Mensagem de Fim de Ano


luciana b. veit, xangai, templo, lago

Mais um ano está para terminar. É inevitável que nós olhemos para trás nesta época para fazermos um balanço dos nossos feitos e para a maioria das pessoas, muitos sonhos não foram realizados.

Tivemos perdas e ganhos, vivemos vitórias e derrotas, sentimos alegrias e tristezas. Muita gente deu um passo para frente e dois para trás e muita coisa teve que ser sacrificada em nome de um ideal: quem se deu bem na carreira perdeu a namorada, quem se casou com o príncipe encantado renunciou a profissão e por aí afora.

Não é bem assim, você deve estar dizendo... Sim, talvez não seja (eu espero que não seja), mas fato é que não existe ninguém 100% feliz e satisfeito, porque se existisse a vida perderia sua graça, porque a esperança é o nosso combustível.

Assim como o aprendizado geral ou focalizado, nossa vida é uma escada sem fim: quando alcançamos um degrau, logo partimos para o próximo. Por mais instintivo e menos estratégico que isso possa parecer para muitos, estamos sempre em busca de evolução.

Seria eu uma defensora do sofrimento em nome do progresso espiritual? É claro que não! No entanto, defendo a tese que a cada nova lágrima (interna ou externa) nasce uma nova armadura, porque somente aquele que sobreviveu a tempestade conseguirá prezar o céu azul.

É preciso lutar para afastar a frustração de dentro do peito e olhar para o futuro com esperança. É necessário parar na frente do espelho e dizer: No ano que vem vai ser tudo diferente. Mas será que vai mesmo?

E aquela promessa de emagrecer, de fazer aquela viagem, de largar os vícios, de tentar uma coisa nova pela primeira vez? E aquela outra de chutar o pau da barraca e de fazer aquilo que tem vontade pelo menos uma vez na vida, sem se preocupar com as conseqüências? Irresponsável e egoísta você diz? Talvez, mas ainda sim livre, com a consciência em paz, não perante os outros mas perante a si mesmo.

Já é mais que hora de enfrentarmos nossa missão na Terra e entender que por mais que tenhamos um coração de ouro, ele não será maciço a não ser que nos coloquemos em primeiro lugar, porque se não formos donos do nosso interior e eventualmente machucar pessoas no caminho, jamais nos sentiremos seguros de fazer o que deve ser feito. Só que é imprescindível que nos lembremos que não somos os únicos com tais direitos, se não deveres; já que a alma do vizinho é tão livre quanto a minha.

Feliz Natal e que 2009 seja um palco de grandes espetáculos e mais um degrau alcançado no nosso caminho para a ascensão, para mim e para vocês.

Luciana B. Veit
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Dezembro chegou!


arvore, luz, inverno, neve

Que legal! A época mais querida do ano acaba de chegar. Já entramos em dezembro. Com isso, as cidades se enfeitam de luzes e de pinheiros decorados, e na Europa os mercados de Natal são abertos. Aquelas musiquinhas natalinas com diversos intérpretes que ninguém mais agüenta ouvir inundem algumas estações de rádio (pelo menos aqui na Coréia do Sul), e os shopping malls e os outros endereços de pechinchas lotam de clientes mesmo durante a atual crise mundial, fazendo com que nossos bolsos se esvaziem, mas curiosamente que nossos rostos se alegrem.

É nesse mês que nos lembramos de mandar cartões à moda antiga ou online àqueles que não falamos com freqüência, seja por esse ou por aquele motivo - pessoal ou profissional. É também nesse mês que mentimos à beça com a fábula do Papai Noel. É também quando sentimos uma saudade mais aguda do que o normal daqueles que amamos e que se encontram tão longe – fisicamente ou emocionalmente. É quando nós, cristãos, retomamos nossa fé, lembrando que Natal não é só comilança, viagens e troca de presentes em abundância, mas uma ocasião muito maior. E já que estamos nessa onda religiosa, fazemos promessas para o ano seguinte, acreditando que tudo pode, será ou pelo menos deveria ser melhor.

Existem também aqueles que de repente se encontrarem sozinhos numa ocasião tão festiva. Esses são aqueles que independentemente da fé, caem na depressão e começam a desenvolver, senão até levam até o fim, idéias desesperadas e macabras, agindo contra seus próprios seres por não conseguirem enxergar a luz no fim do túnel, por mais embaçada que ela possa momentaneamente estar.

Infelizmente as tragédias não param por aí. Diversas pesquisas foram feitas e o resultado foi que brigas violentas, estupros e até assassinatos em família ocorrem com mais freqüência durante as festas de fim de ano. Motivos? Que tal ter que agüentar aquele(s) parente(s) que você não suporta? A obrigação social de ter que encher a cara? Desabafar suas frustrações do ano que está para acabar em substâncias alucinógenas ou até no seu ente mais querido, achando que ele tem que ter forças para suportar tudo aquilo que você resolve aprontar ou por para fora, como a confissão de ter pulado a cerca ou de ter roubado na firma?

Agora muitos daqueles que bebiam, se drogavam e hoje já não se drogam ou bebem mais, se encontram na época natalina melancólicos, isolados, achando até que sem a bebida ou sem a droga eles não tem mais alegrias, logo, não tem mais vontade de viver. Eles sabem o significado de brindar uma única taça de seja lá o que for à meia-noite, conhecendo à fundo as conseqüências de um só drinque após tanto esforço para esquecê-la e voltar a ter controle de si.

Natal é uma época iluminada de idéias para o bem da humanidade, de caridade, de reencontros, de espiritualidade, mas é como os asiáticos e os mais sábios dizem: tudo na vida é harmonia: as trevas e a luz, o yin e o yang...

Mas mesmo assim, como gostaria que pelo menos uma vez no ano tudo fosse só luz, só yang... E ao invés de “Jingle Bells” ou “I Wish You a Merry Christmas” como música de fundo, ouvíssemos com mais freqüência qualquer faixa do CD “A Midwinter Night’s Dream” por Loreena McKennitt, como “Noel Nouvelet” ou “God Rest Ye Merry, Gentlemen”, por exemplo.

Luciana B. Veit
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Ousar se expressar


seul, coréia, demonstração

Quantas vezes ousamos expressar aquilo que tanto queremos ou necessitamos pôr para fora?

Você trabalha há tanto tempo no mesmo departamento e aquela fulana que mal chegou já foi promovida. Será que seu chefe não ouviu todas as letras da boca dela colega que era ambiciosa e que gostaria de crescer na firma? – Ora, mas isso é óbvio. Todo mundo o quer – você replica. Acontece que existem sim pessoas acomodadas e que tem outras prioridades do que ter as estrelas no céu como alvo.

Expresse sua frustração!

Ou talvez você namora há nove anos e até já noivou, mas nada de casamento. – Ai, mas se eu for falar com ele estarei o pressionando – você explica. Minha amiga, não acho que querer finalmente dar o passo que já foi programado há bastante tempo seja pressionar ninguém. É hora de colocar os pingos nos iis.

Expresse sua impaciência!

Um caso comum na Coréia: jovens e solteiros professores de Inglês (canadenses, ingleses, americanos) estão sempre à procura de uma boa companhia e alguns deles tomam gosto pela extrema delicadeza e vaidade das coreanas. Mulheres assim fazem boas mães e ótimas esposas, eles pensam. Então eles flertam primeiramente: online ou ao vivo. Mas então a primeira cantada (de classe, por favor!) passa a ser a décima segunda e nada da mocinha se expressar. Quando o estrangeiro finalmente abre seu coração mais diretamente (sem ter aberto mais nada por enquanto), leva um fora porque grande parte das mulheres nativas jamais, repito, jamais sairiam com estrangeiros. Isso não é coisa de nazista não, mas sim de uma tradição comum de um dos povos mais homogêneos do mundo! Que perda de tempo...

Expresse seus gostos e desgostos!

Que tal aquela criança, filho de italianos, que é obrigada pelos pais a ter aulas extra-curriculares de Japonês, harpa e kendo? – Mas mãe... – suplica o menino. – Mas nada! Você ainda é pequeno demais para saber o que é bom para você!

Expresse sua personalidade!

Numa companhia multinacional, um diretor chega para seu chefe numa bela manhã e informa: - Desejo ser transferido para a Austrália! Por mais que seu pedido não dê em nada, seu chefe agora sabe de suas preferências.

Expresse seus sonhos!

A chave para nossa felicidade na verdade são muitas, porém a mais longa, dourada e mais bonita de todas é aquela que destranca o nosso íntimo. Quando nos conhecemos ao fundo, sem truques e sem desculpas, sabemos exatamente o que falta para nos completar e isso não é pretensão.

Ousar ir em frente e se expressar é ousar querer ser feliz...

Luciana B. Veit
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A Roda da Fortuna


roda

Outro dia estava lendo sobre a roda da fortuna. Para aqueles que nunca ouviram falar dela, se trata da roda do destino que pertence à deusa chamada Fortuna.

Existem milhões de explicações que se referem à ela, porém a mais geral de todas é a nossa vida e a própria natureza é como a roda que sobre e que desce e que também nunca pára de se movimentar.

Ontem os romanos regiam o mundo, hoje são os americanos e amanhã já será um outro povo. Nenhum império dura para sempre.

Com essa crise financeira mundial há quem diga que estamos assistindo o começo do fim da liderança absoluta dos Estados Unidos. Apesar dos experts no assunto estarem começando a se dar conta disso, fato é que só o tempo dirá. Mas o que faremos até esse dia chegar? Será que nossas vidas cotidianas mudariam mesmo se o poder do mundo passasse para os europeus ou para os chineses?

Não é que esteja sendo ingênua, mas já não agüento mais ouvir sobre especulações. Acredito que nossa missão face ao desconhecido é de seguirmos em frente na maneira como sempre o fizemos. Se a empresa X ou Y acabar falindo mesmo, nossa vida terá que mudar, e mudanças são boas. Basta olharmos para elas com otimismo. Pode ser que o dinheiro no fim do mês só possibilite uma pizza no sábado ao invés de pizza e teatro, mas a experiência estará sendo nova – e isso não tem preço.

A vida é preciosa demais para passarmos nossos dias fazendo as mesmas coisas para sempre. Queiramos ou não, aceitemos ou não, somos sim como uma roda.

Mas de volta à crise financeira, existe a crença asiática do Wu Wei, que nos ensina a viver hoje e a dar um passo de cada vez. Não adianta ficarmos analisando o que poderia ser de nós caso isso ou aquilo viesse a acontecer. Nem sabemos o que vai acontecer e qual a força da palavra destino realmente exerce em nossas vidas.

Dancemos conforme a música! Sejamos criativos e abertos ao novo! Não nos preocupemos em demasia com algo que ninguém sabe como vai terminar! Curtamos cada dia como se ele fosse o último! Mas ao mesmo tempo durmamos com um olho aberto, já que isso não custa nada...

O que a crise já está trazendo é mudança. Enquanto uns caem, outros sobem e por mais que não queiramos admitir, nascer e morrer faz parte do ciclo da natureza exatamente com o subir e descer da roda da fortuna. Mesmo as cartas ciganas mostram que a morte não significa necessariamente o fim, mas sim um novo começo.

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Cultura Enlouquecida


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A cena cultural aqui em Seul é sempre rica, mas especialmente em outubro ela é variadíssima. Festivais de dança, teatro, ópera, encontros culturais entre escultores e leituras de escritores... São os residentes estrangeiros que agradecem, já que 90% desses programas são de grupos de outros-mares de passagem pela capital e as apresentações se não forem em Inglês, serão em Alemão, Francês, Espanhol, Japonês e por aí afora.

Fazendo parte do grupo teatral “Seoul Players”, eu mesmo dirigi cinco peças curtas em Inglês (Hanger, That Word, Bin Laden’s New Direction, Jenny e The Bank Machine). Meus atores são profissionais dedicadíssimos e super talentosos que só aguardam festivais como esse para poderem voltar para o palco.

Mas o que mais me chamou a atenção durante esse mês, não foi necessariamente a qualidade altíssima das produções, mas principalmente o nível de suas realidades, para não chamar de loucura.

Já não é de hoje que o público passou a ser mais exigente, no qual além do simples porém complexo entretenimento esperam por explicações filosóficas, mesmo essas vindo de uma farsa barata. Esse mesmo público deseja ter algo para discutir com o fim do programa, e não somente sair do teatro e dizer: é, foi legal.

Agora será que a tendência de fazer o público sair falando bem ou mal, mas falando a respeito daquilo que viram, seria apostar em produções experimentais mas ao mesmo tempo de sucesso? Então por que as chamo de experimentais? Por que chocar passou a fazer parte da rotina cultural contemporânea. Aquilo que não choca não tem graça.

Quem sabe Sheakspeare já não se deu conta dessa receita na sua época de ouro...

Falar de sexo deixou de ser tabu há muito, mas há muito tempo, mesmo antes de garotas de programa resolverem publicar livros a respeito. Então o tema quente de hoje parece ser a loucura em si, o sub-consciente dos nossos seres, a nossa sufocadora vontade de sermos livres, de corpo e alma, de fazermos aquilo que nos dá vontade sem nos importarmos com aquilo que os outros vão dizer ou pensar. E essa loucura tem ramificações: espirituais e até culturais, quando neste caso pegamos uma peça escrita há tantos e tantos anos e fazemos dela uma produção atual, com um novo ponto de vista, e novas interpretações para as entrelinhas.

Talvez mencionar a palavra loucura neste contexto não seja politicamente correto, mas diferente do que o dicionário Aurélio ou dos seguidores de Freud tenham como conceito, o meu é que a loucura não é uma doença, mas sim uma forma de liberdade, porque mesmo os leigos concordam, que tudo ou todos aqueles que nadam contra a corrente são “loucos” de alguma forma.

Por isso, proponho um brinde à nova onda cultural! Que ela se liberte cada vez mais das regras de fazer as coisas de acordo com aqueles que tem medo de se libertarem, nem que seja uma vez ou outra, dessa ou daquela maneira...

Luciana B. Veit
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Fofocas e a Internet


computador, teclado

No início do mês a Coréia do Sul entrou de luto por conta do suicídio de uma das atrizes mais queridas da nação, apesar da maioria dos coreanos estarem cientes que a taxa de suicídio do país é a mais alta do mundo atualmente – inclusive dentre adolescentes.

Mas voltando ao suposto motivo da atriz Choi Jin Sil ter resolvido se enforcar no banheiro da própria casa deixando filhos pequenos para trás: dizem que ela estaria sofrendo desesperadamente por conta de um rumor que estaria rolando solto pela internet. Há poucos anos, ela teria emprestado uma quantia bastante sólida de dinheiro para um colega ator, que com o passar do tempo, não conseguia pagar sua dívida. Choi Jin Sil estaria então fazendo tanta pressão para receber seu dinheiro de volta, que seu colega ator preferiu se matar de dentro da própria van de vergonha – uma palavra que os asiáticos levam muito a sério – a encontrar uma solução para quitar suas dívidas.

Rumores, rumores, rumores... Fofocas e rumores nunca foram tidos com coisa positiva, por mais picantes que pudessem parecer, mas enquanto eles ficassem dentro de um determinado círculo de pessoas, a “vítima” ainda tinha como ignorá-las até que os fofoqueiros encontrassem um outro alvo.

Quem jamais se envolveu em fofoca, tendo-a provocado ou ainda como vítima, que atire a primeira pedra!

Como vítimas, aprendemos ainda crianças que a melhor forma de lidar com rumores ou apelidos mal-cheirosos é por ignorá-los. Porém existem situações que se forem ignoradas, elas passam a ser confortavelmente taxativas e com isso a criança pode até chegar a desenvolver traumas. Quando adulta, essa mesma criança não saberá como se defender. Por isso é importante saber encarar uma situação de frente desde cedo e não deixar que ela ganhe força.

Meu filho aprende taekwondo hoje, mas digo a ele que é somente para sua defesa. Mas o que é defesa? É quando alguém bate primeiro? Sim, quando alguém bate primeiro ou mais tarde, quando alguém espalha um rumor que tem acabado com seu sono, com sua honra e até com uma possibilidade de arranjar um bom emprego por ter uma suja “cyber-reputação” por conta de uma imbecilidade que alguém iniciou... É claro que sou favor ao diálogo em primeira instância, aos processos em segunda estância, mas existem pessoas tão sub-desenvolvidas mentalmente que só entendem a mensagem quando levam uma bela porrada na cara.

Mas o que fazer quando um rumor maldoso se espalha através da internet? Basta digitar seu nome na Google, por exemplo, para descobrir em que pé está a sua imagem virtual. A rede é uma bola de neve e por isso a vítima do “cyber-bullying” se encontra de repente de mãos atadas. Ela ainda pode tentar se explicar através de um blog ou na sua página do Facebook por exemplo, mas quando o rumor está à solta, será a sua voz contra Deus sabe quantas...

É por isso que o governo sul-coreano culpou uma usuária de uma comunidade virtual pela morte de Choi Jin Sil pelo fato dela ter iniciado os rumores, apesar dela jurar que já havia escutado-os da boca de terceiros.

Cautela com aquilo que falamos ou fazemos em público é a chave da paz de espírito. Uma coisa é um rumor que diz: aquela fulana pensa que á a dona do mundo, que é superior por ser tão misteriosa. Outra coisa é um rumor assim: aquela ali é uma vagabunda por namorar um e flertar com trezentos outros na rede e fora dela.

Não vou dizer que sou contra comunidades online, mas quando resolvi me retirar delas, foi quando percebi que não estava ganhado nada com isso, nem mesmo amigos de verdade. Senti-me como se a minha vida tivesse virado um livro de páginas abertas e sinceramente, eu não necessito esse tipo de popularidade.

