Visitando um festival típico coreano esta semana em Seul, meu filho e eu tivemos sentimentos mistos a respeito daquilo que vimos e ouvimos.
O teatro era ao ar livre, os assentos numerados, as recepcionistas vestiam o tradicional hanbok e toks, que são bolinhos de arroz, e um suco vermelho um pouco amargo que não tive como saber de qual fruta era, eram oferecidos para o público de graça e além disso adultos e crianças ainda puderam pintar leques de aquarela num stand de frente a entrada para a sala de espetáculos.
Como de hábito, fomos (bem) tratados como seres extra-terrestres por não termos a pele amarela e nem o olho rasgado, e para variar, meu filho teve que se defender daqueles que insistiam em passar a mão nos cachos loiros dele, que de acordo com as crenças locais, tocar a cabeça de uma criança loira traz sorte.
Até aí tudo bem. Nada que ainda não tivéssemos visto antes. Mas assim que o espetáculo começou, acumulamos mais uma experiência. Não sendo a primeira apresentação artística que já tínhamos visto na Coréia do Sul, como um casamento típico, show cômico de taekwondo (o arrebatador “Jump”), ou show de tambores e dança de leques, entre outros, o que estava para começar me fez refletir sobre a beleza da música em si, do tom, da harmonia, independentemente disso fazer parte da cultura e da tradição local ou não.
O tradicional Pansori é cantado por uma ou duas pessoas de voz grave, geralmente uma contralto em hanbok e cabelos divididos ao meio presos para trás ou um baixo também vestido à caráter, que contam uma história, acompanhados somente por um tambor. Os versos melódicos captam sem dúvida a atenção do público, mas passados cinco minutos, para aqueles que não entendem o Coreano, o Pansori começa a ficar monótono. Não é a mesma experiência quando assistimos uma ópera italiana sem falar italiano. No Pansori o ritmo e a melodia parecem ser sempre os mesmos, mas ele é pelo menos agradável de se ouvir.
Já nos próximos números, fomos obrigados a nos perguntar se agüentaríamos assistir o espetáculo até o fim. Não estou sendo ignorante, mas absolutamente sincera. Na ópera chinesa de Pequim ou no kabuki japonês, o fator bizarro é o mesmo, mas pelo menos existe nelas uma história que até mesmo alguém que não fale a língua local possa acompanhar.
No espetáculo coreano, não conseguimos compreender como alguém poderia vibrar com uma música onde 80% dos instrumentos produzem um som metal, como se os artistas estivessem batendo uma colher em uma panela desvairadamente. E acreditem, como o público nativo vibrou com esses números, batendo palma de acordo com a melodia (qual?) e cantando junto.
Eu sei, tendo já visitado vários países e vivido em quatro deles completamente diferentes um do outro, que tradição e cultura variam. Mas ainda sim, o bom gosto predomina. Ninguém precisa ser um ouvinte ávido de música clássica para concordar que a música de Mozart, por exemplo, é divina, por conta da harmonia e beleza. Já o som pesado de heavy metal não é bonito, mas provoca no ouvinte um sentimento de selvageria, de libertação, de poder.
Tudo bem, nem todo mundo gosta de vermelho, mas mesmo as músicas típicas folclóricas de alguns lugares são sublimes, como a música saídi egípcia, a clássica indiana, ou balinesa, tailandesa…
Pouco antes do espetáculo coreano terminar, pude pelo menos vibrar com a delicadeza e graciosidade das dançarinas, celebrando a estação do Dano, que se dá pelas preparações locais pouco antes do verão chegar na península coreana.
Com todo o respeito que o povo coreano merece, especialmente por tratar seus visitantes da melhor maneira que podem, educar meus ouvidos para a música tradicional deles continuará sendo um grade desafio.
Luciana B. Veit
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