Bula, Mana!

fiji, prajaOlá, Magia!

Embarcando no avião que nos levaria para as ilhas , já imaginamos o que encontraríamos por lá: um paraíso exótico de águas mornas e cristalinas o ano todo, um resort confortável que dispõe de várias piscinas, morcegos visíveis à noite, show noturno típico na discoteca da ilha, todas as refeições em forma de buffet à beira do mar, coqueiros, areias finas e brancas, barreira de corais a poucos metros da areia para excelente mergulho ou snorkelling, coquetéis que levam guarda-chuvinha no copo e muita sombra, sol e água fresca.

Também imaginamos e de fato constatamos (incluindo a descrição acima) que a maioria dos com quem dividiríamos um pedaço do paraíso seriam endinheirados pombinhos em lua de mel vindos do mundo todo, ou famílias com australianas, neozelandesas ou residentes das outras ilhas da Oceania ou da Ásia, como é o nosso caso.

Acontece que como em qualquer viagem para um país diferente, nos deparamos com várias surpresas, coisas que não havíamos imaginado ainda.

Primeira : conseguiríamos um upgrade de quarto pelo fato do nosso estar ocupado.

Segunda surpresa: o “Bula” não significa só oi, como diz o livreto sobre Fiji, mas sim oi, bom dia, boa tarde e boa noite. Na dúvida, diga “Bula”.

Terceira surpresa: obrigado se escreve “Vináka” em Fijiano, mas se fala “Bináka”.

Quarta surpresa: os fijianos seriam tão parecidos uns com os outros: no corte curto e redondo do cabelo pixaim tanto feminino quanto masculino dos habitantes de pele morena clara, de corpos cheios de andar idênticos.

Quinta surpresa: até crianças nativas bebem Kava – bebida verde escura de gosto entre amargo e apimentado que provoca um leve efeito narcótico, além de ser calmante, analgésico e antioxidante. A Kava antigamente era uma bebida reservada aos chefes das tribos, mas hoje faz parte da happy-hour (e tratamento de algumas doenças, como tosse) de qualquer cidadão: às vezes uma happy-hour que se multiplica por cinco ao longo do dia.

Sexta surpresa: os fijianos não se dão bem com os outros numerosos habitantes do arquipélago de 300 ilhas (duas delas grandes e o restante menores e por vezes até minúsculas), os indianos.

Sétima surpresa: a comida local – Lovo – é mais gostosa do que parece ser.

Oitava surpresa: os nativos acham estranho algum turista pedir para beber água de côco.

Nona surpresa: não deparamos com nenhum tubarão grande – só bebê – fazendo snorkel, apesar da fama da região.

Décima surpresa: apesar do show típico noturno ser com os funcionários do resort vestidos com saias de folhas secas, colares de lei e lanças nas mãos relembrando o passado nada distante da época do canibalismo, eles não gostam de falar a respeito. Na época do “cardápio” mais variado, os fijianos comiam os restos dos inimigos por eles assassinados para demonstrarem claramente que não havia respeito pelas famílias das vítimas. Muitos europeus evitaram por muito tempo as Ilhas dos Canibais, como eram conhecidas, mesmo já tendo colonizado algumas vizinhas. Mas em 1643 o holandês Abel Tasman resolveu tentar sua sorte (e seus órgãos). 231 anos mais tarde foram os ingleses que resolverem tomar posse das ilhas Fiji, colocando aí um basta oficial no canibalismo. Mas nem tudo termina com uma lei, não é?

Nossa décima-primeira e última surpresa em Fiji foi de termos encontrado uma senhora extremamente enigmática, parecendo ter seus 99 anos, que estava viajando sozinha. E daí? Daí que isso não se vê todo dia no meio do Oceano Pacífico. Uma senhora que não tinha pressa para terminar suas refeições só para não ser percebida pelas famílias e casais; uma senhora que fazia caminhadas em volta da ilha duas vezes por dia; uma senhora que nadava de touca e óculos de natação em mar aberto onde já a maioria dos turistas não ia sem medo de tubarões; uma senhora de bom gosto e estilo próprio, visto suas sandálias, bolsas e vestidos; e uma senhora que deixou muita gente se perguntando por que alguém nessa idade estaria fazendo uma viagem dessas sozinha. Se era viúva, cadê os filhos ou netos? Se nunca se casou, onde estavam os amigos? Será que foi tão má ao longo da vida, o que explicaria sua solidão hoje? Ou será que é tão teimosa que resolve fazer as coisas 100% do jeito dela? Achamos incrível vê-la nesta situação, porque para alguém nesta faixa etária a morte certa está logo ali. Se ela passasse mal, não chegaria a tempo em nenhum hospital decente. Bom, quem sabe ela não gostaria de morrer já com os pés no paraíso? Fato é que nunca saberemos o motivo dela estar sozinha, mas devo admitir que sua presença foi não só para mim, mas para toda a ilha-resort um grande enigma.

Quanto a Fiji, é de fato um lugar especial para se passar momentos especiais com toda a sua magia. Mas sinceramente, se não fosse pelo fato de ser tão isolado, de ter uma história tão macabra de canibalismo, Fiji não mereceria uma segunda visita nossa, porque o mundo precisa ser explorado e voltar no mesmo lugar duas vezes é porque ele deve ser muito especial, como é o caso das ilhas Maldivas. Ups, já não está mais aqui quem falou…

Luciana B. Veit


 

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