Sem contar que esses portais são tão transparentes aos olhos de um louco em busca de vítimas de crimes sexuais ou violentos como uma janela de cortinas abertas, permitindo assim que sua vida íntima, nem que isso seja assistir televisão à noite deitado no sofá de pijama, esteja exposta para qualquer um – QUALQUER UM.

O suicídio de Choi Jil Sin foi muito mais que uma tragédia: isso foi um alerta para o descontrole e liberdade excessiva na internet.

Famosos nem sempre tem como se protegerem do “cyber-bullying”, mas nós, simples mortais, temos. Existem até agências que se especializaram em limpar nomes sujos da rede, como a “Reputation Defender”, por exemplo. Contudo, lembremos que é sempre melhor evitar uma situação desagradável no qual mordemos as nossas línguas, do que ter que remediá-la quando ela já está sem controle.

Luciana B. Veit
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Tradição Esotérica


templo, orando, budistas

Desde que nos conhecemos por pessoas pensantes, sabemos dos conflitos entre cristãos, judeus e muçulmanos que vem se alastrando há séculos. Há quem acredite que esses conflitos nunca terão uma solução. Uma hora cristão xinga muçulmano, muçulmano amaldiçoa judeu e judeu ameaça cristão e muçulmano.

Que bom que nada ouvimos dos monges budistas! Isso sim é religião de paz! - costumava pensar até começar a ouvir com mais freqüência o que alguns monges e seguidores da crença andam aprontando pelo mundo. Sendo por motivos pacíficos, liberais ou insolentes, os budistas estão mostrando que também sabem ranger os dentes.

Aqui na Coréia do Sul, ou na Terra das Calmas Manhãs, preferivelmente nos templos- pensões que recebem turistas que estão em busca dos seus “eus” verdadeiros e ainda topam acordar antes do sol nascer para meditar, varrer o chão e meditar de novo com o mesmo pijama já usado por centenas de outros e ainda terem que pagar por isso, experienciamos um outro tipo de monge em comparação com aqueles que estão tomando as ruas da capital em protestos contra o presidente Lee Myung-Bak.

Eles não protestam por conta da retomada da importação da carne norte-americana, mas sim pelo gabinete presidencial estar formado de treze cristãos protestantes e somente um budista. Esses mesmos monges acusam o presidente de ser racista e de não exercer a liberdade de religião e expressão que seus predecessores exerceram antes dele, mesmo alguns deles terem sido cristãos como ele também é.

Muitos jovens por aqui enxergam o budismo mais como um hábito, uma espécie de tradição esotérica do que realmente como uma religião, e com isso o cristianismo tem ganhado cada vez mais espaço em relação ao budismo.

Dentre os 47 milhões habitantes do país, contamos aqui mais ou menos 11 milhões de budistas, 9 milhões de cristãos protestantes, 5 milhões de católico-romanos seguido por crenças menores e eles sempre co-existiram na mais absoluta paz – pelo menos até agora.

Será que os budistas locais estão tomando como exemplo os monges lutadores de kung-fu chineses, ou os protestantes do Mianmar ou os seguidores da fé que ameaçam moradores cristãos em regiões remotas da Índia?

Espero que essa onda quebre antes de se formar, porque como disse no inicio, alguém que como eu acredita que todas as crenças são no fim da história uma só, não teria para onde mais correr, mais nenhum refúgio, porque tenho certeza de que não sou a única à procura de paz.

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E o Camboja hoje?


rio, barco, criança, camboja

Procurando por um destino exótico e pouco explorado no sudeste asiático, resolvi ir com minha família para o Camboja.

A primeira idéia que vem à cabeça seria guerra, a segunda seria comunismo, a terceira seria o templo de Angkor Wat que ficou de finalista das novas sete maravilhas do mundo e para finalizar, a quarta idéia seria selva e malária.

Hoje o Camboja é um país muito frágil, à mercê dos turistas estrangeiros e talvez do silêncio de alguns membros do Khmer Rouge que aguardam à espreita para o momento ideal de retomar as rédeas. O que mais acabou com o país não foi a colonização francesa na Indochina e nem necessariamente a guerra contra o Vietnã, mas sim o terror do Khmer Rouge que durou quase trinta anos.

Em 1976, Pol Pot, então o Primeiro Ministro, anunciou que o “Ano Zero” na Campuchéia Democrática e não mais Camboja, iniciaria com a campanha de coletividade agrária, o que escravizou seus cidadãos mais simples e matou intelectuais, em torno de 26% dos cambojanos da época. Essa política não duraria mais que três anos, quando Pol Pot teve que fugir para a selva após a invasão do Vietnã, o que levou à queda do governo comunista. Mesmo com a recém-tomada da autonomia cambojana em 1989, Pol Pot recusou-se a cooperar com o novo governo e continuou liderando freqüentes campanhas de sangue e terror até 1997, quando finalmente foi preso por outros membros do Khmer Rouge. Ele faleceu em prisão domiciliar em 1998.

A herança desses conflitos hoje é a pobreza quase geral e um povo até acomodado demais para ajudar a levantar a própria terra, esgotado ou talvez um povo que continua acreditando que o progresso ande lado a lado com um exército destemido.

De frente aos recentes conflitos com a Tailândia por conta de um templo recém declarado por ser um dos tesouros da humanidade pela UNESCO ao longo da fronteira – Preah Vihear - muitos jovens cambojanos se alistaram e muitos sobreviventes do terror vermelho voltaram a se alistar, ignorando os maus karmas que essa decisão poderia gerar, de acordo com a crença local.

Há quem diga que apesar de algumas instituições estarem dando seus sangues para retirarem minas do território, destacando o “Cambodian Landmine Museum and Relief Centre”, no qual falarei mais a respeito num próximo semanal*, soldados tailandeses que se feriram há poucos dias afirmam que apesar de saberem que estavam em território vizinho, esse mesmo já havia sido liberado em termos de perigo de minas... O governo cambojano negou as acusações de ter plantado novas minas.

Se isso é verdade ou não talvez nunca venhamos saber, no entanto o que já sabemos hoje é que existe sim um grande apoio governamental à educação e aos cuidados médicos dos pequenos, inclusive em regiões mais remotas. Os únicos fatores que impedem aqui que uma criança vá à escola são os próprios pais que como sobrevivem (sobrevivem e não vivem) sem jamais terem pisado numa sala de aula, acham normal que seus filhos aprendam uma outra lição desde cedo: de trabalhar. A falta de dinheiro para material escolar seria um outro fator, por isso instituições de caridades locais pedem aos turistas que ao invés de derem dinheiro para a criança entregar nas mãos dos pais, comprem uma refeição já pronta para elas, ou melhor ainda, comprem um caderno ou lápis, porque ao contrário do que possamos imaginar, muitas crianças conseguem se alimentar nem que seja com um mingau de arroz por dia na pior das ocasiões.

Viajando no interior, nos demos de frente com muitos campos de arroz que certamente possuem memórias dos massacres cometidos, moradores de casas de palha que pouco se importam com o fato de que as únicas casas mais bonitas feitas de madeira e tijolos pertençam aos partidos políticos, principalmente o Partido Popular Cambojano (o mesmo do rei). Nós também vimos tuc-tucs indo e vindo (motocicletas que possuem um compartimento traseiro coberto que leva até quatro pessoas), búfalos e vacas à beira-estrada, turistas passeando sobre elefantes, estabelecimentos sérios e duvidosos de massagens, crianças semi-nuas sofrendo de doenças de pele e muitas delas ainda vítimas de crimes e acordos sexuais abafados, vendedores de xales de seda, de água-de-côco e de refrigerante à preços incompreensivelmente exorbitantes em comparação ao preço de uma bela refeição local, e claro muita, mas muita poeira.

Como exemplo, a cena em Siem Reap (a cidade mais próxima de Angkor) não é tão diferente. A poeira é a mesma, senão até pior pelo fato de ser misturada com os gazes das motocicletas que compram seus combustíveis em garrafas usadas de refrigerantes das mesmas tias que vendem frango assado na hora e ao ar livre, com direito a uma casquinha crocante de poeira e poluição.

Famílias de até quatro ou às vezes até cinco cabeças se ajeitam por cima de uma única motocicleta já caindo aos pedaços, e trabalhadores rurais se acomodam até nos tetos das caminhonetes que os levam até os campos.

As crianças que tem o privilégio de poderem ir à escola, vão de bicicleta, com freqüência três vezes maiores que elas, e as que não podem, se esforçam para aprender uma palavra aqui e ali em idiomas estrangeiros dos turistas que invadem a paz dos colossais, trabalhados e fantasmagóricos templos e palácios de Angkor para assim melhor venderem postais ou camisetas.

Tenho certeza que os ativistas dos direitos dos animais não descobriram esse lugar ainda, porque a matança de crocodilos e serpentes é um negócio abundante e lucrativo, dentro e fora da região em volta do gigantesco lago Tonle Sap, quando os tailandeses compram os pobres bichos que são mantidos em fazendas para transformá-los em bolsas, carteiras e cintos, e quando famintos turistas resolvem experimentar algo diferente além da deliciosa cozinha Amok.

Para mim é fácil descrever minha visita ao Camboja: simplesmente impressionante. É impossível sair de lá com uma fraca impressão. Tudo que vi e experienciei foi único e forte, isso porque não sou turista de primeira viagem e já estive em outros países do sudeste asiático em diversas ocasiões.

O Camboja pode até não fazer parte da lista dos lugares de sonhos de muita gente por ser pobre e sub-desenvolvido, mas a sua riqueza histórica que vai dos tempos de ouro de Angkor até a fim do terror vermelho, é sem dúvida inigualável.

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Como morrer e ressuscitar


cemitério, anjo

A última moda na Tailândia é morrer e ressuscitar. Calma! Eu explico.

Por 5 USD, aqueles desesperados que precisam urgentemente mudar de vida, se deitam em caixões (abertos) em um salão de um templo nos arredores de Bangcoc, fecham os olhos, aguardam um minuto e meio ao som das palavras de esperança do monge, reabrem os olhos de novo e assim que se levantam dos sombrios caixões revestidos em tecido roxo, estão libertados dos problemas antigos – ressuscitados enfim!

Mas será que o renascimento para a nova vida é tão promissor assim?

Em tempos de crises agudas – financeiras ou pessoais – o povo tende a acreditar e também a pagar mais a espera de milagres. E isso não é só coisa de brasileiro ou de africano, não. Superstição mesmo vindo de beatas é algo comum em países como a Rússia, os Estados Unidos e como vêem, até na Tailândia. Nesses casos a religião de casa não tem nenhuma influência na decisão do sujeito ir atrás de uma cartomante, macumbeira, curandeiro espiritual e até de monges-coveiros.

A desesperança chega a ser tão cruel, que passamos a levar em consideração outros meios nos quais nunca pensamos que pudéssemos precisar um dia. Mas o que esquecemos, é que para a maioria dos problemas as soluções estão nas nossas mãos e não nas mãos do além.

Sim, eu acredito no sobrenatural, eu acredito em coisas que não podemos explicar, eu as sinto inclusive, e eu acho que não custa nada pedir para “quem ou o quê estiver escutando” para me dar um empurrãozinho aqui e ali. No entanto muitos de nós tornamo-nos preguiçosos. Botamos a culpa pelo próprio fracasso direto ou indireto naquilo que não temos como explicar e isso torna-se cômodo.

É difícil bater de frente com as coisas que nos aborrecem, que não nos deixam progredir, mas se esse é o único meio, não será um ritual de dentro de um caixão, um trabalho encomendado no terreiro do bairro, ou uma cirurgia espiritual que irá resolver o problema de vez.

A nossa consciência é a maior curandeira de todas.

Temos que nos dar conta que às vezes o caminho que queremos seguir não é o caminho que foi traçado para a gente. No fundo do peito, acho que todos nós conhecemos os motivos de nossa infelicidade e sabemos exatamente o que deve ser feito.

Devo mencionar também que o ressurgimento disso e daquilo são as armas dos menos criativos, porque os mais criativos não precisam morrer para ressuscitar porque eles saberão reconhecer qual é a hora certa de virar o jogo, muito, mas muito antes de estarem com seus pés nas covas.

Agora aqueles que participam de atividades digamos, sobrenaturais, por cura curiosidade, de passagem, de turista, esses acumulam em si experiências não só de uma, mas sim de muitas vidas – passadas, presente ou futuras.

Um então brinde à tudo aquilo que não sabemos explicar e à tudo aquilo que podemos mudar! Um brinde também ao nosso renascimento, sempre que ele for necessário!

Luciana B. Veit
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Nomes legais para coisas nada ideais


eye

Um dos tópicos mais importantes nas vidas das mães pelo mundo afora é abordar os perigos dos vícios na droga e no álcool para seus filhos pequenos. Sim, pequenos e não mais necessariamente adolescentes porque a cada ano que passa, os novos alcoólatras, fumantes e consumidores de drogas tornam-se cada vez mais jovens.

Como o recente estudo diz, o vício tem sim um público alvo e não escolhe suas vítimas aleatoriamente. Os adultos no fim acabam respondendo por si mesmos, sabendo exatamente em que fria estão entrando, quando da primeira linha de coca - aqueles que cheiraram só para experimentar - pedem uma segunda rodada. Esses adultos são geralmente aqueles que tem pouca coisa a perder, são anarquistas por natureza, não conseguem mais encontrar uma forma positiva para se divertirem de verdade ou simplesmente pela vontade de fazer uma coisa que nunca fizeram na vida.

Já as crianças e adolescentes, por mais que se achem adultos o suficiente para tragarem um Marlboro escondidos dos pais e dos professores, não possuem ainda a maturidade da escolha ciente por estarem seguindo o caminho para a própria desgraça. Deixando as crianças de pais viciados de lado, o público alvo entre todas as outras seriam as crianças que ficam à toa logo depois da escola (sem cursos extra-curriculares), crianças rebeldes ou nerds com problemas de convivência com outras da mesma idade, e entre outros casos, crianças com grandes problemas de comunicação com a família e amigos, logo aquelas com baixa-estima. A curiosidade aqui é um fator importante, claro, mas crianças que mantém diálogos com os pais, terão aprendido que se viciar é acabar com a própria vida.

É legal estar alto, dizem os “bacanas”, os mesmos que tentam a todo custo enganar os bafômetros espalhados pelo mundo todo, mas a culpa não é só deles, mas ela é também de toda a sociedade que apóia o vício através da propaganda.

Propaganda não é só aquela que passa nos intervalos de um filme na TV ou que fica exposta em um outdoor da cidade, mas ela também é a palavra dos efeitos conhecidos de cada alucinógeno que corre de boca em boca, e as entrelinhas de uma reportagem de um astro viciado que consegue ganhar ainda mais dinheiro após um grande escândalo.

E os nomes das drogas? O termo generalizado “droga” é o único que tem uma ligação com algo negativo, mas se pensarmos em êxtase – oba, legal!; heroína – sou a rainha do mundo!; coca – gostosa como o refrigerante e ainda a droga conhecida como special K – viagem especial, não podemos culpar tanto os curiosos por quererem experimentar substâncias com nomes tão promissores.

É claro que não foram pessoas decentes que deram nomes à essas drogas de drogas, mas em repeti-las, elas reconhecem sua existência dando assim espaço à elas na sociedade. Por que a mídia não utiliza, por exemplo, nomes científicos das plantas que fazem as respectivas drogas para falarem sobre o problema?

Não, isso não é tapar o sol com a peneira e nem fazer de conta que o problema não existe, mas sim tirar da boca dos ingênuos pré-adolescentes os nomes legais para as coisas nada ideais.

Filmes e livros tem grandes impactos na alma jovem, por isso filmes como “Cristiane F.” e “Jim Carroll” deveriam passar nas próprias escolas ou pelo menos serem recomendadas por elas, e livros como “O pai que virava bicho” de Carlos Castello Branco, fora diversos relatos e reportagens sobre casos reais de desgraças, deveriam ser obrigados nos lares de todas as famílias. Assustar as crianças ajuda sim, sem deixar de lado a importância delas saberem dizer “não” até para o melhor amigo.

Já está cansado de ouvir isso, pois já deve ter ouvido milhões de vezes a mesma coisa? Mas olhe em seu redor!

Na Rússia somente há poucos anos a cerveja passou a ser considerada como uma bebida alcoólica. Várias mães preferem que seus filhos bebam cerveja já na infância do que vodca, já que beber faz mesmo parte do esquema russo. Em que mundo estamos?

Na Alemanha crianças de todas as idades bebem cerveja sem álcool. É, mas é sem álcool, você diz. Acontece que o gosto por ela passa a ser cultivado cedo. Sim, mas beber cerveja não é o fim do mundo... Não é o fim do mundo, mas poderia ser o começo dele, dependendo da língua de quem estiver degustando-a.

A sociedade de bem não deveria achar que é suficiente explicar aos filhos, alunos e amigos que drogas são ruins porque o nome já diz, porque aí eles vão pensar nos outros nomes que já mencionei antes, sem contar que proibições só excitam mais.

Os efeitos do consumo de drogas e do consumo exagerado do álcool podem até parecer bacanas, legais, maneiros, mas o público alvo deveria estar ciente que eles acabam com a saúde dos órgãos e que eles se apossam do controle sobre a própria vida.

A pergunta é: Quem gosta de se sentir como uma marionete?

Vamos abrir os olhos para a realidade ao nosso redor, porque nossos filhos certamente já o fizeram.


