freqüência três vezes maiores que elas, e as que não podem, se esforçam para aprender uma palavra aqui e ali em idiomas estrangeiros dos turistas que invadem a paz dos colossais, trabalhados e fantasmagóricos templos e palácios de Angkor para assim melhor venderem postais ou camisetas.
Tenho certeza que os ativistas dos direitos dos animais não descobriram esse lugar ainda, porque a matança de crocodilos e serpentes é um negócio abundante e lucrativo, dentro e fora da região em volta do gigantesco lago Tonle Sap, quando os tailandeses compram os pobres bichos que são mantidos em fazendas para transformá-los em bolsas, carteiras e cintos, e quando famintos turistas resolvem experimentar algo diferente além da deliciosa cozinha Amok.
Para mim é fácil descrever minha visita ao Camboja: simplesmente impressionante. É impossível sair de lá com uma fraca impressão. Tudo que vi e experienciei foi único e forte, isso porque não sou turista de primeira viagem e já estive em outros países do sudeste asiático em diversas ocasiões.
O Camboja pode até não fazer parte da lista dos lugares de sonhos de muita gente por ser pobre e sub-desenvolvido, mas a sua riqueza histórica que vai dos tempos de ouro de Angkor até a fim do terror vermelho, é sem dúvida inigualável.
Luciana B. Veit
E o Camboja hoje?
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Tags: Angkor Wat, Camboja, Khmer Rouge, Pol Pot, viagens
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2 Comentários
Oi, Luciana
Acabei de ver um filme de 1984 sobre o Camboja, The Killing Fields (inexplicavelmente, em português, Os Gritos do Silêncio). E vim correndo procurar referências e informações atuais sobre a situção sociopolítica no Camboja. Ótima surpresa deparar-me com seu texto, informativo e fluente como um riacho esperto.
Obrigada :-)
Eu também acabo de ver o fime “the killing fields” e também me interessei em saber como é hoje o Camboja.O texto está muito legal da para visualizar bem. Só pra não ficar só nessa visão de paraíso e subdesenvolvimento, soube que o Camboja está virando um dos tigrinhos asáticos, periférico mas pelos ….pelo menos oque né? mão de obra barata para produzir relógios baratos, objetos de plástico e etc. Viva expansão do capitaismo….(e Realmente) viva o fim do terror vermelho…