Vinte e quatro horas de antecedência e eu não pensava em outra coisa, mas somente assim o que o sol raiou é que comecei a me ocupar de tudo.
Passei o aspirador no chão, e no cachorro também, que anda sofrendo de caspa. Depois limpei o lavabo, mas sem me preocupar demasiadamente com o resto dos cômodos. Mandei o marido para o mercado para comprar as coisas que ainda faltavam e enquanto isso, de bob no cabelo, comecei a esconder as asas quebradas dos aviões de brinquedo do meu filho e peças de Lego, que estavam espalhados pelo carpete.
Troquei a camiseta suada, passei duas gotas de perfume entre os seios, conferi a própria imagem no espelho. Fiz finalmente a mesa, recheando com dois tipos de tortas, frutas e um belíssimo bule de chá, que nós jamais usávamos no dia-a-dia.
Conferindo se tudo estava no devido lugar, corri os olhos para a máquina fotográfica pensando até em tirar fotos de um evento tão solene, mas aí me senti ridícula.
Finalmente a hora havia chegado. Meu marido, meu filho, meu cachorro e eu estávamos prontos, só aguardando o segurança do prédio avisar que os visitantes estavam a caminho do elevador.
Na verdade meus visitantes não passavam de colegas de trabalho de meu marido, que eu, em um momento de “fraqueza”, havia convidado para tomarem um café em casa.
A tamanha agitação se deu pelo fato de eu, principalmente, não ser muito sociável. Não que seja um bicho do mato, longe disso, já que adoro viajar e curtir com C maiúsculo a vida agitada de uma cidade grande, mas a respeito de amigos, convidados, bom, aí eu me sinto literalmente como um peixe fora d’água.
A vida de expatriado força a pessoa a se tornar artificial, ou a se recolher de um círculo de amigos, que na maioria das vezes, não passam de meros conhecidos. A família fica mais unida e a vontade de se encontrar com terceiros quase que desaparece por inteiro.
Gosto de ter contato com os nativos do pais onde me encontro, mas mesmo aí, continuo não sendo fã de grandes intimidades. Já cheguei até a me perguntar se eu sou tão insociável pelo fato de escrever, o que é certamente revelador, mas então digo à mim mesma que não sinto falta de melhores amigos. Estranho? Talvez.
Já se passaram trinta minutos do combinado e nada dos convidados chegarem. Olho impaciente para o relógio e penso que deveria estar vendo o noticiário, surfando na internet, fazendo cócegas nos meus dois companheiros, lendo ou escrevendo. Que perda de tempo!
Passados quarenta minutos eles finalmente chegam. Se desculpam pelo atraso, culpando o trânsito de Moscou (uma desculpa que em pleno feriado não cola), carregando consigo um pequeno bouquet de flores e doces para meu filho.
Nos sentamos à mesa, nos servimos dos comes e bebes e então aquele silêncio desconfortável invade a sala: qual deve ser o tópico da conversa? Alguém faz um comentário qualquer e então o gelo finalmente é quebrado. Três horas de intensiva conversa passam voando, mesmo com o cachorro tentando estuprar as pernas dos convidados uma vez ou outra, com intervalos matemáticos.
Ao escurecer, a convidada espia seu relógio de pulso pela primeira vez. Que bom, penso, logo eles irão embora. Demoram dez minutos agradecendo o convite, vestindo os respectivos casacos, calçando as botas e as luvas e finalmente partem.
Foi legal, não? Pergunta meu marido. Então me dou conta que de fato essa visita tenha me tirado um pouco da rotina, por mais que também tenha roubado meu precioso tempo. Mas ainda sim, com tanto alvoroço, tenho que me recuperar para o próximo convite que farei, talvez daqui a três anos.
Luciana B. Veit
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