Luciana B. Veit
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O que é ser autor?


luciana b. veit, cidade, fazer compras, pessoas

Durante a minha vida tive diversas paixões, não necessariamente passageiras: ballet, basquete, línguas estrangeiras, moda e teatro, mas hoje vejo que somente uma delas se impregnou em meu ser – a literatura.

Com o ballet me dei conta após sete anos de treinamento (dos 4 aos 11 anos de idade) que além de ser grande demais, não possuía o coração para a dança.
Com o basquete foi diferente: era grande, mas não tinha tanto talento, ao contrário do que as pessoas imaginavam quando me viam.

O aprendizado de línguas estrangeiras me enriqueceu como ser humano, mas após ter aprendido cinco idiomas, acho que me cansei. Quem sabe não retomo essa minha prática mais tarde?

Ainda tive uma fase que não só queria, mas como também até consegui trabalhar um pouco como manequim. Aprendi a me cuidar, a andar de salto alto e a me maquiar, mas a futilidade da maioria das pessoas envolvidas nesse ramo começaram a me irritar profundamente. O fato de não poder ser o meu característico “eu” para agradar terceiros era algo com o qual eu não podia viver.

Já no teatro encontrei pessoas que falavam a mesma língua, pessoas que não tinham fronteiras para a imaginação e que gostavam de mudar de alma, ou de personagem. Acontece que esse pessoal, apesar de ser bacana e brilhante, é muito, mas muito mais dado que eu. Eles gostam de estar rodeados por pessoas e mais importante de tudo, entendem que seguir direções do diretor ou do realizador, por exemplo, faz parte de jogo.

Eu já tenho meus problemas ao ouvir críticas, não gosto e não sei estar entre pessoas a maioria do tempo, aprecio a solidão momentânea, detesto ter que explicar minhas ações e minha forma de pensar, não sei ser política, gosto de dar uma de Deus no qual crio aquilo que me vem à cabeça, e só consigo trabalhar quando ninguém me estressa, me atrapalha ou me dá dicas de como fazer isso ou aquilo.

Precisei de 32 anos para me dar conta que independentemente de ter publicado três livros, o que me faz uma autora não são meus escritos, mas sim a minha mais particular essência.

Luciana B. Veit
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A arte de dar graças


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E aqui estou pelo terceiro ano consecutivo comemorando o Chusok na terra das calmas manhãs.

Para quem não sabe, o Chusok é um feriado tradicionalíssimo e importantíssimo entre os coreanos, porque é nele quando ocorre o êxodo peninsular pelo fato dos coreanos fazerem questão absoluta de estarem com a família para darem graças à todas as graças que receberam. Mas de religioso em termos de budismo, ele não tem nada, já que muitos coreanos são católicos.

Obviamente, o dia de ação de graças local tem uma ligação mais forte com a colheita na fazenda do que com as outras graças no geral, mas enfim, graças são graças.

Na verdade, estar na Coréia para Chusok é tão curioso quanto estar na China ou em Cingapura para a Virada do Ano Chinês.

Songpyeong, ou bolinhos de arroz pequenos coloridos são ingeridos à quilos, cestas de frutas, peixes secos, produtos à base de ginseng e vouchers para restaurantes ou supermercados são presenteados para a ocasião e as habituais recepcionistas de garagens (sim, isso existe por aqui), de shopping malls e "modelos" de promoções em mercados estão todas de cabelos presos repartidos ao meio, vestidas em hanbok (vestido tradicional colorido) e com os sorrisos mais largos do que o habitual desejando um Feliz Chusok.

Existem ainda dezenas de opções culturais, onde podemos assistir entre outras apresentações musicais, a ópera local conhecida por Pansori - quando uma mulher de voz intensa conta uma estória acompanhada somente pelo som de um tambor, equilibristas em cordas, apresentações de como eram os casamentos das famílias reais nos vários palácios em Seul e exibições artísticas de teor nacional em abundância recheando os diversos museus da cidade.

Para os expatriados que como eu, já participaram dessas e de outras opções artísticas nos anos anteriores, acabam optando por outro tipo de lazer: aproveitar que a capital está vazia para correr para o parque de diversões, passear com o cachorro sem ser o centro das atenções para variar, ou simplesmente ficar em casa curtindo bons filmes ou passando longas horas jogando xadrez ou cartas com a família.

Infelizmente o Chusok não é só alegrias. Apesar dos asiáticos pensarem de outra forma em diversos aspectos, continuam sendo tão humanos quanto qualquer outro quando aproveitam o feriado para encherem a cara de soju ou de vinho de arroz e eventualmente arrumar confusão e brigas em casa.

Vale ainda mencionar que de acordo com um levantamento preciso e atual, os coreanos lideram a lista de suicidas atualmente, seguidos pelos húngaros e japoneses. O stress na vida começa logo cedo, quando a grande maioria das crianças que são educadas pelos avós (já que ambos mãe e pai trabalham fora), praticamente não tem tempo livre de lazer e nem de rir de bobo por nada com os colegas da mesma idade como qualquer adolescente deveria fazer. Sortudas são aquelas crianças que ainda podem dedicar algum tempo ao taekwondo ou a alguma outra modalidade de esporte.

Os "italianos" da Ásia acreditam no poder de um todo e não no poder da unidade, nem que essa seja muito especial, e por isso o bom senso na sociedade aqui é tão imperativo, por isso se mesmo durante o Chusok eles notarem que um cachorro fez suas necessidades na rua ou no mato e seu dono não recolheu-as, não hesitarão ao saírem gritando sem se lembrarem de dar graças pelo ar que respiram, ou aspiram.

Chusok ou não Chusok para onde você estiver, anda dando graças por simplesmente estar ciente de que pode fazer isso? Ou quando foi a última vez que você brindou à vida?

Luciana B. Veit
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De onde você vem?


mapa do sítio, gramado, direcções

- De onde você vem?

Essa talvez seja uma das perguntas mais freqüentes e cruciais quando conhecemos novas pessoas, porque dependendo da resposta, poderemos fazer um perfil supersônico delas, tal como educação, passatempos, objetivos. É claro que aí diversos clichês e imagens prontas nos vem à cabeça, mas não é fácil nos separarmos deles na nossa rotina.

Aquelas pessoas que moram na mesma cidade e falam o mesmo dialeto com o mesmo sotaque, querem saber de qual bairro você vem. Como exemplo, São Paulo: zona norte e oeste significa baixaria total. Zona leste e central é dominada pela classe média em ascensão ou em queda. Zona sul é reservada aos ricos. Mas será se é assim mesmo?

Tem também o mineiro da capital e o do interior. A nível de planeta Terra, as diferenças entre eles são insignificantes, ainda que importantíssimas sob o ponto de vista local: o amante do campo que tem receio de escada rolante e o outro morador de cidade grande que tem pavor de abelha...

E quando dois brasileiros de estados diferentes se encontram? A partir daí já existe mais assunto, mais diferenças para serem discutidas, quando por exemplo um carioca filosofa com um amazonense sobre os prazeres da vida.

Então um brasileiro encontra um colombiano em Miami e eles iniciam um belo papo em Portunhol. Quem está vendo de fora, pensa: é tudo farinha do mesmo saco. Mas eles sabem que apesar de serem “hermanos” aos olhos do mundo, as características culturais em comum são praticamente nulas, fora as paixões nacionais por Shakira e pelas tele-novelas.
Um pouco mais longe, o brasileiro chega na Europa, onde tem que provar a cada respiração e gesto seu que ele é muito mais educado e polido do que muitos cidadãos do velho mundo possam imaginar. Ele procura se adaptar, mas continua tendo orgulho de falar para todos ouvirem que ele é sim, de corpo e alma, genuinamente brasileiro.

Agora imaginem os filhos de casais mistos. Aqui fica difícil fazer aquele perfil supersônico que estamos acostumados. Como exemplo, filho de mãe brasileira e pai inglês, nascido no Oriente Médio e residente no coração longínquo da Ásia. Não, essa criança nunca morou nem no Brasil e nem na Inglaterra e saiu do Oriente Médio ainda bebê. Para completar, freqüenta uma escola alemã por ser a melhor opção de educação que seus pais encontraram para ela. Então alguém pergunta: De onde você vem?

É necessário muito treinamento e muitos anos da mesma conversa repetitiva para fazer essa criança mista compreender que apesar de ser um caso especial por conta de sua história e descendência, ela não é nenhum extra-terrestre. Essa criança é poliglota e aberta ao mundo, e não entende o porquê de existirem fronteiras. Ela desenvolve intuitivamente uma alma cigana, apesar de nada saber sobre os rituais, alegrias e sofrimentos daqueles que seguem em suas “carroças” sob a bandeira da roda dos vurdón que gira sem parar.

- E então, criança? De onde você vem?

- Do planeta Terra! Que pergunta mais óbvia e repetitiva vocês, adultos, gostam de fazer!

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La Sereníssima x La Stressíssima


veneza, gondola, barco

Veneza! Ah, Veneza! Mãe, deusa, Vênus, dona da serena lagoa e dos corações de todos aqueles que passam por ela.

Como Paris, Londres e Florença, Veneza não é exatamente aquilo o que dizem os livros e mostram as fotos. Ela se mostrará a cada visitante diferentemente porque cada um que pisa em suas ruas, ou águas, tem uma expectativa diferente, um momento específico na história que gostaria de tentar reviver. Sem contar aqueles que desejam seguir as trilhas da desejada e poderosa cortesã honesta e talvez a primeira feminista de todas, Verônica Franco, do aventureiro Giàcomo Casanova, do viajante Marco Pólo, do músico Antonio Vivaldi, ou talvez do pintor Titian.

No entanto, como para os egípcios seriam os faraós e para os gregos os filósofos, a época mais empolgante da história de Veneza seria sem dúvida os meados do século XVI por conta do início do lucrativo negócio de impressão de livros, da cena artística e literária, da peste, da guerra contra a Turquia, dos liberais doges à frente de seu tempo e das famosas, belíssimas e cultas cortesãs que viravam a cabeça até dos reis por passagem pela cidade.

Infelizmente são poucos aqueles que conseguem captar a alma de Veneza hoje, porque 80% dos turistas passam uma ou no máximo duas noites na cidade, sem contar aqueles que nem pernoitam, achando o suficiente bater fotos em um período que vai de seis a oito horas da Praça e Basílica de San Marco, do Palácio Ducale (só por fora), da Ponte Rialto, de uns dois canais com gôndolas de fundo (que eles não estão dispostos a pagar) e ainda do Canal Grande.

Meus caros leitores: se atropelar em turistas nas principais atrações e comprar souvenires de banca de rua com pressa não é conhecer Veneza! Por mais que pareça, a La Sereníssima não é um parque temático, longe de ser uma espécie de Disneyland.

Veneza é uma jóia rara, uma prova viva de que a humanidade pouco se desenvolveu ao correr dos anos, uma cidade que oferece uma lição de história a cada esquina para aqueles que se interessarem e possuírem pelo menos um pouco de força de imaginação. Veneza não é só a Praça San Marco e a Ponte Rialto, ela também é Burano, Murano e Torcello; ela também é seus distritos menos conhecidos como Castello e Cannaregio; ela é a solidão das ruelas perdidas no labirinto da cidade, livres mesmo da intenção de invasão dos turistas menos educados ou bastante apressados; ela é seus quintais com jardins secretos e ela ainda é o lar de orgulhosos venezianos, por mais que isso pareça ser impossível.
Veneza é mais limpa do que sua fama, suas águas são mais verdes do que mostram as fotos, seu sorvete é menos gostoso do que se imagina apesar da abundância, suas máscaras de papel marché vendidas nas ruas são mais brilhantes e mais bregas do que poderiam ser e aquelas vendidas em lojas finas são muito mais elaboradas e caras do que deveriam. Já a cozinha, se encontra de tudo: de fabulosos pedaços de pizza vendidos na rua, a medonhos restaurantes com menus turísticos em diversos idiomas e é claro, a exclusivos restaurantes finos para uma clientela elitizada.

Para curtir Veneza de verdade, é necessário passar no mínimo uns quatro dias por lá. Ande incansavelmente de vaporetto – que são os ônibus aquáticos da cidade, visite os principais museus e mansões da cidade, assista a um concerto barroco grátis de fim de tarde na Fundação Querini Stampalia, compre frutas frescas de quiosques, beba vários expressos enquanto observa os passantes sem se preocupar com o tempo sentado numa mesinha ao ar livre de frente a alguma igrejinha de alguma pracinha, observe o movimento aquático do Canal Grande da Catedral da Santa Maria della Salute, dê comida para as pombinhas na Praça San Marco, se perca no labirinto de ruas sem xingar, crie calo no pé de tanto andar e se deite na cama do seu hotel à noite com um livro sobre Veneza ou sobre alguns de seus ilustres residentes nas mãos. Seu corpo provavelmente estará dolorido, mas seu sorriso interno e externo estarão certamente visíveis, já que saberá que fez jus e respeitou essa extraordinária cidade.

Quanto ao passeio de gôndola, bom, ele é de fato exorbitantemente caro, mas vale (e como!) a corrida! Deixar de andar nela com o gondoleiro de camisa listrada e chapéu de palha cantando ou não “O Sole Mio”, deve ser uma experiência frustrante. Por isso, quando for a Veneza, economize em torno de 100 euros para tal. Uma estada na cidade sem o passeio de gôndola e sem levar pelo menos uma máscara para casa não terá sido completa.

Quando entrar no barco Allilaguna que te levará até o aeroporto de volta, não terá se arrependido de nada porque você saberá que viu, sentiu e inalou Veneza da forma correta, sem correrias, sem pressa, sem desinteresse histórico ou social.

Após uma estada de valor na abençoada La Sereníssima, qualquer pessoa se dará conta que graças a Deus nem tudo é aquilo que aparece nas fotos e nos noticiários.

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Transmissão das Olimpíadas


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As olimpíadas mal começaram, eu sei, mas alguns países já estão honrando seu heróis como por exemplo a Coréia do Sul.

Composições de músicas já estão sendo feitas, quantias de dinheiro já estão sendo colocadas de lado – uma espécie de gratidão eterna do governo para com os esportistas que trazerem medalhas de ouro para casa, pôsteres e pinturas à óleo já estão sendo encomendadas e as imagens das respectivas vitórias se repetem e repetem e repetem e repetem na TV e na internet.

Juro que apesar de ser brasileira e ter um marido europeu, eu também fico feliz por cada medalha que a Coréia do Sul consegue pelo país estar nos acolhendo tão bem, mas repetir eventos das olimpíadas a cada 30 segundos na TV é demais. Achei que estando aqui em Seul acompanharia as olimpíadas ao vivo sem ter que acordar de madrugada para tal, mas que nada! A TV coreana só transmite eventos esportivos se algum coreano estiver participando e mesmo quando o programa ainda não terminou mas o coreano acabou sendo desclassificado, a TV prefere colocar replays dos momentos de ouro ao invés de mostrar o restante da “luta” dos outros esportistas ao tentarem suas respectivas sortes. Ao meu ver, isso só não é falta de respeito para com o telespectador independentemente para quem estamos torcendo, mas para com os esportistas do mundo inteiro também.

A crítica foi pesada em cima do controle da internet na China, mas se não houvesse internet, nós estrangeiros residentes por aqui não saberíamos dizer em que pé estão as medalhas para nossos esportistas. Nisso a Coréia do Sul tem pecado. Nem mesmo quando morávamos na Rússia foi assim. Estamos muito desapontados.

Contudo devo dizer que ainda assim conseguimos vibrar com cenas comoventes de algumas vitórias e mais comoventes ainda com cenas de diversas derrotas. É humano e humilde chorar e gritar de raiva, de dor, de decepção quando após terem se preparado tanto para aquele único instante, os atletas não conseguem atingir suas metas. Por isso tiro meu chapéu para os heróis das olimpíadas e talvez ainda mais para aqueles que conseguiram participar dela, colecionando estórias para contar até para seus futuros tataranetos.

Mas para a difusão televisiva dos jogos aqui na Coréia do Sul, aqui vai uma grande vaia: BUUHHHHHHH!

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Paris sem stress


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Existem cidades que assustam na primeira visita. Paris é uma delas. Você chega na cidade-luz cheio de expectativas, com imagens prontas na cabeça e certo de que já conhece-a sem mesmo ter colocado os pés nela antes.

Daí o taxista se recusa a te levar de A a B só porque tem bagagem, o garçon daquele Café de rua mal olha na sua cara e ainda demora para trazer a conta, o sobe-e-desce de escada nos metrôs dificulta a vida de mães com carrinhos de bebês, de idosos ou de paralíticos, sem contar a dificuldade de comunicação que a maioria tem por não falar Francês, xingando os parisienses por eles não desejarem falar um outro idioma em sua própria cidade.

E os museus? Por onde começar? Você se pergunta: - Será que conseguirei “sobrevoar” em tão pouco tempo o Louvre, o d’Orsay, o Picasso, o Delacroix, o Centro Pompidou, o Espaço Dalí, o Carnavalet e as casas de Victor Hugo e Balzac, por exemplo? Também não posso deixar de passar pela Champs Elysées e subir no teto do Arco do Triunfo, esperar na fila para entrar nas catedrais de Sacré Cœur e Notre Dame e passear nem que seja por cinco minutos na Rua do Rivoli, Praça Vendôme e pelo Jardim de Tuileries... E se não fizer o passeio do bateau-mouche então, meus filhos nunca me perdoariam...

Sem contar que com a máquina digital em uma mão e a filmadora na outra, você mal consegue ver as coisas por outra perspectiva, a olhos nus, já que a realidade é sempre diferente por detrás das câmeras.

