Outro dia estava lendo o jornal pela manhã quando me deparei com um anúncio/artigo que falava sobre um evento cultural aqui em Seul que muito me chamou a atenção.
Marcado para o dia seguinte, às 09.00h da noite, aqueles apaixonados pelo teatro se encontrariam no local determinado e teriam somente 24 horas para se enturmarem com os rostos estranhos das pessoas do novo time (entre vários outros) do qual faria parte e fazerem dessas poucas horas uma peça de teatro com aproximadamente 20 minutos de duração.
Primeiro, o escritor teria que passar a noite em branco escrevendo o roteiro. Não, ele não teria tido a chance de fazer isso antes porque os temas a serem abordados seriam tirados de dentro de “tigelinhas” na própria noite da preparação do evento – e quanto a isso o organizador seria super rígido.
Com o roteiro pronto as 08.00h da manhã, os atores se encontrariam com o diretor e ensaiariam o dia todo, porque às 09.00h da noite seria showtime!
Bom, cheguei no estabelecimento pronta para experienciar algo novo. Havia tido aulas de teatro na minha infância, mas nesse caso, apesar da proposta estar aberta para qualquer pessoa interessada, chamou mais a atenção de atores e escritores profissionais (no entanto desempregados), do que pessoas que como eu, nunca tiveram a chance de participar de uma maratona cultural dessa antes, e logo com toda a responsabilidade do mundo nos ombros.
O papel de diretora me foi delegado e foi aí que minha espinha gelou. Estaria confortável com o papel de escritora e talvez até de atriz por uma noite, mas diretora? Respirei fundo e encarei o desafio com confiança – tudo em Inglês, obviamente.
No dia seguinte, um sábado, deixei meu filho aos cuidados do meu marido e parti para essa inesquecível experiência.
Chegando no mesmo local da noite anterior as 09.00h da manhã, já munida com o roteiro que o escritor havia me mandado por e-mail as 05.30h da madrugada, me reencontrei com meu time de entusiasmados atores e logo começamos a trabalhar. Lemos e relemos o roteiro até os atores deixarem o papel de lado, estudamos os perfis psicológicos e os objetivos de cada personagem, depois fui atrás de tudo que podia arrumar em duas horas, como fantasia e propriedades de palco – também conhecidos simplesmente por “props”– que são todos os objetos que são necessários – e até me ocupei da trilha sonora.
Achei incrível que pude dar conta do recado meio a profissionais da área e mal posso dizer o quanto me senti durante todo esse dia; como se estivesse no corpo de outra pessoa.
A cada hora que passava a adrenalina subia. Em pouquíssimas horas pude encontrar pessoas que falavam a mesma língua que eu aqui na Coréia do Sul, fora meu marido e meu filho, claro, e isso me encheu o peito de alegria.
Estar no meio de atores, de diretores, de escritores de teatro, mesmo que só por um único dia, me fez olhar o mundo de novo com outros olhos. Por exemplo, quão triste é a realidade de talentosos atores / dramaturgos / diretores serem obrigadas a batalharem pelo pão de cada dia em outras áreas somente em nome da sobrevivência – absolutamente sem paixão.
Na verdade sempre soube que artistas são crianças inocentes e putas experientes ao mesmo tempo e é exatamente isso que faz deles seres tão especiais.
Mas de volta ao show, com a lua alta no céu e a chuva caindo lá fora, a casa já estava lotada e nós mal podíamos aguardar para tomar conta do palco. Mesmo com a responsabilidade da direção, ainda vivi um pequeno personagem na estória, o que foi muito divertido, sem dúvida.
Assim que ouvi meu nome como diretora saindo da boca do organizador do evento, um ator canadense muito carismático, achei que estava sonhando e pedi para uma das atrizes me beliscar.
Segundos mais tarde lá estávamos nós: três atores e uma atriz no palco dando conta do meu recado durante uns 20 minutos de frente ao um público gentil, interessado, mas ainda sim crítico.
Os aplausos me fizeram compreender o motivo de tantos atores trabalharem quase que de graça (…esqueça Hollywood, faça-me o favor!…), porque naquele instante onde toda a atenção do mundo é só sua, nada é mais valioso.
Após a apresentação, me despedi do meu time e de todos aqueles com quem convivi durante um dia todo e jurei a mim mesma que participaria desse programa caso ele cruzasse meu caminho de novo. No dia seguinte, acordei tarde e precisei de algumas horas para organizar meus sentimentos: estava extremamente feliz por ter feito parte desse feito cultural de 24h de duração, mas imensamente triste por não mais fazer parte desse mundo tão cheio de magia.
Meus escritos literários, logo após minha família, continuam me sendo sagrados e assuntos prioritários, porém espero um dia poder voltar para esse mundo paralelo que é o teatro.
Resumindo, acho que a proposta de 24h de teatro deveria fazer parte de qualquer programação cultural de qualquer grande cidade que se dá o respeito, porque o efeito de tirar os amantes da arte de suas rotinas e envolve-los num esquema desse é o maior presente que seus egos poderiam receber.
Luciana B. Veit
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Tags: Coréia do Sul, cultura, teatro
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