Você não gostaria no fim de ter simplesmente se sentado em algum Café da Rua St. Michel e de ter observado os pedestres, deixando o tempo passar sem nenhum compromisso? Não gostaria de ter visitado uma exposição passageira do Instituto do Mundo Árabe ou de ter enfim olhado com calma a quase vazia asa Richelieu do Louvre sem estar cansado e de saco cheio por ter passado longas horas no meio da multidão na asa Denon só atrás da Mona Lisa e da Vênus de Milo? E quem sabe ainda ter tido tempo para assistir um espetáculo na Ópera Garnier ou uma peça na Comédia Francesa? Ou talvez de ter podido andar de roda-gigante do Jardim de Tuileries às dez da noite com a cidade aos seus pés? Sim, andar livre, leve e solto por Paris sem ter que ir aqui e ali por obrigação, não ter que subir no topo da Torre Eiffel ou nem mesmo precisar tirar foto de tudo?

Eu sei o quão difícil isso parece ser para alguém que está conhecendo Paris pela primeira vez, mas para curtir essa cidade para valer, como um parisiense a curte, sem stress e sem correria, é necessário voltar para lá no mínimo umas três vezes, porque daí sim você provavelmente não desejará mais viver em nenhum outro canto da Terra e poderá até passar a esnobar os turistas de primeira viagem, como os nativos fazem.

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Coincidências


corredor, portas

O que um executivo aposentado de 60 anos, uma advogada de 40 anos, um adolescente viciado em drogas de 17 anos e uma criança que não se acha amada de 7 anos tem em comum? Analisemos:

O executivo assim que se aposentou soltou um berro e disse:

– Finalmente posso curtir a minha vida agora.

Ele então comprou uma casa na praia e até fez algumas viagens internacionais. Viu os filhos se formarem e se casarem e ao completar 58 anos disse aos seus colegas que ele havia praticamente alcançado tudo que havia almejado na vida. Mas daí a alegria-alegria passou a ficar monótona. Seus filhos continuaram a viver cada vez mais as suas realidades e visitar os pais em cada sagrado fim de semana passou a ser secundário. O executivo não entende o que está acontecendo com ele, o porquê de sua infelicidade que de momentânea, passou a ser cotidiana. Tem isso a ver com o ilusório desapego dos filhos, ou dos sonhos que deixei de correr atrás na juventude, ou talvez ainda do fato que muito provavelmente não viverei mais que 30 anos a partir de agora?

Agora a advogada sempre foi uma mulher de princípios, alguém que jurou já na infância que lutaria pelos direitos do homem e contra todo tipo de injustiça. Ela se deu bem. Se formou numa faculdade de elite e fez seu nome no mercado. Colocou muita gente na cadeia e salvou muitas outras dela. Chegava em casa à noite exausta, mas sempre com o coração leve, tendo a certeza de que marginalizar sua vida pessoal em nome de uma causa maior valia a pena e que mais cedo ou mais tarde ela eventualmente encontraria sua outra cara-metade. Mas então os anos foram se passando e ela passou a descobrir linhas indesejáveis no rosto e no corpo. Seu empenho no trabalho começou a deixar a desejar e ela começou a filosofar sobre o motivo de ser tão capaz em tantas coisas e tão incapaz em outras. Um certo dia, avisou no escritório que não mais compareceria. Seu chefe indagou o tempo em que estaria ausente e essa foi a primeira pergunta que em muitos anos ela não soube responder com excelência. A verdade é que ela estava farta de viver para os outros, só que passou a achar que ninguém estaria disposto a viver por ela.

O adolescente fumou seu primeiro baseado aos 13 anos de idade. De família simples, ele nunca sonhou com grandes feitos e soube desde muito cedo que acabaria vivendo um dia após o outro. Acontece que do baseado passou para o crack, do crack para a coca e da coca para a heroína, sem contar os diversos outros coquetéis. Sem dinheiro e sem moral ele fugiu de casa com alguns aparelhos domésticos dos pais para trocar por mais drogas e ao chegar no abrigo daqueles de sua mesma “espécie”, levou uma rasteira quando o chefe da tribo decidiu de repente que ali não havia mais lugar para ninguém, só para assim poder dar conta daquela princesinha que achava ser a namorada do rejeitado. Sem fazer parte de uma tribo de rua, o menino logo pereceria e ele naquele momento ele não conseguiu ver o outro caminho que também tinha pela frente.

Já a menininha não tem só os cachos de seu cabelo de ouro. Sua mãe é a socialite bem sucedida em pessoa, e seu pai um empreendedor conhecido. Desde que nasceu a garotinha já possuía um exército de babás, de médicos, de professores de Francês e Japonês, de psicólogos e de coleguinhas, filhas de amigas compradas pela mãe. Mas aquilo que ela não tinha era a coisa mais preciosa de todas e que mais lhe faltava no coração: o tempo indeterminado (nem que fosse aos fins de semana) dos seus pais, que sempre pareciam ter algo mais importante a fazer do que ler uma historinha de gibi para a garota. Aos 7 anos a menina se pergunta se quer mesmo virar adulta um dia, porque viver como seus pais vivem ela não desejaria nem mesmo para a vizinha que sempre arranca os cabelos de sua boneca preferida.

Agora voltando à minha pergunta inicial, o que essas pessoas mencionadas acima tem em comum? A desesperança, chegando a até mencionarem direta ou indiretamente que a vida não tem mais sentido.

Sem perceberem elas se deixam levar nessa onda sombria que vai puxando suas vítimas cada vez mais para o fundo do poço. Agora por que fui comparar uma garotinha de 7 anos com um aposentado de 60? Porque a visão de mundo que eles tem no momento é a única que importa por mas que digamos que as coisas não sejam tão assim ou assado.

Dependendo da profundidade do buraco a pessoa ainda conseguirá se salvar, mas como tudo na vida, existem dois lados da moeda. O bom é que ela poderá voltar ou passar a ver o sol sorrindo, os patos conversando e os ventos viajando, mas o difícil é que ela terá que fazer isso sozinha, por mais cruel que isso possa parecer.

Ninguém tira ninguém de nenhum buraco. Ninguém cura a depressão ou a melancolia de ninguém. Ninguém salva a alma de ninguém.

Por isso é imprescindível que a pessoa desiludida encontre uma nova razão para viver, caso aquelas que tinha em mãos antes já se esgotaram. Procurar por atividades inéditas, visitar um lugar que não fazia parte da lista dos sonhos, ou simplesmente construir um muro de vidro que os separa das coisas que tanto os aborrecem podem dar uma nova razão de ser e de estar, e quem sabe aquele pescador que nunca deixou sua prainha no interior do nordeste não revele os sussurros dos peixes que sempre o fizeram voltar para o mar no dia seguinte.


Luciana B. Veit
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Como enganar o bafômetro


vinho tinto de vidro, as uvas, garrafa de vinho

Só para começar, não sou crente e nem beata. Cometo vários pecados e por isso não sou santa. Bebo álcool moderadamente e fumo um charuto de vez em quando, mas posso falar de cabeça erguida que jamais coloquei a vida de outra pessoa em risco.

Agora por que estou dizendo isso? Porque EU JÁ NÃO AGUENTO MAIS receber e-mails com dicas de como passar no teste do bafômetro.

Aquele leitor que não concordar comigo, que troque de website! Não digo isso por desejar leitores fiéis e sem opinião própria, mas sim porque acredito que aquele que discorda das medidas da “lei seca do volante” não deve ser uma pessoa de bem mesmo e esses não são bem-vindos a mergulharem nos meus pensamentos cotidianos.

O que me tira do sério não são os e-mails em si, mas aquilo que está por detrás deles. Lembro-me da época em que começaram a multar aqueles que dirigiam sem cinto de segurança. A reclamação foi geral, porém aquela medida certamente salvou muitas vidas. Hoje o cinto de segurança passou a ser um hábito normal, como dar nós nos cadarços dos sapatos.

Então por que não usufruir da “lei seca do volante”? Por que continuar a colocar em risco a sua vida, a vida dos seus parentes e a vida de gente que nunca viu antes? Quando penso que alguém que muito amo poderia morrer num acidente causado por um bêbado irresponsável (daquele que nunca se importou com os outros mesmo) ou azarado (daquele que só bebeu para comemorar seu diploma da faculdade), sinto meu sangue esquentar e subir à cabeça.

Até na Rússia é proibido beber e dirigir! Sim, na Rússia, um país onde o alcoolismo seja talvez o problema mais sério de todos - coisa que Gorbatchev já dizia no seu auge... Quem não acredite que vá para lá!

Ainda sobre a questão, existem dois tipos de ignorantes: aquele que nunca aprendeu porque não teve como, e aquele outro que mesmo com toda a chance do mundo nas mãos, decidiu fechar os olhos e os ouvidos. Ao meu ver o segundo tipo merece sim ser punido!

Podem me chamar de chata, de moralista, disso e daquilo porque eu não estou nem aí. Até de desertora por eu bater palmas para a educação dos alemães e até dos russos por exemplo, no que diz respeito à combinação de álcool e direção.

O que o brasileiro preocupado com as novas medidas precisa entender, é que sóbrio ele não perderá aquele calor interno que só ele tem quando participa de um jantar ou de uma festa sem beber uma gota de álcool. Se ele é uma pessoa interessante por dentro será assim “alto” ou “baixo”.

Agora o que é que os alemães, russos e até os coreanos fazem quando resolvem encher a cara? Andam de metrô, contratam um motorista particular, pegam um táxi ou combinam com a esposa, com o marido ou com os amigos quem será naquela noite ou dia em questão que vai dirigir – tipo o esquema: “hoje eu bebo e amanhã você bebe”. Garanto que o consumo de weizen bier, de vodca e nem de soju diminuiu, mas por outro lado a taxa de mortalidade e de desgraças que seguem um acidente caíram com certeza.

O que não podemos esquecer, é que coisas ruins não acontecem só com os outros.

Lição de moral ou não, disse o que achei que deveria dizer e isso me basta já que essa liberdade ninguém me tira.

Luciana B. Veit
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32 Primaveras, Verões, Outonos e Invernos


luciana b. veit

Na semana que passou completei 32 invernos/verões, de acordo com o posicionamento global do meu leitor. A partir de uma certa idade, uma mulher não se olha só no espelho contando quantas celulites, estrias, vazinhos e rugas acumulou até a presente data, mas por incrível que pareça, ela também se pergunta o que foi que alcançou na vida.

– Ah, você é tão nova ainda! Tem tanto chão pela frente! – diz um conhecido.

Sim, o número 32 não é de fato um dos piores, mas a cada ano que ganho, perco um ano. E o que foi que eu fiz até agora? Só escrevi três livros, aprendi algumas línguas estrangeiras, casei-me, coloquei com amor um filho no mundo, comprei um cachorro, rodei entre vários povos e residi em alguns países nem tão populares assim.

– E você acha isso pouco para alguém da sua idade? – pergunta abismado esse mesmo conhecido.

Pode até não parecer pouco, mas no fim nunca achamos grande o feito que já alcançamos. O ser humano sempre quer mais.

E o que é que eu quero? Ora, de tudo mais um pouco, inclusive mais paz de espírito, mais sabedoria, mais auto-confiança e mais força interior... Quanto aos meus outros desejos, só revelei-os às minhas 32 velinhas do bolo.

Então, parabéns para mim! Que neste meu caminho eu continue a crescer e a me evoluir da forma como o meu próprio espírito escolheu antes de descer na Terra...

Luciana B. Veit
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Orgulho Coreano


comida, alimentação, coreia, paus

Parabéns, políticos norte-americanos. Vocês estão conseguindo o que tanto queriam...

Talvez o motivo maior de não ter gostado da minha estada de quase três anos na Rússia foi a forma de como os russos tratam de forma seca, grossa e acima de tudo desrespeitosa os estrangeiros ali residentes – independentemente deles serem refugiados, estudantes ou executivos de alto escalão. Mas olhando a fundo, hoje entendo que desconfiar de estrangeiro é algo que o russo já leva em sua alma desde a época antes do comunismo.

Mas o que os russos tem a ver com esse texto? Pouco. O parágrafo acima serviu somente para fazerem vocês entenderem o quanto me senti aliviada de chegar de mudança aqui na Coréia do Sul em agosto de 2006.

Mesmo sabendo que os sul-coreanos possuem um temperamento forte, que explodem facilmente e que são apelidados como os italianos da Ásia, nunca senti nada de negativo vindo da parte deles. Bem pelo contrário, sorrir verdadeiramente e tratar bem o visitante de outros mares sempre foi considerado algo comum entre os residentes da “terra das manhãs calmas”.

Aqueles que estão acompanhando as notícias da região, provavelmente se perguntam se a reação dos coreanos em relação a retomada da importação das carnes norte-americanas não está sendo exagerada por conta dos protestos, alguns deles até violentos, que estão se desenrolando pelas ruas de Seul. O recém-eleito presidente Lee Myung-Bak está até sendo chamado de traidor quando o povo grita “impeachment” com furor.

Como muita coisa na vida, esse buraco vai bem mais fundo do que parece. Ele tem uma relação profunda com o orgulho coreano, um povo que apesar de ser um dos mais homogêneos do mundo, sempre teve que defender sua cultura, sua história e seu território dos seus ameaçadores vizinhos através de batalhas sangüentas ou intelectuais, nas quais ele prova para o restante do mundo que tem o direito de existir.

Dizer que não há racismo aqui seria a mesma coisa que afirmar que Darfur não mais precisa da ajuda internacional urgentemente. Existem sim histórias aqui e lá de casais mistos – coreano com filipina por exemplo – que comem o pão que o diabo amassou com mais freqüência que gostariam de admitir em relação a aceitação de suas existências na sociedade local. Mas então o que eu tenho a ver com isso, já que não sou casada com coreano e nem vivo numa cidadezinha no alto de uma montanha com cidadãos que nunca viram um estrangeiro na vida?

Bom, eu não sou daqui. Porém não se confundam: afirmei há pouco que sempre me senti bem na Coréia, que sempre fui bem tratada, mas isso mudou desde que os coreanos tomaram as ruas em protesto. O que acontece é que eles não estavam protestando somente a fator da carne, mas sim como o presidente se deixa manipular tão facilmente pelos atuais (e certamente não eternos) “xerifes do mundo”.

Lembro-me que quando cheguei na Coréia perguntei a um motorista de táxi como ele sentia com a presença militar norte-americana bem no seio da capital. Sem demonstrar emoção nenhuma ele me disse que gostar ou não dos americanos era indiferente, porque a presença militar ainda era importante, se não essencial para a paz na península, mesmo a Coréia do Norte hoje tentando amaciar o tom na fala e sair da lista do eixo do mal...

Passados alguns meses apos a rodada naquele táxi, visitei a fronteira com a Coréia do Norte, conhecida como DMZ, ou zona desmilitarizada. Tirando foto sobre a Ponte da Paz, ouvi um soldado americano se gabar dizendo alto para todos ouvirem que graças aos EUA, os norte-coreanos assinaram o acordo de cessar-fogo em 1953. Pode até ser fato, mas nenhum sul-coreano gosta de ouvir isso porque eles também tem seu orgulho, e que orgulho!

Hoje quando saio na rua, os coreanos não podem dizer ao certo de qual país eu venho e por isso logo imaginam que seja norte-americana por eu falar Inglês fluentemente. Resultado: atualmente posso contar no dedo os sorrisos de estranhos em minha direção, mas já perdi a conta dos serviços secos e apressados e até uma falta de paciência e de interesse na voz deles – parecido como era ( ou ainda é ) na Rússia.

Será que é só impressão minha? Logo quando cheguei, tive a impressão que eu e minha família éramos fitados como se fossemos extra-terrestres, mas com o passar do tempo eles pararam de nos admirar/secar/observar, ou será nós que acabamos mesmo nos acostumando com isso?

Independentemente da atual frieza dos coreanos ser um fruto da minha imaginação ou não, o desgosto deles para com os americanos é real e claro. Somente agora eles estão começando a colocar esses sentimentos para fora com cuidado, coisa que o restante do mundo até já criou calo na língua de sempre se repetir sobre, entre outros assuntos, a falta de respeito dos americanos em relação aos outros países do mundo e em relação ao meio-ambiente.

Com essa nova onda anti-americana em solo coreano, aquele expatriado ou turista de qualquer parte do mundo que fale Inglês, que não tenha olho rasgado e que converse com nativos na rua que por sua vez não mantém relações pessoais alguma com estrangeiros, irá sentir na pele o que muitos norte-americanos já se acostumaram a sentir: uma profunda antipatia.

É por isso que os políticos americanos estão conseguindo o que queriam: tirar um pouco esse peso do ombro dos seus compatriotas pelos quatro cantos do planeta.

Mas aqui entre nós, espero que eu esteja errada...

Luciana B. Veit
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Um e vários, vários e um


matrushka

Ontem mesmo estava ouvindo música no rádio quando um hit antigo tinha (mais ou menos) como refrão: “Se Deus estivesse na minha frente e eu pudesse fazer uma única pergunta a Ele, qual seria?”

Daí eu me perguntei a mesma coisa e me dei conta que provavelmente ficaria muda. Isso não se dá pela falta de imaginação, mas sim pela complexidade do momento. É impossível fazer uma só pergunta de qualidade para Deus, ou para qualquer ídolo que tenhamos. Tenho certeza que você, como eu, não se conforma com pouco e uma pergunta só jamais satisfaria a nossa sede de saber.

Desenvolvendo meu pensamento, liguei os pontos de uma situação que havia vivido no dia anterior e me dei conta que a sociedade quer mesmo simplificar as coisas, transformar algo grande em pequeno.

Por exemplo, sou 100% favor da globalização, mas ainda defendo a cultura e costumes locais de cada povo. Acho que deveríamos aprender mais línguas estrangeiras, mas também que um idioma mundial fosse obrigatório em todas as escolas, porque por mais que Inglês seja óbvio nas Américas e na Europa, não é tão óbvio na África e Oriente Médio onde o Árabe predomina, na Eurásia onde o Russo comanda e na Ásia onde o Japonês anda na frente.

Mas unificação mundial de lado, penso nos sub-grupos da sociedade, o que faz de trinta ou cem mulheres, homens ou crianças por exemplo, uma identidade só. E quando não conseguimos encontrar aquele sub-grupo que cabe na nossa personalidade como uma luva?

Por que temos que fazer parte de grupos?

Ah, aquele é do grupo da bagunça e aquele do de nerds. Aquele outro grupo é dos artistas representados por agentes, mas aquele outro grupo é das fofoqueiras inúteis. Grupo dos perdedores, grupo dos vencedores. Grupo dos fracos, grupo dos fortes.

Que chatice! Detesto títulos! Não faço parte do grupo das brasileiras no exterior porque não faço questão de comer feijoada. Não faço parte do grupo das inglesas e nem das alemãs porque eu não possuo o mesmo passaporte que elas. Não faço parte do grupo das mães da escola porque não jogo meu tempo fora com cafezinho enquanto meu filho tem aula. Não sou escritora, mas o que faço é escrever. Sou culta, mas ainda tenho tanto a aprender! Não sou expatriada, mas vivo pulando de país em país. Sou de paz, porém tenho o sangue quente. Não sou a senhora de sobrenome tal e tal, no entanto amo e acompanho meu marido nas várias etapas da vida. E ainda não posso ser descrita sendo assim ou assado porque sou de lua.

Existe talvez somente três títulos que aceite com toda a verdade do meu coração: sou mãe, sou megalopense e sou um indivíduo único.

Mas mesmo o indivíduo único pode ser complicado: sem dúvida não há ninguém neste planeta como eu, mas eu não sou a única pessoa que pensa assim. Mesmo o meu indivíduo é dividido em vários conforme os meus sentimentos momentâneos, a posição da lua e a situação em si.

Cortando aqui e lá e colocando os fatos de ponta-cabeça, mãe é realmente o único título que me cabe inteiramente.

Por essa e outras coisas seria impossível fazer uma única pergunta para Deus e me enquadrar em somente um denominado grupo de pessoas da sociedade.

No fim o “um” acaba se tornando em vários e os vários nem sempre se tornam em “um”.

Luciana B. Veit
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No worries!


luciana b. veit, sydney, opera

– Didgeridoo – explicou a simpática vendedora de uma lojinha de arte aborígene no centro antigo de Sydney, mais conhecido como The Rocks.

– Mas muita gente aqui diz simplesmente didgee – prosseguiu com sua explicação para meu grande alívio.

– That’s better. Thanks – eu disse.

– No worries! – foi sua resposta de utilização nacional, o que significa: sem preocupação. (Claro, quem vive no paraíso, não deveria mesmo se preocupar com muita coisa...)

Mas de volta ao didgeridoo, já havia escutado o som desse único e fascinante instrumento de sopro pela primeira vez no centro da cidade de Stuttgart há muitos anos, mas somente há poucos dias foi quando fui tocada pela força de seu som profundo que literalmente atravessou meu corpo enquanto eu atravessava o Circular Quay sentido a Opera House. Um aborígene, pintado e “fantasiado” como tal, tocava o didgee sentado na rua com um acompanhamento de música techno, enquanto seu colega mais branco de pele, com uma barbicha branca que chegava aos seu peito e chapéu de “Crocodile Dundee”, cuidava das moedas de dólares australianos que os amantes da arte indígena local deixavam no cesto no chão.

É claro que naquela tarde comprei o instrumento, após ter combinado uma boa taxa de entrega internacional com a vendedora. Posso dizer que matei dois (ou três) coelhos com uma paulada só: levei não só o instrumento de um metro e meio de altura (com a esperança de tocá-lo decentemente um dia), mas também a arte da pintura de pontinhos aborígene sobre ele, e acima de tudo um souvenir daqueles...

Mas falando de Austrália, seria uma ilusão minha dizer que em meros dezesseis dias tenha conseguido captar sua complexidade. No entanto, posso hoje dizer que tenha conseguido captar sua alma. E que alma!

Bem antes de embarcar fiquei um pouco desconfiada com os australianos por conta da dificuldade que foi para meu visto ser liberado, mas agora entendo o motivo de tanta explicação necessária na embaixada: aquele que chega na Austrália não deseja nunca mais ter que sair dela, nem pessoas de alma cigana como eu.

Ali ninguém se sente ruim ou apontado na rua por ser estrangeiro. Os cidadãos são receptivos, curiosos, simpáticos, educados, organizados e cultos. O bom senso é geral. Sempre achei que para um país funcionar ele deveria ter leis severas como é o caso de Cingapura, mas na Austrália isso não é necessário.

Todas minhas experiências nesse gigantesco país foram positivas, inclusive o mar bravo que enfrentei de dentro de um barquinho minúsculo no meio do oceano nas ilhas Whitsundays, na Grande Barreira dos Corais.

Mas independentemente daquilo que tenha visto no país, o que mais me impressionou foi mesmo a cidade de Sydney – o que não poderia ser diferente, pelo fato de ser uma megalopense de carteirinha. A cena cultural é diversa e abundante. O mar é verde e limpo. A vida noturna e diurna é agitada. As praias são convidativas, principalmente se você gosta de encarar um boa onda. Os habitantes são bem-humorados e sarados, e falando em gente sarada, nunca vi tanta gente bonita em um único lugar. Nada de obesos ou menininhas anoréxicas: a vista geral é de gente de bem com a vida, que curte se curtir e que gosta de comer e beber bem. Filés à parmeggiana, peixes frescos, massas deliciosas e bem temperadas, excelentes vinhos, sucos naturais de frutas que não se encontram na Ásia nem em mercados de elite, sorvetes leves, chocolates de sabor intenso, tortinhas doces e salgadas, guaraná importado, ah, é melhor eu parar por aqui...

Por mais que o país hoje ainda tenha muito o que melhorar, como levar mais à sério ainda as injustiças cometidas com os aborígenes ao longo de sua história, só posso tirar o chapéu para a Austrália.

Esse país começou a se desenvolver - como nós entendemos a palavra desenvolvimento - com a chegada de criminosos ingleses (nada de assassinos, mas sim bandidinhos de pão e galinha na rua), marinheiros e oficiais ( e todas as respectivas famílias) que contaram 1373 no total dos que sobreviveram a viagem que durou nove meses (passando pelo Rio de Janeiro inclusive) e terminou em 26 de janeiro de 1788 em Sydney.

Para aqueles que se interessam mais pela história, que comprem um livro à respeito ou melhor ainda, visitem a Austrália, começando pelo Sydney Museum na Bridge Street. Eu só queria mesmo oficializar através das minhas palavras a impressão que ficou em mim: deslumbrante é pouco!

Agora de volta à minha rotina em Seul, vou levando meu dia-a-dia com música do didgee de fundo até embarcar no próximo avião, de preferência de volta para a Austrália...

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Atenção aos Sinais!


crânio, esqueleto, morte

Por mais rotineiras que as tragédias – naturais ou causadas pelo homem - tenham se tornado pelo mundo afora, não nos cansamos de nos chocar com elas.

Sentimos pelas vítimas, nos emocionamos com as histórias dos sobreviventes, choramos por dentro, nos revoltamos com os lentos processos de ajuda e na hora H, quando poderíamos nos tornar um número a mais das boas almas em missão na Terra, resolvemos virar o rosto para o outro lado.

Mas não é para apontar dedos que resolvi escrever esse texto hoje, mesmo porque acho que eu também poderia estar fazendo mais pela humanidade. No entanto, deveres sociais e espirituais à parte, me pergunto como a mãe de uma criança vítima de terremoto, soterrada por tijolos numa cidadezinha chinesa por exemplo, se sente agora.

Miserável, quebrada por dentro, desesperada, vazia – sem dúvida. E revoltada? Será que ela não está procurando alguém ou algo para culpar a sua insubstituível perda? Com receio de culpar uma “Força Maior” por ter recolhido a criança de volta para si, a tal mãe então culpa a construção vagabunda do prédio escolar e culpa a falta de aviso dos cientistas que “devem” possuir uma máquina milagrosa que diz com exatidão quando o próximo terremoto vai causar estragos. Ela também culpa o trabalho lerdo das equipes de resgate, culpa a noite, culpa a chuva, culpa o sol, se culpa por não ter sentido nada de extra-sensorial antes de ter deixado a criança sair de casa pela manhã, já que esse “é” um dever de mãe, o de ser vidente no que diz respeito aos filhos.

E sem saber o que mais poderia culpar, a mãe culpa os sinais ignorados que os animais e que a natureza deram em abundância pouco antes da tragédia ocorrer: onda de sapos invadindo sem precedência uma cidade da região abalada, lago quase seco em questão de dias, elefantes recuando (como foi o caso dos que levavam turistas para passear nas praias de Phuket minutos antes do Tsunami de 2004), uma energia estranha no ar, um mau pressentimento, um sonho, uma frase de um filme qualquer que sem motivo aparente não sai da cabeça, enfim, exemplos aqui são quase infinitos.

Mas a questão é: quando é que devemos levar esses sinais a sério e tomar as devidas precauções?

Não mais pegar o táxi para o aeroporto depois de ter tido que voltar por ter esquecido o passaporte? Trancar seu filho em casa durante um dia inteiro após um sonho ruim? Ou talvez correr ao mercado e comprar galões de água potável e comida enlatada de montão por conta do comportamento estranho que seu cachorro ou gato tem tido ultimamente?

A verdade é que ninguém pode responder tais questões por ninguém. Cada um tem um relacionamento diferente com a sua mais íntima sensibilidade.

Será que somente aquele que está acostumado a “consultá-la” é que deveria dar ouvidos para os sinais? E se ele estiver errado nem que seja pela primeira vez? E se sua segurança de se conhecer a fundo cegar os verdadeiros avisos por conta da arrogância? E se o rei absoluto do raciocínio for presenteado com uma premonição, assim do nada? Deve confiar nela, como um novo jogador de pôquer confia na sorte de iniciante?

Talvez sim, talvez não. Mas eu pessoalmente prefiro confiar naquilo que meu umbigo me diz e até dar um eventual passo em falso do que me arrepender mais tarde. Foi como aquela vítima de seqüestro na Áustria que durou 8 anos contou: “segundo antes dele (o seqüestrador) ter me pego com força, eu andava pela calçada e senti um sentimento estranho em relação aquela van branca estacionada. Se só tivesse atravessado a rua como a vozinha no meu ouvido aconselhou...”

Seriamente acho que se levássemos os sinais, os avisos que não podem ser explicados mais a sério, talvez até poderíamos evitar algumas tragédias.

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As cores e as lentes de proteção


máscara, ouro

Por mais que tento ver o mundo com olhos inocentes, me deparo com a nua e crua realidade: a natureza humana é mesmo podre.

Exemplos temos de montão: pais que engravidam, escravizam, vendem e mutilam as genitálias das próprias filhas; adolescentes de 11 e 12 anos que abusam sexualmente de crianças de pré-primário; homens velhos que maltratam suas jovens esposas de países pobres por se acharem nos seus direitos; tráfico de mulheres feito não só por criminosos mas financiados por homens distintos da alta sociedade; pedofilia na internet e na igreja católica; maltratos de mãe e madrasta para com os filhos e por aí afora.

Basta sairmos na rua e começarmos a observar as pessoas. Será que esse aí abusa de sua esposa sexualmente? O que será que ele cogita na privacidade total de seus pensamentos? Quais são suas fantasias mais secretas? Ele sai só com mulher ou paga um adolescente drogado para lhe dar um bom trato no hemisfério sul? Procura na internet por cenas chocantes gravadas no ápice do ato do horror como suicídios, assassinatos, etc?

Posso eu confiar meu filho na casa daquele amiguinho da escola cujo pai é desempregado e alcoólatra, ou na casa do outro coleguinha cuja mãe tem um olhar falso e perturbador que não corresponde com o resto da imagem que ela tenta vender?

Assusto e roubo a inocência de uma criança explicando para ela estar sempre atenta com doentes mentais andando livre por aí ou dou um voto de confiança para as maldades do mundo?

Abro minha vida para uma amiga que se corrói de inveja ou acabo guardando muitas tristezas e alegrias para mim mesmo?

Esse é um mundo de toma-lá-dá-cá. Por mais que tentemos enxergar o lado floril das coisas, as trevas conseguem nos cegar com mais freqüência que gostaríamos de admitir. No entanto, os mais fortes ainda conseguem superá-las respirando fundo o ar poluído como se ele fosse puro e agradecendo por não ter sido baleado e nem raptado naquele assalto à mão armada.

Até a próxima recaída, que enxerguemos as cores vibrantes do mundo, mas sempre com lentes escuras de proteção.

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Megalopenses


cidade, noite

Megalopenses: louvemo-nos!

Somente moradores (de nascença ou não) de megalópoles se divertem com piadas de estressados, se sentem seguros na multidão, tem medo da tranqüilidade do campo, não sabem de verdade o que significa curtir a natureza, não sabem nome de pássaros e nem de plantas mas dão aquela dica de ouro sobre uma quebrada que vende os melhores pastéis do país ou sobre uma lojinha única que acabou de abrir numa travessa praticamente invisível de uma grande avenida.

Nós, megalopenses, não temos receio de sair pelo mundo e nem de subir em um ônibus sem saber onde ele vai parar. Nós desconfiamos de tudo e de todos e isso nos mantém de pé. Nós somos obrigados a lidar diariamente com inúmeros riscos que um morador de vilarejo nem tem em seu dicionário e ainda os tiramos de letra. Nós somos criativos e tentamos tirar o melhor proveito de cada situação, mesmo se isso for de dentro do carro parados num trânsito que parece não ter fim.

Erramos e acertamos, caímos e nos levantamos, mas ainda ninguém parece se lembrar nessa selva de faces sem nomes. Hoje estamos no topo e no pior dos casos amanhã a caminho dele de novo.

Megalopenses entendem que não pertencem somente à uma cidade, porém a um complexo muito, mas muito maior que isso. Nós não nos sentimos mal por estarmos desacompanhados para almoçarmos, para jantarmos ou para irmos ao cinema por exemplo na sessão das nove da manhã ou da meia-noite porque certamente não seremos os primeiros, os últimos e provavelmente nem os únicos a fazerem como tal.

Compreendemos e exercitamos com excelência a função do anonimato, mas devo dizer que do mesmo jeito que vibramos com ele, uma vez ou outra lamentamos sua soberania.

Sei que cidadãos de pequenas cidades vivem suas vidinhas assim ou assado e que se dizem felizes assim, mas por maior que seja meu respeito para com vocês moradores de cidadezinhas insignificantes, a verdade é que ninguém sabe se sentir mais vivo como um megalopense, dada sua capacidade de compreender através de sua arte a alma dos problemas e soluções de sua megalópole.

O megalopense não pertence à uma cidade, porém a cidade e o mundo todo lhe pertencem.

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No Programa: Viagem


malas, viagens

Quem já viajou pelo menos uma vez na vida de carro, de ônibus, de trem, de avião, de bicicleta ou de pau-de-arara sabe: uma viagem começa bem antes da data marcada. Na escolha do destino, na compra dos bilhetes, na reserva da acomodação e no planejamento financeiro.

É claro que hoje em dia é cada vez mais habitual partir num desses roteiros de último minuto – conhecidos mundialmente por “Last Minute”. Geralmente jovens e viajantes “de bagagem” (e não turistas) são aqueles que embarcam nessa porque são abertos a qualquer tipo de experiência e não possuem uma lista de lugares que desejam conhecer antes de morrer.

Mas “Last Minute” à parte, a forma mais convencional ainda é aquela planejadinha, bonitinha, sem espaço para mudanças de última hora. Dentro dessa categoria, independentemente do fator financeiro, diria que existem três ramificações: a dos medrosos, a dos desorganizados e a dos organizados.

Todas as ramificações possuem suas vantagens e desvantagens – como tudo mais nessa vida – mas ainda sim posso dizer que pertenço à somente uma delas. Mas qual?

Bom, a categoria dos turistas medrosos enquadra estudantes menores de 18 anos que partem em excursão escolar, velhinhas e velhinhos que sofrem de dor nas pernas e já não podem bater uma cidade à pé. Ela também enquadra os medrosos mesmo, esses que não tem motivo algum para partirem em excursão e mesmo assim o fazem (talvez pelo fato de não dominarem nenhum idioma estrangeiro - se tratando do exterior).

A vantagem desse grupo é que as más-surpresas ao longo da viagem não minimalizadas e eles não precisam de preocupar com nenhum tipo de organização, nem mesmo na escolha do local onde irão jantar (e comida e bebida que irão experimentar), mas somente em seguir a programação feita e estudada por terceiros.

A desvantagem desse grupo é clara demais: onde está o espírito de viagem? Que raio de turista é esse que só se interessa em tirar foto na frente de grandes patrimônios mundiais, fazer compra de souvenires de plástico, sem se importar como anda a sociedade atual desse lugar e no que ele se transformou ao longo dos anos e séculos, mesmo em lugares como as ilhas Maldivas que aparentemente não possuem cultura alguma.

E tem mais ainda: por mais que amemos nossa terra natal, não deveríamos fechar os olhos para o fato de que existem outras belezas, talvez ainda muito mais bonitas que as nossas pelo globo afora. Mas ainda assim esse tipo de turista volta para casa dizendo que não há lugar mais lindo no planeta do que o seu próprio bairro.

Já a categoria dos desorganizados é assim: eles confiam 100% no fechamento do pacote de transporte mais acomodação da agência de viagem, mas não gostam de excursões. Dois dias antes do embarque perdem o cartão de crédito e se dão conta que o passaporte está vencido, mas acabam dando um jeito e vão assim mesmo. Não compram guias de viagem com antecedência e no dia seguinte após o café da manhã às onze horas já no local por eles escolhido, é que resolvem o que irão fazer: andar por aí com um mapinha na mão só para acharem o hotel na volta.

Não sabem dizer quais são os pontos imperdíveis da cidade e nem o nome dos patrimônios, mas sabem dar a dica de um restaurantezinho bacana que faz uma comida caseira e barata que descobriram por acaso.

Vantagem de ser desorganizado: não ser um típico turista e experienciar uma cidade pelo o que ela é. Se perder como viajante e se achar como pessoa.

Desvantagem: se tocar só de volta em casa que aquele prédio redondo em ruínas no meio daquela avenida larga era o Coliseu...

E a categoria organizada? Ah! Essa aí é culta. Conhece o nome das principais ruas da cidade que quer conhecer mesmo antes de chegar lá. Estuda fervorosamente o mapa e o guia turístico com meses de antecedência. Prepara no computador com atenção os detalhes do decorrer de cada dia: quantos minutos para cada museu, qual o prato regional pedirá no almoço e os itens que não pode deixar de comprar, como por exemplo rede de renda de Natal ou cristal da Boêmia. Esse viajante também se arrisca a falar alguma coisa na língua local.

Sua vantagem é de voltar para casa com a sensação de não ter perdido seu tempo e de ter aprendido um monte de coisa nova.

Agora sua desvantagem é de não ter relaxado nas merecidas férias, de talvez não ter perdido 30 preciosos minutos do seu dia em um Café de rua só observando as pessoas indo e vindo, inalando assim a alma da cidade.

Só para finalizar: medroso, desorganizado ou organizado, feliz é aquele que viaja. Nisso todo mundo concorda.

Luciana B. Veit
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Rainha do Lar (Rabat el Beit)


princesa, castelo

Rainha do Lar, oh Rainha do Lar
Seus deveres são saber
Cozinhar, lavar e amar
Oh Rainha do Lar!

Se desenvolvido, isso até que poderia dar em alguma musiquinha, não acham?

E vocês também acham que o título de Rainha do Lar, “Rabat el Beit” do Árabe, seja merecido?

Ninguém discorda que cuidar da casa, dos filhos e do marido seja um trabalho duro, no entanto quantas pessoas se dão conta que o trabalho da dita cuja vai de braçal a psicológico, com expertise até no departamento financeiro?

Está certo que muitas dessas rainhas sem coroas realmente não possuam outros talentos que possam ser explorados, mas ainda sim elas continuam nos seus direitos de não serem eternamente a alma da morada, o pilar dos filhos e a sombra dos maridos.

Algumas estudaram nas salas das mais ou menos renomadas universidades, enquanto outras estudaram com a vida. Mas o que os dois tipos de mulheres tem em comum, é que elas não só tem o direito, mas tem também o dever de perseguirem seus sonhos mesmo com os filhos debaixo dos braços, já que dizer que eles impedem que seus desejos sejam realizados seria pura covardia.

Hoje estou sentada na varanda de um dos clubes de golf mais exclusivos do mundo, o “Nine Bridges” na ilha de Jeju-do, Coréia do Sul, sorrindo e cumprimentando as pessoas que passam por mim, mas poucos deles levam em conta que eu também tenha meus próprios interesses e talentos, ao invés de estar unicamente acompanhando meu marido nessa curta viagem à negócios.

De quem é a culpa então? Da sociedade machista? Não, a culpa será unicamente minha enquanto não me levantar e mostrar ao mundo que sou muito mais do que uma sombra sem alma e sem voz, por mais que alguns achem que pessoas que falam de si mesmo sejam chatas e insuportáveis.

Cada mulher, por mais prisioneira que possa se sentir com seus altos e baixos deveria se olhar no espelho com freqüência e dizer:

- Hoje o mundo me pertence. Serei egoísta e não darei atenção a nada que não seja meu umbigo.

Agora para aqueles que gostaram da musiquinha acima, mas não gostaram do texto abaixo dela, esses estão convidados a mudarem de página e a não voltarem mais.

Luciana B. Veit
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Primavera Florescente


primavera, parque, flores

Primavera na Ásia é uma poesia. Mas como vivo na Coréia, falarei do espírito que anda reinando pela cidade de Seul.

Chuva num dia e o mais esplêndido sol num outro. Temperaturas agradabilíssimas na faixa dos 17°C. As árvores coloridas ao invés de verdes, florescem brancas, amarelas, roxas e a mais bela de todas, a cerejeira, com suas flores rosa-claro, reina no topo da atenção dos mais românticos e amantes da natureza.

Turistas do mundo todo se aglomeram para deixar seus queixos caírem na milha da cerejeira sul-coreana, que começa no Building 63 (prédio mais alto do país) e vai até o prédio da Assembléia Nacional.

A delicadeza e perfeição da cerejeira florescente dá um toque feminino na masculina e fluorescente Seul. De uma hora para a outra, as mulheres aqui se dão conta de como um feminino toque sutil prevalece face a predominância agressiva masculina.

Mas nem todos os seulitas tem tempo e energia para irem até a milha da cerejeira só para adoçarem um pouco suas batalhas rotineiras. Uns respiram o ar primaveril dos jardins de suas casas, outros moram do lado de um parque, alguns se contentam com a brisa da beira “pelada” do largo rio Han e muitos, os mais desesperados, se conformam em respirar os gases de escape dos carros e caminhões acampados de esteira e cesta de picnic literalmente de baixo de uma dessas árvores coloridas que se encontram à beira da via expressa só pelo fatos delas estarem mais próximas de seus lares (uma cena em tanto!).

Mas de uma forma ou de outra, independentemente do modo de como ela é curtida, a primavera na Ásia exibe sua mais alegre exuberância e enche os peitos do “público” de ternura e prazer por poderem curtir tamanha beleza sem precisarem pagarem nada pelo espetáculo.

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Situação (In)Cômoda: Que nos acostumemos...


soldados, militar, abraços

Com as mais recentes ameaças da Coréia do Norte de transformar as cidades da Coréia do Sul em pó e seus mares em chamas, seja para testar o mais novo presidente sul-coreano eleito ou para gritar por ajuda de uma forma absurda por conta da onda de fome que começou invadir até a elite norte-coreana, me perguntei se era hora de fazer uma mala de emergência.

Não, não há pavor nas ruas da capital. Não, não recebemos uma lista de afazeres das nossas embaixadas em caso de emergência (o que não era de se esperar mesmo da preguiçosa embaixada brasileira de Seul). E não, as firmas estrangeiras não estão evacuando seus empregados e famílias, como já aconteceu comigo e com meu marido, filho e cachorro duas vezes quando ainda morávamos em Dubai (sem motivo – devo admitir); primeiro por conta da guerra do Afeganistão e depois por conta da segunda guerra no Iraque.

Mas voltando à península coreana, muitos esquecem que um acordo de paz entre as duas Coréias inimigas ainda não foi assinado desde a trégua de 1954.

A última vez que os sul-coreanos sentiram suas espinhas gelarem foi em 1983 quando Pyongyang ameaçou Seul a tal ponto de fazerem os nativos encherem suas casas com água de garrafa e comida enlatada.
No entanto, essas freqüentes ameaças se tornaram rotina, mas de que calibre! Vejamos:

Situação 1

- Se não me emprestar seu lápis vermelho, te pego lá fora na hora do recreio!
- E se você estiver me esperando lá fora, vai voltar para casa com o nariz quebrado!

Situação 2 (escalação do Situação 1)

- Se parar com a entrega de arroz, seu seulitizinho de merda, te mando uma bomba nuclear!
- E se mandar uma bomba, nós junto com os americanos aqui estacionados, aniquilaremos de vez e com força qualquer esperança de futuro que possa ter, seu comunista bastardo!

Lendo tanto os jornais locais quanto os internacionais, percebo que os daqui mal comentam a respeito, enquanto os internacionais colocam o assunto na primeira página. É claro que se a Coréia do Sul fosse uma Rússia, ou uma China ou até um Emirados Árabes Unidos, onde as notícias são filtradas, seria fácil explicar a falta de foco no assunto, mas esse não é o caso aqui. O que acontece é que os sul-coreanos já se acostumaram a receber ameaças nucleares.

No entanto meu problema é: se eles se acostumaram ou não, eu não me acostumei. Estou sim acostumada (talvez até a um ponto neurótico) a olhar sempre ao meu redor, a não confiar em ninguém e a carregar spray de pimenta na bolsa, mas ter que achar normal a ameaça de viver numa cidade a um passo de uma guerra nuclear – de acordo com as últimas manchetes internacionais – isso é categoricamente fantasmagórico.

Pessoas aqui dizem: - Relaxe! Ele (Kim Jong-il) é louco!

Mas exatamente essa é questão, não? Pessoas loucas são imprevisíveis!

Fato é que não estamos apavorados com as mais recentes provocações de tom até pessoal de líder para líder, porém falando da minha pessoa, acho que deixar uma malinha de emergência preparada no cantinho de casa e combinar com meu marido um ponto de encontro fora da cidade talvez não seria uma má idéia.

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Pais e Filhos: Quentes ou Frios?


pai, filho, rio

Um texto sobre filhos americanos e filhos italianos anda circulando por aí.

O resumo dele é que o filho italiano, “o caloroso”, é muito melhor do que o filho americano, “o frio”. Quem ainda não leu o texto, que faça a devida pesquisa na internet...

Mas voltando ao assunto, achei isso tudo um absurdo e resolvi opinar a respeito.

Em primeiro lugar, apesar de termos desenvolvido nossas personalidades próprias, temos como base a educação que recebemos dos nossos pais – portanto se um filho é frio ou grudento demais para o gosto materno ou paterno, existe 75% de chances que a culpa sejam deles.

No entanto mesmo aí a coisa pode gerar mais duas alternativas (os demais 20%):

1) O clima familiar sempre foi tão caloroso que o filho nunca conseguiu curtir um minuto em paz sua solidão, seus sonhos, suas frustrações e suas pequenas ou grandes vitórias. Mas é claro que ele não ousaria dizer para sua extrovertida mamma que ele não tinha vontade de compartilhar tudo o que acontecia com o restante da família. Resultado: na primeira oportunidade esse filho se afasta e se torna frio aos olhos de terceiros - os mesmos que sempre se negaram a aceitar a sua natureza quieta e reservada.

2) Para esse outro protótipo de filho, o clima familiar na sua infância e adolescência sempre foi regulamentado, polido, educado e programado. Cansado de tantas regras, esse filho já com suas asas para voar provavelmente com seus 18 anos de idade se envolve com os primeiros que trouxerem um pouco de confusão em sua vida.

Então qual é a história dos restantes 5%? Bom, esses daí devem ter provavelmente passado por situações dramáticas.

O que eu quero dizer com tudo isso é que tanto um quanto o outro são bons exemplos de filhos.

Quanto aos pais, os mais “frios” entendem de verdade que seus filhos não lhe pertencem e que por isso tem vida e vontade próprias, e que com os anos eles se tornam somente grandes amigos, deixando de ser heróis. Esses pais sabem que por mais que seja difícil aceitar, não é 100% regra o amor incondicional que os filhos tem por eles; por isso seus limites são respeitados. Os pais “frios” sabem até onde devem se meter na vida dos filhos e com isso não são vistos como incômodos ou pedras nos sapatos.

Acho que não preciso falar das coisas que os pais “calorosos” fazem porque muitos de nós, latinos de sangue ou alma, já conhecemos. No entanto, muitos desses pais esquecem suas funções principais ao trazerem seus filhos para o mundo: ensinar que eles encontrem seus caminhos sozinhos, que andem com as próprias pernas, porque no leito de morte, os pais que conseguiram esse feito serão aqueles que partirão em tranqüilidade.

Sufocar e ignorar são palavras ruins a respeito do relacionamento entre pais e filhos, e sendo mãe, entendo que no futuro o relacionamento com o meu filho dependerá do nosso de hoje – independentemente da forma de como ele vê sua realidade, e não de como eu gostaria que ele a visse.

Por isso, é hora de acabarmos com esse papo de que somente os filhos e pais “calorosos” são os bons exemplos, porque como para tudo mais nessa vida, existem sempre os dois lados da moeda e também os diversos meios que encontraram seus fins.

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24 Horas de Magia


estágio, teater

Outro dia estava lendo o jornal pela manhã quando me deparei com um anúncio/artigo que falava sobre um evento cultural aqui em Seul que muito me chamou a atenção.

Marcado para o dia seguinte, às 09.00h da noite, aqueles apaixonados pelo teatro se encontrariam no local determinado e teriam somente 24 horas para se enturmarem com os rostos estranhos das pessoas do novo time (entre vários outros) do qual faria parte e fazerem dessas poucas horas uma peça de teatro com aproximadamente 20 minutos de duração.

Primeiro, o escritor teria que passar a noite em branco escrevendo o roteiro. Não, ele não teria tido a chance de fazer isso antes porque os temas a serem abordados seriam tirados de dentro de “tigelinhas” na própria noite da preparação do evento – e quanto a isso o organizador seria super rígido.

Com o roteiro pronto as 08.00h da manhã, os atores se encontrariam com o diretor e ensaiariam o dia todo, porque às 09.00h da noite seria showtime!

Bom, cheguei no estabelecimento pronta para experienciar algo novo. Havia tido aulas de teatro na minha infância, mas nesse caso, apesar da proposta estar aberta para qualquer pessoa interessada, chamou mais a atenção de atores e escritores profissionais (no entanto desempregados), do que pessoas que como eu, nunca tiveram a chance de participar de uma maratona cultural dessa antes, e logo com toda a responsabilidade do mundo nos ombros.

O papel de diretora me foi delegado e foi aí que minha espinha gelou. Estaria confortável com o papel de escritora e talvez até de atriz por uma noite, mas diretora? Respirei fundo e encarei o desafio com confiança – tudo em Inglês, obviamente.

No dia seguinte, um sábado, deixei meu filho aos cuidados do meu marido e parti para essa inesquecível experiência.

Chegando no mesmo local da noite anterior as 09.00h da manhã, já munida com o roteiro que o escritor havia me mandado por e-mail as 05.30h da madrugada, me reencontrei com meu time de entusiasmados atores e logo começamos a trabalhar. Lemos e relemos o roteiro até os atores deixarem o papel de lado, estudamos os perfis psicológicos e os objetivos de cada personagem, depois fui atrás de tudo que podia arrumar em duas horas, como fantasia e propriedades de palco – também conhecidos simplesmente por “props”– que são todos os objetos que são necessários – e até me ocupei da trilha sonora.

Achei incrível que pude dar conta do recado meio a profissionais da área e mal posso dizer o quanto me senti durante todo esse dia; como se estivesse no corpo de outra pessoa.

A cada hora que passava a adrenalina subia. Em pouquíssimas horas pude encontrar pessoas que falavam a mesma língua que eu aqui na Coréia do Sul, fora meu marido e meu filho, claro, e isso me encheu o peito de alegria.

Estar no meio de atores, de diretores, de escritores de teatro, mesmo que só por um único dia, me fez olhar o mundo de novo com outros olhos. Por exemplo, quão triste é a realidade de talentosos atores / dramaturgos / diretores serem obrigadas a batalharem pelo pão de cada dia em outras áreas somente em nome da sobrevivência - absolutamente sem paixão.

Na verdade sempre soube que artistas são crianças inocentes e putas experientes ao mesmo tempo e é exatamente isso que faz deles seres tão especiais.

Mas de volta ao show, com a lua alta no céu e a chuva caindo lá fora, a casa já estava lotada e nós mal podíamos aguardar para tomar conta do palco. Mesmo com a responsabilidade da direção, ainda vivi um pequeno personagem na estória, o que foi muito divertido, sem dúvida.

Assim que ouvi meu nome como diretora saindo da boca do organizador do evento, um ator canadense muito carismático, achei que estava sonhando e pedi para uma das atrizes me beliscar.

Segundos mais tarde lá estávamos nós: três atores e uma atriz no palco dando conta do meu recado durante uns 20 minutos de frente ao um público gentil, interessado, mas ainda sim crítico.

Os aplausos me fizeram compreender o motivo de tantos atores trabalharem quase que de graça (...esqueça Hollywood, faça-me o favor!...), porque naquele instante onde toda a atenção do mundo é só sua, nada é mais valioso.

Após a apresentação, me despedi do meu time e de todos aqueles com quem convivi durante um dia todo e jurei a mim mesma que participaria desse programa caso ele cruzasse meu caminho de novo. No dia seguinte, acordei tarde e precisei de algumas horas para organizar meus sentimentos: estava extremamente feliz por ter feito parte desse feito cultural de 24h de duração, mas imensamente triste por não mais fazer parte desse mundo tão cheio de magia.

Meus escritos literários, logo após minha família, continuam me sendo sagrados e assuntos prioritários, porém espero um dia poder voltar para esse mundo paralelo que é o teatro.

Resumindo, acho que a proposta de 24h de teatro deveria fazer parte de qualquer programação cultural de qualquer grande cidade que se dá o respeito, porque o efeito de tirar os amantes da arte de suas rotinas e envolve-los num esquema desse é o maior presente que seus egos poderiam receber.

Luciana B. Veit
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Global Estereótipo Feminino


mulheres, blond, brunette

Hoje mesmo li um artigo sobre a dificuldade que as mulheres espanholas tem de encontrar roupas que lhe caibam. Isso se dá pelo fato das espanholas terem corpos muito diversos, quando a maioria apesar de não ser obesa, apresenta formas diferentes: quadrado (estereótipo das asiáticas), fino em cima e largo embaixo (estereótipo das brasileiras) e de pêra (estereótipo das italianas).

Elas reclamam porque dizem que as roupas mais transadas são mesmo para as mais magras e que se sentem gordas (mesmo sem serem) quando entram em uma loja e não conseguem encontrar nada.

Lendo isso, eu não poderia estar mais de acordo com a frustração de não encontrar nada do meu tamanho aqui na Coréia. Tendo o estereótipo do corpo de uma russa (pernas longas, magra e de quadril largo) e sou vista como uma extra-terrestre de pés gigantes (por conta do meu 1 metro e 76,5 centímetros de altura) toda vez que tento a minha sorte pelos diversos Shopping Malls da cidade de Seul. Por me sentir mal com a reação desse povo que geralmente é tão amável e receptivo, decidi cortar a palavra Compras Coreanas do meu vocabulário.

Mas já que estamos falando de estereótipo e roupas, por que não BRINCAMOS um pouco com aquela imagem que nem sempre corresponde à verdade que temos de algumas mulheres (digamos de 30 a 50 anos) ao redor do mundo? Será que elas sempre encontram o que procuram nas lojas?

Brasileiras: a maioria é ruim de rosto (e de cabelo também), porém boa de corpo. Higiene pessoal é escrita com letra maiúscula e a atenção com “todos” os pelos do corpo é excessiva e detalhada. Gostam de vestir calças apertadas que realçam o bumbum e tops que instigam a imaginação masculina para a parte do corpo que geralmente não é a mais forte do todo. A maquiagem é leve e de tons naturais.

Russas: divinas de rosto e infinitamente longas de corpo. A higiene pessoal, inclusive a atenção dada para os pelos do corpo, é tão importante quanto raspar a sola do pé para um grande macho brasileiro. Gostam de unhas postiças, calças jeans azul claro extremamente apertadas, casacos de pele e botas de salto brancas. A maquiagem é forte nos tons azul, verde e pink.

Alemãs: bonitas de rosto e malhadas de perna (mas não necessariamente de barriga, seios e braços). Mais íntimas do chuveiro do que muita gente pode imaginar, mas ainda sim tem dificuldades com a palavra depilação. Gostam de sapatos confortáveis e baixos, cabelos curtos e adoram se vestir da forma mais clássica possível: vestidinhos cafonas, terninhos de marca e lenços! Ah os lenços em volta do pescoço, sobre os ombros, mesmo até quando sua presença é mais que dispensável. Quanto a maquiagem, é um batonzinho mal passado e olha lá.

Sul-coreanas: meigas, magérrimas, miúdas e com uma obsessão para ficarem cada vez mais brancas (graças a resposta à altura dos cosméticos com o efeito enbranquecedor). Há quem diga que o olho rasgado delas seria como uma boca sorrindo – ou seja, curvada para cima – enquanto as japonesas, por exemplo, tem a curva do olho para baixo. Mas eu sinceramente ainda não consegui distinguir esse detalhe que parece fazer toda a diferença do mundo nesta parte do globo. Mas enfim, as coreanas gostam de vestir impecavelmente e de uma maneira bem feminina: laços, bordados, vestidinhos rodados e por aí afora. Elas são bem asseadas (e depiladas) e gastam uma fortuna com todos os produtos que façam elas parecerem mais jovens. Elas gostam de se maquiar como as brasileiras, em tons leves e naturais, no entanto um pouco mais luminosos.

Árabes do Golfo Pérsico: para começar vale lembrar que por conta dos lenços cobrindo o rosto, é necessário mais tempo na região do que férias passageiras para ver aquilo que elas tanto escondem. Bom, de olhar penetrante, as árabes do Golfo são vaidosas, limpas e cheirosas e se lavam intimamente toda vez que usam o toalete. Tem a pele ruim e várias gorduras a mais pelo corpo, mas seus cabelos são fortes e bem cuidados. Manicure e pedicure em dia são tão indispensáveis quanto jejuar durante o Ramadan. Quanto ao fator depilação, elas se dedicam muito mais do que muita gente pode apostar. A maquiagem dos olhos é carregada e sempre perfeitamente delineada. Por debaixo das abaias (que são sobretudos pretos de tecido leve), as nativas usam vestidos largos - ou até mais justos - de cores extremamente fortes e alegres.

Quanto às norte-americanas é difícil dizer: os estereótipos mais populares podem ser o da menina caveira que vive em Nova Iorque ou em Los Angeles e sofre de bulimia, não tem identidade própria, só encontra roupa que serve na secção infantil de uma loja de departamentos e ainda sim odeia o que vê; ou o outro estereótipo da garota sem controle do interior que come tudo o que tem vontade e não necessidade, vira uma baleia e depois processa aquele que insinuou algo sobre a verdade que todo o mundo vê, menos ela.

Por mais que esse estereótipos sejam um brincadeira nossa neste semanal, não podemos negar que onde tem fumaça sempre tem fogo e que ainda sim, para toda regra existe uma exceção.

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Olhando para o teto


pintura a óleo, teto, luz efeito

Na Inglaterra crianças de 5 anos já sabem ler e escrever enquanto na Alemanha isso só ocorrerá quando a criança estiver prestes a completar 7 anos. No Japão, as crianças e adolescentes carregam tantos trabalhos nas férias escolares que elas não sabem se podem dar o devido nome ao merecido tempo livre. Na Coréia do Sul o stress começa tão cedo que um professor não compreende quando um pai estrangeiro recusa convites de milhões de atividades extra-escolares, alegando que não tem como objetivo acabar com o lazer dos filhos e que nem tudo na vida é formação.

Falando de educação, fiz com que meu filho compreendesse cedo o significado da palavra conseqüência (e não terror – para aqueles fraquinhos em psicologia). Alguns exemplos: se não comer o que está na mesa ficará com fome; se for dormir tarde não conseguirá levantar cedo na manhã seguinte; se tratar mal as pessoas será mal tratado; e se não batalhar pelo o que deseja nunca conseguirá nada na vida – nem que isso seja o brinquedo de volta que o mais bruto da turma acabou de arrancar da sua mão. Do nada não vem nada.

Fora as obrigações das crianças, como brincar sem regras, ir à escola, fazer esporte ou aula de música, sei o quão importante são os momentos onde a criança fica sem fazer nada, literalmente olhando para o teto. Por mais que pareça tempo perdido para muitos pais (quando as crianças deveriam estar revisando a tarefa ou dando uma arrumada no quarto), são exatamente nesses momentos “em branco” quando as situações vividas, os heróis ou os vilões são classificados, quando grandes idéias nascem (inclusive idéias que tornam-se companheiras de uma vida inteira), quando um mundo de faz-de-conta se torna real, quando elas visualizam coisas que mais ninguém consegue, quando elas entram em sintonia com a própria natureza e finalmente quando elas começam compreender quem são de verdade.

Saber olhar para dentro de si é uma difícil jornada que poucos ousam fazer, no entanto essa arte tem como conseqüência nada menos do que a felicidade e a paz interior.

Mas felicidade não são momentos, você pergunta? Sem dúvida que sim, no entanto já que estamos falando sobre momentos, aquele que faz o balaço dos seus, saberá dizer se ele é negativo ou positivo.
A pessoa que se conhece sofre menos, por mais que seja mais solitária nadando contra a corrente. Fofocas não a afetam (tanto) e seu tempo raramente é perdido, porque mesmo enquanto estiver parada olhando a mosca estacionada no lustre do teto, sua cabeça estará a mil por hora. Essa pessoa que sabe o que é e o que quer é direta e talvez até um pouco fria, no entanto sabe reconhecer o valor da sua vida e do seu tempo.

Agora eu pergunto: onde começa esse momento do reconhecimento interior? Na fase rebelde da “aborrecência”, ou após um trágico evento? A verdade é que isso tudo começa muito mais cedo, quando aquela criancinha absorve e reage muito mais do que um adulto possa imaginar.

Sou a favor de doces, fast-food e televisão? Evidente que não, mas acho que tudo em pequenas doses faz parte de uma vida normal. Envolvo-me quando acho que meu filho agiu de forma errada? Certamente, mas sei que mesmo com seus 6 anos de idade somente ele poderá avaliar seus atos da maneira mais apropriada – tendo sempre em mente a palavra conseqüência.

Ser pai e mãe não é tarefa fácil. Existem pais que baseiam sua educação de acordo com as regras da sociedade, outros que baseiam-na em suas próprias regras e finalmente outros pais que não se baseiam em regra nenhuma. Fato é que por mais que os pais procurem dar uma direção na vida dos filhos, serão eles que decidirão no fim qual caminho tomar.

Quanto mais jovens eles forem, mais fácil será para compreenderem suas naturezas, no entanto isso se perderá com o tempo caso seus pais se neguem a enxergar que mesmos os pequenos já apresentam uma personalidade um tanto formada - seja essa gentil ou mais atrevida - e que o tempo “em branco” que eles passam olhando para o teto apresenta de fato uma vital importância para um benéfico desenvolvimento.

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O jeitinho coreano


rio, ponte

O jeitinho brasileiro estrangeiros conhecem ou já ouviram falar, o que seria basicamente usar a criatividade para encontrar soluções para os probleminhas ou até problemões rotineiros. Mas vocês já ouviram falar do jeitinho coreano?

Outro dia estava no cabeleleiro (vale reler o texto do semanal '
Hair Stylist') e me dei conta que o 'hair stylist' que sempre cuida da minha cabeleira nunca tira férias. Então perguntei como ele agüentava esse ritmo. Como resposta: “this is the Korean way”, ou, esse é o jeitinho coreano. Trabalhar, trabalhar e trabalhar sem reclamar, mesmo porque férias dessas que conhecemos, de 30 dias ou 4 semanas divididas ao longo do ano (ou até de férias vendidas), não tem tradição na península coreana, contando somente alguns poucos anos de vida. Um exemplo, as secretárias e os motoristas só tiram ferias quando o chefe as tira. Agora se ele resolver vender suas ferias, o azar será deles.

Escravo? É claro que não. Ele tira seus dias de folga durante o Seol, ou Ano Novo Lunar (mesmo que Ano Novo Chinês), durante o aniversário do Buda ou durante o Chusok, que seria o equivalente ao Dia de Ação de Graças americano (Thanksgiving) só que mais importante ainda. Mas dependendo da profissão, não existem fins de semana mesmo.

Ah! Já conhece viver para trabalhar, né? Conhece nada! Por mais duro que dê, o lazer sendo ele mental ou físico, sempre foi escrito em letra maiúscula para a maioria dos brasileiros, americanos e europeus, mas se tratando dos asiáticos do Extremo Oriente, poder fazer qualquer coisa que não seja somente cair duro na cama após o trabalho é luxo.

Mesmo no Oriente Médio, quando o único dia de folga da semana são as sextas-feiras, não freia os árabes e estrangeiros ali residentes de exercitarem seus hobbies e de cuidarem de suas famílias.

Mas até então, aqui em Seul, por exemplo, muitos coreanos acabaram trocando indiretamente suas famílias pela companhia dos pratos apimentados e do soju, que é uma espécie de pinga coreana feita de arroz (que sobe logo e não é cara). O soju acompanha um churrasquinho coreano, o kimchi, uma rodada de alho grelhado ou um grupo de colegas do trabalho ou estudantes das faculdades de elite, para assim fazerem com que eles esqueçam um pouco suas obrigações e suas pressões do dia-a-dia.

O soju faz parte da vida dos coreanos, homens e mulheres, como a novela das nove faz parte da vida dos brasileiros, por exemplo. Não que esteja chamando-os de pinguços, mas a verdade deve ser dita...
Mas então um belo dia, o novo presidente eleito, Lee Myung-Bak, diz para seu time: “Durante o meu governo, vocês terão que se esquecer de suas famílias e principalmente do soju!”

Passar um tempo de qualidade com a família já era algo que o gentil e trabalhador povo coreano aprendeu a viver sem grandes dramas há muito tempo, mas sem o soju? Se o bicho pegar mesmo no gabinete do presidente sul-coreano eleito, veremos grandes mudanças por aqui. A pergunta é: positiva?

Independentemente do soju, da pinga, dos esportes, da música, das novelas, de um bom livro, da companhia da família ou da namorada, até que ponto devemos riscar o lazer de nossas vidas em nome das responsabilidades? Tem gente que consegue responder essa questão como um piscar de olhos, mas os coreanos e os workaholics no geral deveriam parar um instante e refletir sobre o fato que não deveríamos mais nos envergonhar de dar a merecida importância ao lazer, porque são esses momentos que trazem o saudável balanço de volta para nossas vidas, por mais que não ganhemos nada €$¥€$¥ com isso.

Luciana B. Veit
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Enterro de Tijolos


coréia, seul, portão

Luto é a palavra para descrever como as pessoas estão se sentindo em Seul durante todo o mês por conta da destruição do Portão Namdaemun, que foi causado por um incêndio criminoso. Na noite da catástrofe (11.02.2008), quando um senhor desiludido que queria chamar a atenção das autoridades para seus problemas pessoais resolveu botar fogo no tesouro nacional número um do país, ele acabou conseguindo muito mais que isso: ele cortou os coração dos “seoulites” e também dos estrangeiros residentes aqui, criando um clima de funeral oficial do estado.

Com a destruição do World Trade Centre em Nova Iorque muitos choraram a desgraça, mas cada lágrima sofrida que caía, era mais para cada alma ali perdida - as vítimas do ataque terrorista - do que para os tijolos em si. Se ninguém tivesse morrido, como foi o caso do incêndio do Portão Namdaemun, teria tido a destruição das torres gêmeas um impacto tão doloroso na alma dos nova-iorquinos, em comparação com os “seoulites”?

Para quem não sabe, a construção do Portão Namdaemun (ou o Portão do Sul, do Coreano) foi finalizada em 1398. Namdaemun sobreviveu a guerras e a ocupação japonesa e era o grande orgulho de uma nação que leva a palavra vergonha muito a sério.

A destruição do Portão do Sul é uma desonra para o povo coreano. Alguns dizem: “ - Se não somos capaz de proteger o nosso tesouro nacional número um, não somos capazes de proteger nada. Mesmo quando a reconstrução do portão ficar pronta daqui três anos (o que custará em torno de 21 milhões de dólares), o sentimento não mais será o mesmo.”

Exagero talvez?

De frente ao Namdaemun observei os residentes em prantos levando flores brancas e até um grupo de música folclórica conduzindo uma cerimônia fúnebre, como se faz no enterro de algum ente querido. Logo me dei conta o quanto os coreanos amavam esse patrimônio, como se ele tivesse uma alma e fizesse parte da família deles. Lá foi inevitável que eu imaginasse como os nativos e os residentes de Roma, de Paris ou do Rio de Janeiro se comportariam face a destruição sem vítimas, digamos, do Colosseum, da Torre Eiffel e do Cristo Redentor. Haveria um sentimento de perda, sem dúvida, mas haveria uma grande e profunda dor interior?

Graças aos princípios confucionistas (trabalho árduo, respeito a família, disciplina, compaixão e solidariedade) a Coréia do Sul goza o sucesso do seu país hoje. A sociedade coreana come junto, bebe junto, ri junto, chora junto, explode junto e amaldiçoa junto. O incêndio do Namdaemun não foi somente um simples enterro (ou melhor cremação) de tijolos históricos, mas ele modificou a paisagem onde o tradicional andava de mãos dadas com a modernidade, além de ferir um dos maiores orgulhos nacionais no seio dessa sociedade que apesar da importância da hierarquia, não hesita em dar-se as mãos e lamentar em uma só voz.

Certo, mas qual a diferença do enterro de tijolos de Seul da do “Ground Zero” em Manhattan, você me pergunta? Bom, face a essa questão, eu sou obrigada a responder com uma outra pergunta: qual o significado e a importância que as palavras “ancestral” e “vergonha” tem para você, nativo ou residente de Nova Iorque ou de Seul?

Luciana B. Veit
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A Internacional Experiência Nacional


passaportes

Hoje, a Alemanha exige que aqueles que desejam se naturalizar alemães após 8 anos de residência no país, façam o Teste da Sabedoria Nacional. Em primeiro lugar, para o estrangeiro sonhar em fazer o tal teste, ele deverá possuir um ótimo nível do idioma alemão, e em segundo lugar saber de tudo um pouco: história, geografia, política, personalidades do campo artístico ou científico.

Por exemplo: casada com um cidadão alemão ou ainda solteira, empregado de uma empresa alemã ou talvez desempregado - não há escapatória. Quem quiser se naturalizar, tem que passar o teste.
Assim que a notícia virou manchete de jornal não há muito tempo, teve gente que bateu palma para a iniciativa e teve gente que xingou.

A Rússia também passou a exigir que aquele que deseja trabalhar no país – sem precisar se naturalizar – passe por um teste de conhecimento básico da língua russa; mas enquanto isso do outro lado do oceano, candidatos à presidência dos Estados Unidos procuram ganhar a atenção dos eleitores de língua espanhola, que independentemente de sua origem, são norte-americanos.

Com a globalização, o mundo ficou menor sem dúvida, e subir em um avião e descer horas mais tarde do outro lado do mundo já não é mais tão exótico assim, sem contar com o crescimento da Europa em si, onde poloneses e romenos se alegram de poder legalmente começar uma vida nova em um país mais desenvolvido.

Eu, sendo expatriada, me pergunto: como estrangeiros temos ou não o dever de nos empenhar para aprender a chamada Sabedoria Média Nacional (o que inclui o idioma e cultura no geral) do país que nos acolheu, sendo de passagem ou definitiva? Até que ponto nos sentimos obrigados a mergulhar de cabeça na experiência estrangeira?

Para um forasteiro essa questão não é tão fácil assim, porque às vezes se adaptar significa anular todo o background que acumulou até o momento, por mais que aquilo que se está para ganhar em poucos meses poderia ser duas vezes mais do que aquilo que ele ganhou a vida toda. Alguns até acreditam que é o país acolhedor que tem o dever de se enquadrar nos costumes dos seus visitantes. Quando esses países fazem isso (ex. Emirados Árabes Unidos e regiões dos Estados Unidos), eles terminam por perder um pouco a sua identidade nacional, e quando eles não se importam em se enquadrar nos costumes de seus visitantes (como a Rússia, a Alemanha ou a Grã-Bretanha), são às vezes chamados de intolerantes.

O que é que queremos, então? Para aquele que já imigrou ou que está pensando em imigrar, vale se perguntar: até que ponto estou disposto a me adaptar? Conseguirei viver feliz longe de tudo aquilo que me fez crescer? Estou aberto para abraçar o mundo do jeito que ele é, ou tenho a necessidade de transformar tudo ao meu redor?

Como a verdade sempre se encontra entre duas alternativas, ela nunca será absoluta, mas ainda sim existem coisas que jamais poderemos mudar. Por isso nossas únicas opções a respeito do país estrangeiro escolhido por vontade própria ou por necessidade continuam sendo: te amo ou te deixo...

Luciana B. Veit
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O Orgulho da Vergonha


monumento

Uma adolescente entrega pela primeira vez um relatório de suas mais recentes e marcantes atividades para ambos os pais que trabalhavam fora durante o almoço de domingo:

Dia 01 de janeiro de 2008: Mal consegui ouvir a Bianca me chamar de manhã de tanto que tinha enchido a cara na noite anterior. Para falar a verdade, não me lembro como voltei para a casa dela e nem no que deu com aquele carioca gostosão.

Dia 14 de janeiro de 2008, 14.47 h: De um orelhão do boteco do Gibão, Passei um trote animal para a vizinha, com quem não vou com a cara, dizendo que era do Hospital das Clínicas e que seu filho estava em coma por conta de um acidente de moto. Nesta hora, o moleque havia desligado o celular porque estava assistindo um filme no cinema com meu namorado.

Dia 23 de janeiro de 2008, por volta das seis horas da manhã: Antes de voltar para a casa e após ter passado a noite todinha pelada fumando maconha enrolada nos lençóis com meu namorado, ligo para a casa da Bianca para perguntar se meus pais haviam telefonado para ela no meio da noite – onde eu deveria ter estado.

Dia 03 de fevereiro de 2008: Caramba! Agora não tem mais jeito! Vou ter que explicar que repeti de ano na escola e que falsifiquei o boletim. Mas minha coragem me faz heroína!

Os pais da adolescente estavam de queixo caído, mas a estória dela não acaba por aqui, porque ela diz:

– E então, depois de terem lido o livro aberto da minha vida, vão aumentar minha mesada ou o que?

Naquela mesma tarde, uma mulher na faixa dos seus 40 anos com um rosto e um corpo de 28, também resolve acabar com todos os segredos que toda mulher tem e deve preservar. Ela conta para o marido, um dia após terem comemorado nove anos de casamento:

– Sabe benhê, nesse estágio da nossa vida, acho que deveríamos ser mais abertos um com o outro. Dizer tudo o que passa na nossa cabeça: nossos sonhos, nossas frustrações, nossas fantasias sexuais...

O marido estava gostando para onde estava conversa naquela tarde preguiçosa estava caminhando. Então a mulher prossegue:

– Por exemplo, aquele meu sonho de passar um semana em um cruzeiro nas ilhas gregas irei finalmente realizar, mas sozinha. Aquele fulano de corpo ornamental que prometeu me tirar da rotina foi uma frustração só, e por isso deixarei para realizar minhas fantasias sexuais com o primeiro que cruzar o meu caminho e quiser fugir comigo para alguma praia deserta do Mar Egeu durante um dia inteiro. Mas não se preocupe, quando voltar, prometo de contar tudo nos detalhes e até te ensinar alguns novos truques.

A cabeça do marido da fulana estava roxa de ódio, mas para ele explodir de vez, ainda teria que ouvir:

– E tem mais benhê, não se esqueça que para o nosso aniversário do ano que vem, eu exijo uma jóia e não somente um bouquet de flores vagabundo com uma caixa de chocolates nacional, como foi o caso esse ano!

O que está acontecendo com o mundo, se pergunta?

Bom, tanto a adolescente quanto a mulher de 40 anos tomaram por exemplo a cidade de Berlim na Alemanha. Uh? O que isso tem a ver? É fácil, qual é a única cidade de mundo que se orgulha de sua vergonha? Como prova, que tal os diversos monumentos construídos pela capital afora? Memorial dos Judeus Assassinados na Europa, Monumento das Vítimas do Muro de Berlim, Monumento dos Homossexuais e Ciganos Perseguidos durante a 2°Guerra Mundial, Monumento das 20 mil Vítimas da Eutanásia da Alemanha Nazista e por aí afora, incluindo carros alegóricos do outro lado do Oceano Atlântico que expõe de uma maneira vulgar os fantasmas do Holocausto? Ótimo! Já que estamos falando a respeito, aposto que tem gente fazendo planos de erguer mais um monumento da chegada de Hitler no poder, o que foi o caso há 75 anos.

Com tantos monumentos da vergonha, muitos se perguntam: qual a mensagem que devo extrair de tudo isso? Deveria me envergonhar pelas coisas ruins que fiz e cava-las em um buracão fundo e nunca mais tocar no assunto, procurando assim esquece-las, chutando a bola para frente; ou construir monumentos, escrever relatórios detalhados de todos os meus erros como ser humano, publica-los em revistas e em blogs, exigindo indiretamente um elogio ou até uma recompensa pela minha honestidade? Será que as faltas não serão mais punidas em nome da honestidade? Se isso acontecer, os mais pecadores e criminosos terão pelo menos algumas coisas para se orgulharem nesta vida.

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Isolamento Social


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Os verdadeiros amigos se mostrarão quando estiver caído no poço, certo? Errado, pelo menos de acordo com o meu ponto de vista que foi provocado através de um livro de um dos maiores escritores brasileiros da atualidade. Ele afirma que quando estamos desfrutando de algum sucesso é quando os invejosos se afastam ou criam problemas por não suportarem a felicidade alheia, por não mais serem os donos do jogo.

Agora como tudo na vida é relativo, o que é sucesso? Nos olhos de um sucesso significa ter muito dinheiro vivo ou investido. Nos olhos dos outros sucesso pode ser uma carreira invejável, daquelas que quando tiver assoprado as velinhas do 40° aniversário já terá alcançado tudo que havia sonhado alcançar um dia. Mas nem tudo é dinheiro e poder nessa vida, não? Sucesso também pode vir na forma de uma família estável, de filhos inteligentes e saudáveis e parceiro/a (quase) sem defeitos.

No entanto, nada é e pode ser perfeito, mas esse lado menos luminoso não interessa aqueles que resolvem virar as costas para os outros. Quanto mais nada-se contra a corrente, mais o indivíduo estará no centro das atenções, logo, mais isso o afastará dos outros, inclusive dos amigos mais próximos, membros íntimos da família que mentem e sorriem por fora quando corroem a inveja por dentro.

Ossos do ofício, conseqüências dos nossos atos? Talvez. Mas isso não significa que temos aceita-los sem rebelião, por mais silenciosa que ela possa ser.

Pode ser que esteja dando voltas, pode ser que algo tenha me deixado triste, pode ser que resolvi filosofar nessa manhã cinzenta e fria da Alemanha ou pode ser que sinta a necessidade de me aproximar de alguém (nem que só em energia) que esteja considerando as meias-verdades e as verdades inteiras desse texto.

Agora como lidar com o sucesso – seja lá o que ele for para você? Abdicar dele só para evitar o isolamento social ou ignorar tudo a sua volta e seguir em frente em um caminho no qual somente muitos poucos tem a coragem de tomar?

Para mim a resposta é fácil, por mais que dolorosa, mas e para você?

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O Hóspede Ideal


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Vivendo em diversos países, expatriados tendem a receber amigos internacionais e familiares em suas casas por um período determinado (graças a Deus).

Façamos agora uma análise dos estereótipos deles:

Existe aquele que quando chega em sua casa confere se todas as paredes estão pintadinhas, os móveis limpinhos, a comida fresca e absolutamente elaborada, fala pouco e ainda aguarda por escrito um programa cultural que os anfitriões pensarem durante semanas a fio com consideração e máxima atenção. Paga somente pelas suas despesas pessoais, como entradas para museus e refeições nos restaurantes.

Tem aquele que quando chega em sua casa leva a palavra “férias” bem a sério. Não arruma nem a cama onde dormiu, te mostra onde deixou suas roupas sujas, não acha que deve ajudar na cozinha, escolhe o programa cultural a dedo sem levar em consideração como fará para chegar lá e acha que o anfitrião deve pagar por todas as suas despesas.

Agora já o próximo estereotipo é aquele que não quer dar trabalho. Arruma a cama dele e a sua, pendura sua roupa lavada, inclusive as suas peças mais íntimas, sugere o menu do jantar, paga suas despesas pessoais e te convida com freqüência para restaurantes e teatro. O problema é que por se achar o dono do jogo, começa a querer dar palpite no seu jeito de fazer as coisas, diz que escuta música demais e até tenta se apossar do controle remoto da televisão.

Também tem aquele que se auto convida e que viaja com a família toda, inclusive sogra, tio-avô e animais domésticos. Se a casa vai ficar cheio e barulhenta demais? Quem se importa? O importante é a família unida. Esses daí querem fazer absolutamente tudo junto. O anfitrião não tem espaço nem para se deitar na banheira à noite porque o convidado vai achar que eles também deveriam estar juntos, curtindo cada instante da reunião familiar ao máximo. Privacidade é uma palavra que eles não conhecem. E toda e qualquer decisão, mesma essa sendo a mais banal de todas como qual prato devo escolher no restaurante, tem que ser discutido em família.

E o naturalista? Anda com a toalha enrolada nos quadris pingando água pelo chão (achando que já está fazendo demais por se cobrir), não come carne, não usa sapato de couro e só senta e inclusive dorme no chão, não usa pasta de dente e nem desodorante. Não reprime os filhos pequenos por tocarem os seus móveis e os seus objetos de arte com as mãos meladas de suco ou de chocolate e nem quando pulam no seu sofá, porque está orgulhoso demais da energia que eles tem para dar e vender. É claro que ele não vê o seu desespero com medo de ver as mesmas preciosas crianças fazendo descontroladamente as necessidades biológicas no seu tapete persa, pelo fato de andarem peladinhas o tempo todo. Programas culturais? Para que? Eles só querem filosofar sobre sentimentos e curtir a natureza, fazendo passeios no bosque, comendo ao ar livre, curtindo o momento sem stress e esquecendo do tempo, inclusive do seu. Eles não se preocupam em pagar nada porque acham que a natureza oferece tudo de graça.

Ainda existe mais um estereotipo de hóspede, talvez o pior de todos, que é aquele que cospe no prato que comeu, falando mal de você e da sua cidade depois que voltou para sua rotina, sem se importar ao mínimo com o esforço que você teve para recebe-lo.

Por isso pergunto: para você, qual é o hóspede ideal? A opção “nenhuma das alternativas citadas acima” também vale...

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Pelados


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Já faz algum tempo que aqui na Alemanha um homem recebeu seu direito na justiça de andar nu durante quinze minutos nas ruas de Berlim.

Se ele continua fazendo isso, eu já não poderia saber. Mas o que eu sei, é que cada vez mais os alemães brigam na justiça pelos seus direitos mais, digamos, naturalistas. Não é de hoje que os parques de “FKK” (nudez absoluta) tem ganhado popularidade, mas fora isso moradores de casas ou de apartamentos se acham cada vez mais no direito de andarem pelados nos seus territórios pelo tempo que eles acharem melhor – inclusive no terraço ou no quintal.

Outro dia, uma senhora chamou a polícia porque seu vizinho só andava pelado. A polícia por sua vez foi sensata o suficiente de pedir para a velhinha espiar outro vizinho, porque o pelado em questão estava no direito dele.

Mas aí o tema se alastrou: uma jornalista fez uma pesquisa em várias cidades alemães perguntando quanto tempo uma pessoa deveria andar pelada em sua própria casa: uns disseram “até o creme hidratante secar”, outros responderam “até ela ficar com frio” e outras ainda opinaram “até ela receber alguém na porta”.

Mas e se todos os amigos do naturalista forem pelados por convicção, combinando de se encontrarem pelo menos uma vez por mês para pizza e DVD? E se o entregador de flores ou de cartas tocar a campainha de repente? Nesses casos o pelado não teria mais direitos, ainda dentro de sua casa?

- Sim, mas isso é uma putaria – os mais conservadores devem estar dizendo. – E quanto às crianças que moram debaixo do mesmo teto?

Ora! Sejamos francos! Ficar pelado não é tão natural quanto comer pão? Garanto que crianças que crescem em um ambiente naturalista e sem grandes tabus não vêem nada de mal nisso. Quando se tornarem adultos, também entenderão que sexo também é algo natural se feito com amor e sem frustrações ou inibições. Animais andam pelados e alguns de nossos comportamentos também nos colocam em posições delicadas, como se estivéssemos nus andando na rua.

A verdade é nua e crua: não somos tão diferentes dos animais, que nem sempre agem por instinto (um safári na África ou uma observação a longo prazo do seu animal doméstico provará isso...).

De volta na Alemanha, a idéia de motéis (desses iguais do Brasil, Coréia e Japão, por exemplo), onde os pombinhos vão para se curtirem mais intimamente jamais fará sucesso aqui, porque tanto os filhos quanto as filhas são encorajados pelos pais para trazerem seus parceiros para seus quartos dentro de suas casas, porque já que eles farão isso mesmo, que façam num ambiente decente.

Em vários paises da Europa Central ficar de topless à beira de um rio ou andar sem sutiã não provocará risadinhas bobas de homens que obviamente não viram seios o suficiente em suas vidas, e casais gays (inclusive sob o ponto de vista legal) não serão apontados na rua.

Na questão de andar pelado na própria casa com as janelas abertas, o único problema que eu vejo, é que não podemos saber o estado mental dos vizinhos. Eles bem que poderiam ser pedófilos, estupradores, canibais e por aí afora. A polícia mesmo afirma que a maioria das vítimas de assaltos sexuais já estavam na mira dos criminosos por algum tempo – sendo observadas com cautela dia e noite.

Sendo assim, valeria a pena não colocar em risco a sua segurança e a de seus entes queridos e próximos em nome do M.A.R.A.P. (Movimento Abolicionista de Roupas em Ambiente Particular), mas se seus direitos de estarem pelados por tempo indeterminado gritarem mais alto, pense em pelo menos fechar as janelas ou apagar as luzes de noite.

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Comece o Ano com o Pé Direito


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O Natal passou, o Réveillon acabou. Aqueles votos de felicidade gerais continuam valendo mesmo para aqueles que não os receberam, no entanto as promessas que fez para si e para os outros começam a valer agora.

Já é 2008, o sol já raiou, os feriados terminaram e por isso não temos mais desculpas de deixarmos de fazer as coisas que temos vontade ou em muitos casos até obrigação de fazer.

Passar nos estudos sem provas de recuperação, começar aquela dieta no qual terá que mudar seu hábito de vida para mais saudável, se matricular naquele curso noturno de idioma estrangeiro, largar o marido violento ou a esposa abusiva, programar aquela viagem dos seus sonhos, enrolar as mangas e dar início aquele novo projeto profissional e principalmente parar na frente do espelho a encarar a si mesmo e deixar todas as outras desculpas de lado.

Aceitar que seu filho ou parceiro precisam de mais atenção, que sente uma pontinha de felicidade quando ouve dizer que o fulano X ou Y se deu mal, que não está feliz com sua forma física, que às vezes sente inveja dos outros, que tem medo de mergulhar em novos relacionamentos para não se machucar, que acha mais confortável e fácil continuar sofrendo do que dar um passo maior que a perna em direção ao desconhecido ou então aceitar que os vícios (sejam lá quais forem) tomaram conta da sua autonomia.

No momento em que aceitar tudo isso que citei acima e todas as outras as coisas que eu não citei, já estará dando o primeiro passo para seu progresso. Esse primeiro passo é assustador e nem tão fácil quanto parece, mas quando dado, se perguntará: por que não fiz isso antes? Os mais cientes se darão conta que ainda podem voltar a segurar as rédeas do destino a tempo, mas nem todos terão essa oportunidade.

Sendo assim, desejo a todos os meus leitores um novo ciclo repleto de amor e compreensão universais, grandes e pequenas realizações e saúde física e mental, porque fora isso tenho absoluta certeza de que não precisamos de mais nada, pelo menos nada que possamos levar conosco quando o nosso dia de partir dessa era chegar.

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